Salvador

Rainha de todas as águas: conheça a história da orixá Iemanjá

O iBahia conversou com o antropólogo Vilson Caetano para entender a história da orixá e entender o motivo de Salvador ter se tornado um lugar de devoção à Iemanjá

Carlos Bahia* (carlos.filho@redebahia.com.br)
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A próxima terça-feira (2) marca um dos dias mais importantes do ano para diversos baianos: o famoso 2 de fevereiro, dia de Iemanjá. Mesmo sem possibilidade de festa na rua por conta da pandemia de covid-19, cada devoto fará seus agradecimentos e mostrará a adoração à rainha do mar e a história de Iemanjá ajuda a entender o porquê de tanta devoção à orixá.

Se engana quem pensa que Iemanjá é "só" a rainha do mar. "Iemanjá e Oxalá formam o par mítico da criação. Acredita/se que Oxalá é um oleiro. Ele modela os nossos corpos e Iemanjá toma conta das cabeças. Por isso que ela é também invocada como Ia Ori, a dona das cabeças. E é na cabeça, no ori, que encontra-se o nosso destino, o nosso caminho ou as possibilidades para agirmos e fazer escolhas no mundo. Ela é invocada como uma Grande Mãe", explica ao iBahia o doutor em antropologia, professor da UFBA e Babalorixá Vilson Caetano. Ele também conta que a Dona das Águas é também chamada de Dona Janaína, Iara, Princesa de Aiocá, Iara, Kaia e outros diversos nomes.

Para o especialista, Iemanjá também pode ser considerada a mãe da diáspora. "Seu culto está espalhado por todos os lugares da América onde desembarcaram africanos iorubás", diz. A adoração à orixá também pode ser encontrado na região onde hoje é a Nigéria, através dos egbás (grupo do sul do país) e também na região de Abeokuta, no sudoeste.

Ligação com Salvador

A história de Iemanjá com a capital baiana começou há bastante tempo, especialmente com a chegada dos povos africanos na época da colonização. A localização geográfica de Salvador ajuda a explicar a forte ligação adquirida com Iemanjá.

"A Dona das Águas, também chamada de Dona Janaína, Iara, Princesa de Aiocá, Iara, Kaia e tantos outros nomes logo foi cultuada numa cidade onde abundavam fontes, rios, cachoeiras e que logo depois da sua fundação por volta do século XVII ganhou um Dique", diz o antropólogo.

Foto: Paula Fróes/GOVBA

"Como a cidade de Salvador é à beira mar, ou também, uma cidade das águas, porque dependia das águas para sobreviver, o culto a Rainha do mar, que na verdade é Rainha de todas as Águas, se fez presente desde cedo. Ora pela presença africana, ora pela presença dos mouros através dos portugueses, ora pela presença dos povos originários que também tinham a sua divindade que tomava conta das águas", explica.

Salvador se tornou palco da celebração a partir de um terreiro de candomblé de nação Ijexá extinto chamado Língua de Vaca, localizado onde atualmente fica o Departamento de Polícia Técnica da Bahia, no bairro do Garcia. Isso também ajuda a explicar a devoção ao orixá Oxum. 

"Oxum é a maior divindade do povo Ijexá e, ao longo do Dique do Tororó, várias famílias Ijexá se estabeleceram, dentre elas a de Júlia Bugan, fundadora do terreiro Ijexá Língua de Vaca. Foi da casa de Tia Júlia que saiu, acertadamente, os primeiros presentes em direção ao Rio Vermelho, que até os anos 1950, por ocasião da morte de sua sucessora Emília de Xangô, eram levados em procissão pelo meio da rua, ao som de pequenos atabaques tocados também por mulheres chamados ilu ou coligiu", relata o professor.

Presentes de Iemanjá

Um dos rituais mais marcantes do 2 de fevereiro é a entrega dos presentes para a rainha do mar. Para Vilson, presente é uma oferenda, que por sua vez é uma troca. "Se troca aquilo que precisamos para viver. O presente é um agradecimento. Uma vez ao ano, não se trabalha e vai ao mar para agradecer. No continente africano ainda hoje se faz isso", conta.

Foto: Pedro Moraes/GOVBA

O babalorixá alerta para o problema que a presença do plástico nas oferendas trouxe. Para além dos impactos ambientais, o material não deve ser oferecido para o orixá. "plástico e seus derivados e vidro não são presentes. Eu costumo dizer que devemos oferecer apenas o que os peixes comem porque Iemanjá se encanta nos peixes. Ela é um grande peixe", resume.

Apesar disso, a festa é a maior de origem africana na cidade de Salvador, segundo Vilson. O termo, inclusive, não é muito simpático ao professor. Prefiro Presente de Iemanjá, porque é um presente", sintetiza.

*sob orientação da repórter Isadora Sodré