Salvador

'O bebê chorava muito', diz socorrista que retirou vítimas de carro

Bebê de três meses e pai sobreviveram; mãe morreu

Tailane Muniz, do Correio 24h

O acidente que matou a assistente social Ana Carolina Andrade, 32 anos, e deixou feridos o filho dela, um bebê de 3 meses, e o marido, Leandro Nery, 36, é narrado pelo socorrista Eric Mascarenhas, 22, como uma das cenas mais tristes de sua vida. Técnico em segurança do trabalho das obras do metrô, foi Eric quem retirou pai e bebê do veículo, atingido por um guard rail [proteção de metal], na manhã desta terça-feira (3), na Avenida Paralela, na região do bairro da Paz, em Salvador. 

Foto: Evandro Veiga

"Foi chocante em um nível absurdo. Eu só tive reação para tirar o neném lá de dentro porque ele [o bebê] chorava muito e estava completamente sujo de sangue. Acredito que ele pode ter se cortado com os vidros do carro, ele tinha um pequeno corte na cabeça. O pai estava desacordado. Acordou em minutos, mas, apesar de acordado, não conseguia falar nada", relatou ao CORREIO. Segundo ele, o bebê estava sentado em uma cadeirinha - que não foi atingida. 

Eric comentou com a reportagem que Ana Carolina ainda estava viva quando ele fez o resgate do bebê. "Ela não estava totalmente consciente, os olhos estavam abertos e ainda respirava. Muito ofegante, agonizava. Eu vi que ela estava presa ali, então procurei não mexer. Então eu e outros colegas [operários] tiramos o bebê e, em seguida, tiramos ele", comentou ele. Formado bombeiro civil, Eric conta que a experiência com primeiros socorros permitiu observar que a criança começou a apresentar sinais de obstrução de veias.

"Notei que ele estava roxeando demais o corpo, então meu desespero era retirar ele de lá o quanto antes. E o nervoso do pai, eu acredito, era pela consciência de ter visto o filho dele ali, ensanguentado. A ambulância já estava parando aqui, então eles foram rapidamente socorridos e eu espero que estejam bem".

Foto: Evandro Veiga

Pai e filho foram levados por uma ambulância do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) para o Hospital São Rafael, segundo a Secretaria Municipal de Saúde (SMS). Ana Carolina morreu pouco tempo depois. "Não tinha como ela sobreviver porque foi uma coisa muito brutal. Eu fico muito triste, uma cena dessas choca a vida da pessoa", completa ele.

Pai da pequena Eloá, de 2 anos, Eric comenta que o instinto paternal foi o que lhe motivou a ajudar as vítimas. "A gente se coloca no lugar. Eu sou pai, não gosto nem de imaginar passar por uma situação assim, ver um filho daquele jeito, ver a mulher naquele estado. Algo extremamente difícil", analisa o socorrista.

Acidente

O acidente aconteceu por volta das 8h40, na região do Bairro da Paz, sentido aeroporto. A proteção metálica atravessou todo o veículo pelo lado da motorista. Viaturas da Polícia Militar e da Transalvador permaneceram no local durante toda manhã.

O corpo de Ana Carolina foi retirada pelo Corpo de Bombeiros por volta de meio-dia, após uma equipe do Departamento de Polícia Técnica (DPT) realizar perícia. 

"Eu não vi tudo, mas vi que ela chocou primeiro contra o guard rail, girou e nessa o outro carro, um  J3 da Jac Motors, veio e bateu nela. Aí já era tarde. Ela morreu na hora", disse um operário, sem se identificar.

Conforme Eric Mascarenhas, foi possível ouvir o barulho causado pelo impacto entre o veículo, um Voyage prata, com o guard rail. Um segundo carro, modelo J3 da Jac Motors, chegou a bater no carro conduzido por Ana Carolina, que trafegava sentido Aeroporto. "Eu escutei o barulho e o carro já estava assim, virado na contramão. O motorista do outro veículo [Jac], coitado, bastante nervoso, disse que ainda tentou desviar. Me aproximei e fiquei apavorado quando vi o bebê", disse.

Perito do DPT, Agnaldo Petrônio afirmou que ainda é cedo para apontar as causas do acidente. "Alguma coisa impulsionou a motorista para a esquerda. É cedo para fazer qualquer afirmação, ainda vamos periciar o segundo veículo [J3], mas, por alguma razão, a motorista inclinou para a sua esquerda e acertou o guard rail", afirmou ao CORREIO. 

Ainda conforme Agnaldo, a perífica não encontrou indícios que indicassem que Ana dirigia em velocidade acima da permitida. "Mas só a perícia finalizada poderá indicar as causas", ponderou Agnaldo. Segundo o perito, a vítima sofreu lesões em toda perna esquerda, atingida pelo equipamento metálico.

Não há informações sobre o estado de saúde de Leandro Nery e do filho. O laudo pericial com as causas do acidente podem levar até 90 dias para ficar pronto, segundo o DPT.