Salvador

Presente ecológico antecipa homenagens a Iemanjá na Gamboa de Cima

Composto por materiais biodegradáveis, presente foi entregue para a orixá

Luan Santos, do Correio 24h

Pelo quinto ano consecutivo, a comunidade da Gamboa de Cima antecipou a entrega de presentes para Iemanjá, que ocorre no dia 2 de fevereiro, quando é celebrado o dia da orixá. Neste domingo (28), moradores da comunidade, adeptos do candomblé e devotos de Iemanjá participaram do Presente Ecológico da Sereia, que tem uma peculiaridade em relação à celebração tradicional: perfumes, sabonetes e espelhos ficam de fora e dão lugar a materiais biodegradáveis.

Foto: Luan Santos/CORREIO

As atividades da ação foram iniciadas na última segunda-feira (22), com uma série de eventos realizados no Solar do Unhão, que culminaram com a oferta do presente. Os participantes saíram em cortejo da sede da associação de moradores do local e seguiram até o píer, onde a sereia feita com materiais biodegradáveis e dois balaios com presentes foram colocados em um barco. De lá, seguem para o mar e entregam as oferendas a Iemanjá.

Como o objetivo é conscientizar sobre a preservação da natureza, o balaio é retirado da água logo que os materiais são entregues. "Iemanjá quer de nós respeito, amor, entrega e doação. Não são os materiais, mas a entrega do coração", afirma o historiador Marcos Rezende, coordenador-geral do Coletivo de Entidades Negras (CEN).

Segundo ele, a ideia de antecipar a entrega do presente é conscientizar as pessoas sobre a importância da preservação do meio ambiente e, assim, evitem descartar materiais poluentes como forma de homenagem. "Iemanjá está sempre equilibrando as águas para que nelas as pessoas possam ter equilíbrio. O presente ecológico é uma forma de manter o equilíbrio do meio ambiente", pontua.

No balaio, vão flores e alguns alimentos, como chocolate. Um dos balaios é dedicado a Iemanjá e o outro a Oxum, orixá das águas doces. Todas as oferentes que integram o presente foram preparados durante a madrugada pela equede Noélia Pires, do terreiro Ilê Axé.

Foto: Luan Santos/CORREIO

"Começamos os preparos à meia noite e adentramos a madrugada, para que o alimento não fique de um dia para o outro. No presente só tem coisas que os peixes podem comer. A ideia é não prejudicar a natureza, mas sim preservá-la e, ao mesmo tempo, homenagear Iemanjá e Oxum", conta ela, que prefere não revelar quais são os produtos que compõem as homenagens, por se tratar de ofertas aos orixás. Ela é uma das organizadoras do evento desde a primeira edição.

Além dela e dos moradores da comunidade, outras pessoas também levam presentes. Contudo, todos são avaliados antes de irem ao mar. "Só deixamos passar os materiais biodegradáveis", diz a equede.

Para ela, a tradição não é quebrada pela falta de perfume e sabonetes, que são muito comuns durante o dia 2 de fevereiro. "De forma nenhuma. A tradição é mantida, mas agora com uma consciência maior sobre a preservação da natureza, mostrando que ela deve estar sempre limpa", pondera.

Quem também participa desde o primeiro ano é o presidente da associação de pescadores da comunidade, Gerson Bonfim, 54 anos. "O mais importante daqui é a mensagem que passamos, da importância de preservar a natureza, especialmente aquele espaço que é também de onde tiramos nosso sustento, que é o mar", comenta.

Gerson é um dos que sempre fazem questão de carregar o presente ao longo do cortejo. "É, também, um momento de agradecer pelos peixes, pela saúde, pelo mar, além de renovar os votos para um ano próspero", diz.

Com flores nas mãos, o cantor Sander Ribeiro também foi entregar presentes para Iemanjá. Pelo primeiro ano ele participou da do presente ecológico. "Sempre vou no dia 2 de fevereiro, mas aqui ainda não tinha vindo. É uma festa muito bonita, que passar uma mensagem muito propícia para o momento, que é de preservação do meio ambiente", diz.

O cortejo foi iniciado por volta das 11h30 e durou cerca de meia hora. Como a maré iria começar a abaixar às 13h, eles foram para o mar para entregar os presentes com a maré ainda alta. Os cânticos foram conduzidos pelo afoxé Filhas de Gandhy.