Salvador

Pedreiro lucra R$ 250 por dia alugando cadeiras na fila do TRE

Confira histórias de outros 'empreendedores da biometria'

Nilson Marinho, do Correio 24h
Foi depois do chá de cadeira na fila dos guichês de atendimento para o recadastramento biométrico no Tribunal Regional Eleitoral da Bahia (TRE-BA), no CAB, que o pedreiro desempregado Rogério Cardoso, 48 anos, teve a ideia: reuniu 20 cadeiras para serem alugadas para os eleitores mais cansados. Cada assento é alugado por R$ 5. 
"Eu estava aqui fazendo a minha biometria, mês passado, quando reparei que as pessoas precisavam de um lugar para sentar e eu de dinheiro. Já estava desempregado há três meses, precisando fazer alguma coisa", conta Rogério. Como ele, outros 'empreendedores da biometria' estão trabalhando para que os eleitores passem a espera com algum conforto.
Ele chega a faturar R$ 250 por dia. Quando estava trabalhando como pedreiro sua diária nunca passava de R$ 50. Rogério tem o pé de meia garantido até o dia 31, prazo final para o recadastramento. E além de segunda à sexta, pode faturar também aos sábados: o TRE passa a funcionar nos quatro sábados do mês (6, 13, 20 e 27), das 8h às 18h.
O amigo de Rogério, que também está desempregado há três anos, viu no sufoco dos outros uma solução para garantir o seu sustento. João Paulo Santana, 35, chega ao CAB às 4h, trazendo 30 banquinhos alugados também por R$ 5.
"É honesto. Quando estou trabalhando aqui, a minha mulher já fica ciente de que pode colocar a água no fogo pro feijão de mais tarde. É garantido. Coloco tudo dentro de casa: o dinheiro do aluguel, arroz, carne, frango...", lista João.

Mas tem também solidariedade na fila. Quem já alugou a cadeira, não se incomoda de 'emprestar' para outros eleitores. A professora Railza Gonçalves, 51, contou com a generosidade da colega de fila, que, gentilmente, pediu para que o marido desse lugar a ela. "É assim, preferência para elas. Aqui vamos na dança da cadeira, cada hora um senta pra descansar, tá todo mundo no mesmo barco", brinca a professora. 

Foto: Mauro Akin Nassor/CORREIO

'Aceito débito'
E no meio dos eleitores surge a comerciante Sandra Lima, 31, empurrando seu carrinho de lanches. Com um microfone pendurado na orelha - para não cansar o gogô na gritaria. "Olha o lanche, aceito débito, viu?", grita Sandra. O aparelho foi comprado só para ajudar na divulgação do negócio. 
Para aqueles que não fazem dieta, tem o croissant ou o pão pizza com um recheio generoso de cheddar. Para os eleitores mais exigentes que seguem uma dieta restrita, sanduíche ligth acompanhado de um suco detox. Pra todos os gostos. O salgado custa R$ 3,50. Com suco, o preço do lanche fica por R$ 5.
Sandra já trabalhava por ali, em frente à Secretaria da Segurança Pública da Bahia (SSP-BA), que também fica no CAB. Quando percebeu que a movimentação estava aumentando, partiu para o prédio vizinho, para a tristeza dos antigos fregueses. 
"Eles sentem minha falta, me procuram. Tive que colocar outra pessoa pra fica lá, mas não deu certo",disse. Abastecendo exclusivamente os eleitores, ela chega a ganhar duas vezes mais do que antes. Para os antigos clientes um recado: "Só volto pra lá depois do dia 31", brinca. 
O movimento deve continuar intenso até o prazo final: são esperados 880 mil eleitores, de acordo com o TRE-BA. O número é dos que ainda não se cadastraram e devem procurar os guichês do órgão para regualizar a situação. Quem não realizar o recadastramento terá o título cancelado, o que implica em não poder votar nas próximas eleições, além de ficar impedido de obter passaporte, tomar posse em concurso público e receber auxílios do governo, a exemplo do Bolsa Família.

Para fazer a biometria os eleitores precisam ter em mãos um documento original com foto e comprovante de residência atualizado.

Foto: Mauro Akin Nassor/CORREIO

Precavido

O motorista Pedro Antônio Santana, 57, trouxe uma cadeira no porta-malas do carro, que ficou estacionado ali próximo enquanto ele e a mulher esperavam. Embora more na cidade de São Felipe, no Recôncavo baiano, há três anos, o cartório eleitoral do motorista ainda é em Salvador.

Nesta quarta-feira (3), após chegar à cidade com a família, Pedro seguiu direto para o CAB, para espiar o movimento. Se assustou com o que viu. "Vim para sondar como estava o movimento, eu já sabia que seria grande, mas não imaginava que essa fila daria voltas". Ele que não é besta nem nada, além da cadeira, também trouxe um isopor para deixar fresco o sanduíche e a água.

                                                  Foto: Mauro Akin Nassor/CORREIO

Onde fazer

Além da sede do TRE, o cidadão também pode ir aos postos Estação Pirajá do Metrô, com atendimento espontâneo, das 7h às 12h, mediante distribuição de senha; e SAC Barra, das 9h às 13h, sendo obrigatório o agendamento no site do SAC.

Os postos voltaram a funcionar na última terça-feira (2) e longas filas se formaram na sede do TRE. A partir de agora, a sede do tribunal vai atender apenas por demanda espontânea. Apenas os eleitores que agendaram antes do dia 1° deste mês serão atendidos com hora marcada em outros postos de atendimento. O TRE-BA não abrirá novas vagas.