Salvador

Terceira idade também freta e mete dança: conheça os points

Muita seresta, perfume, meia luz e até homens casados: as noitadas preferidas para dançar juntinho em Salvador por uma galera que tem, em média, 60 anos

Daniel Silveira, do Correio 24 horas

Sexta-feira, por volta de sete da noite. Enquanto ruas e calçadas do centro da cidade vão ficando vazias, os bares começam a ficar movimentados. Durante o dia, o Largo do Rosário é ponto de vendedores ambulantes.

À noite, recebe cadeiras, mesas e se torna point de happy hour. Um observador desatento pode até não perceber que, aos poucos, senhoras e senhores perfumados e muito bem vestidos - alguns até de paletó e gravata - compram ingressos, passam por uma porta e sobem uma longa escada. 

No primeiro andar da casa de número 5 é onde o couro come, ou melhor, onde a sola do sapato é gasta. É o Lugar Comum, onde grupos animados, uma galera com pelo menos 50 anos, se joga na dança de salão.

“Esses locais são os melhores para tomar uma cerveja”, afirma, categoricamente, uma das frequentadoras, Dalva Sacramento, de 60 anos. A aposentada conta que, por receio da violência das ruas, passou a frequentar clubes e bares da cidade que têm como atração serestas e bandas que tocam bolero e forró. 

Os espaços estão em diversos bairros da cidade. Além do Lugar Comum, nas Mercês, tem o Clube Comercial, que fica na Avenida Sete, o Mousa, na Liberdade, o Bogary, na Ribeira, o Kantarerê em Patamares, o Kitutes de Yayá, no Campo Grande, o Clube Espanhol, na Barra. Esses são os mais famosos e populares. 

Ramigton Santana dá aulas de dança para quem frequenta serestas (Foto: Renato Santana/Divulgação)

Mete dança

O aposentado Ramigton Santana é praticamente viciado no dois pra lá e dois pra cá. “Comecei a dançar quando me aposentei, em 1996. Fiz um curso na Uneb e há seis anos dou aula”, conta. Ramigton mantém turmas de dança toda segunda e quarta-feira em que o público é basicamente de meninos e meninas’ acima dos 50 anos.

Assim como ele, os alunos são vezeiros nas serestas da cidade.  “Há mais de seis anos eu frequento para dançar, conhecer a praça e olhar se tem passos novos para aprender”, diz. Outro motivo que o leva às serestas é a tranquilidade: “Dificilmente tem confusão e é uma oportunidade de encontrar amigos que não vemos há muito tempo”, afirma.

Mas dá para conhecer gente nova, pelo menos para Vânia Coutinho. “Faço amigos em tudo que é lugar”, comenta a aposentada. Durante o tempo em que a reportagem conversou com ela, Vânia parou algumas vezes para falar com passantes e pessoas de mesas próximas.

“Todo mundo me faz bem, me dá prazer”, conta. Ela também se atrai pela dança e arrisca uns passos, mesmo sozinha. “Gosto muito de dançar, me preenche. Tive momentos difíceis na vida e o que me revitalizou foi a música. Para mim estar aqui é uma terapia”, completa.


E a paquera?

Em um lugar com damas e cavalheiros dançando, claro que isso não falta, né? O pintor de automóveis Jairo Santos (nome fictício porque ele preferiu o anonimato) une o prazer de bailar com a arte de flertar. 

“A dança é o que mais me atrai nesses bares. A gente vem para se divertir, mas se tiver de paquerar, paquera também”, comenta aos risos, porém na entoca. Seu Jairo, de 66 anos, é casado, mas não dispensa galanteios.

O processo é simples, segundo ele. “Você dança com a menina. Se ela encostar a cabeça em seu peito, está a fim”, conta. Depois de entender o sinal, o segundo passo é começar a  papear com a dama. “Joga uma conversa agradável. Se ela quiser, fica. Se não tiver gostando, volta para a mesa dela”, explica. E se a resposta for negativa, é só começar tudo de novo com outra pretendente. E ele confessa: “já arranjei algumas namoradas assim”. 

Mas tem gente que não gosta muito desse esquema, principalmente algumas moças. A gerente comercial Hercília Lisboa, 54, é uma delas. “Acho que aqui não é o melhor local para buscar relacionamento, mas para dançar e fazer novas amizades”, afirma.

No entanto, ela confessa que vez ou outra pode pintar um namorico.  “Mas é claro que rola. A gente olha ao redor, o rapaz vem na mesa, chama para dançar e pode até trocar um zap”, diz. A irmã dela, Angelina Lisboa, 60, concorda: “Namorei por oito anos com uma pessoa, mas aqui é realmente para dançar”, conclui.

Leva de casa

Se encontrar o amor da vida na seresta é difícil, o segredo é já chegar ao local com companhia. É assim quando o casal Jô Castro, 58, e Roberto José, 60, resolve sair para se divertir.

“A gente gosta de dançar, mesmo não sendo bailarinos. E a música daqui é ótima, gosto muito porque eles pegam MPB e colocam no ritmo de seresta”, comenta a aposentada. Os dois se conhecem há 30 anos, são casados há 24 e fazem questão de estar juntos na balada.

Iê, infiel...

As serestas dos clubes e danceterias da cidade recebem um público bastante diverso, que gosta de dançar e paquerar. O flerte pode dar certo e a noite acabar na casa de algum dos parceiros ou mesmo num quarto de motel próximo.

“É muito comum, se der certo aqui, a gente vai para um lugar mais tranquilo”, comenta Antônio Silva (que pediu anonimato por ser casado). “Venho aqui há muitos anos e tenho muita história. Minha namorada atual, eu conheci aqui”, comenta, lembrando que já se separou quatro vezes. 

“De vez em quando rola de uma mulher vir aqui atrás do marido, mas não chega a ter briga”, relata uma funcionária de um desses clubes, que também preferiu não ser identificada.

Pés de valsa

Saber dançar não é pré-requisito para ir às serestas, mas faz toda a diferença. Jairo Santos conta que fazia aulas de dança numa academia e por isso começou a frequentar essas festas. “Como sei dançar, não costumo levar fora”, comemora o pintor.

A aposentada Bernadete Magalhães também não fica para trás. Aos 87 anos, Bel, como é chamada pelos amigos, faz dança de segunda a quinta-feira para arrasar nas pistas dos clubes no fim de semana.

“Comecei há 15 anos, fiz dança moderna, flamenca, de salão e vou às serestas. Me sinto maravilhosa” , comenta. Os clubes são incentivos para mostrar o resultado das aulas, como é o caso da também aposentada Vanda Monteiro. “É bom pra mente, para o corpo e a gente não fica em casa perdendo tempo”, completa.

VÁ LÁ DANÇAR

Lugar Comum

Fica no Largo do Rosário, nas Mercês, no centro da cidade. Funciona às terças-feiras e de quinta a sábado a partir das 19h. Aos domingos, a partir das 17h. A casa tem shows com três bandas todos esses dias com ingressos variando entre R$ 10 e R$ 20. Telefone: 71 3329-1294.

Clube Comercial

Fica na Avenida Sete de Setembro, 710, próximo à Paróquia de São Pedro. Funciona com a Noite Dançante às sextas-feiras, às 19h, com ingresso a R$ 18, e a Tarde Dançante aos domingos, com ingresso a R$ 15. Aos sábados, o local pode ser alugado para festas particulares. Telefone: 71 3329-4816. 

Mousa Music

Fica no final de linha do Guarani, na rua de mesmo nome, na Liberdade. As serestas acontecem às segundas e quintas-feiras, 

a partir das 19h30, e domingos a partir das 15h.

Na segunda, o ingresso custa R$ 10 e no domingo varia entre R$ 15 e R$ 20 a depender das atrações. Às quintas, a entrada é gratuita. Telefone: 71 98809-9400.

Kitutes de Yayá

Fica no Campo Grande, também funciona como restaurante e pizzaria. Às sextas, às 19h, sábados e domingos, às 16h, se tranforma em casa de show, com entrada a R$ 10. Desde o dia 20 de abril, também vão acontecer apresentações de forró no espaço, todas as quintas-feiras, também às 19h. Telefone: 71 3328-0538.

Cubanakan

O restaurante fica na Avenida Otávio Mangabeira, no Jardim de Alah, e tem shows de quarta a domingo. Durante a semana, as apresentações começam às 19h30 e aos sábados, às 16h.

Aos domingos é comum ter dois shows diferentes, um às 16h e outro às 20h. O valor da entrada varia entre R$ 15 e R$ 25, a depender das atrações. Telefone: 71 3342-0481.  

Cabana Bogary

Na Avenida Beira-Mar, na Ribeira, o clube dos Sub-Oficiais e Sargentos da Marinha recebe, toda sexta-feira, a partir das 19h, e domingo, às 12h, a Grande Seresta Romântica, com entrada a partir de R$ 10 para sócios e R$ 15 para não-sócios. Telefone: 71 3316-5171.

Kantarerê

O bar fica na Rua Manoel Antônio Galvão, em Patamares. A casa apresenta shows de sexta a domingo com ingressos a R$ 15. Sexta e sábado, a partir das 21h, e aos domingos às 16h. Telefone: 71 3363-4015.

Clube Espanhol

O espaço fica na Avenida Oceânica, em Ondina, e tem um encontro dançante que acontece, uma vez por mês, às sextas-feiras, a partir das 20h, com ingressos a R$ 40. Sócio não paga. Telefone: 71 3194-0250.