Saúde

Busca pelo corpo perfeito pode levar à ortorexia, diz especialista

Transtorno, típico dos tempos atuais, faz com que a alimentação saudável se torne uma verdadeira obsessão

Agência O Globo

Você tem passado mais de duas horas do dia planejando a alimentação? Investiga o cardápio do restaurante antes de sair para comer fora e desiste do programa, caso não encontre uma opção “adequada”? Leva sua própria marmita para a festa? Sente orgulho da sua força de vontade e critica quem não resiste a um pedaço de bolo?

Se as respostas forem “sim”, cuidado, pode ser sinal de ortorexia — o transtorno alimentar que vem aparecendo com mais e mais frequência nos consultórios psiquiátricos. Significa obsessão por comer saudável. “A ortorexia nervosa é uma patologia da contemporaneidade, mas pouco explorada, com menos estudos desenvolvidos do que a anorexia e a bulimia. Aqui, não há muita preocupação com o peso ou as calorias ingeridas, mas sim uma busca pela alimentação pura”, define o psiquiatra Bruno Palazzo Nazar, professor da Pós-Graduação da UFRJ, especialista em transtornos alimentares.

Foto: Divulgação 

Além de carregar sintomas como isolamento na vida social e sentimento de superioridade, os ortoréxicos costumam investir tempo na leitura de rótulos para descobrir a origem de tudo que vão ingerir, conversam muito sobre comida, cortam glúten, lactose, sal, açúcar e gordura do cardápio, são ansiosos, muitas vezes depressivos e se sentem extremamente culpados se obrigados a sair do script.

A publicitária Ciça Campos, de 27 anos, chegou a chorar quando descobriu que a omelete feita especialmente para ela em uma noite de pizza com amigos tinha se misturado na frigideira com manteiga, e não óleo de coco. Ciça começou a desenvolver o transtorno cinco anos atrás. Recém-formada e vendo todas as amigas conseguirem emprego, menos ela, se jogou numa vida fitness com dieta bem restritiva, para “ganhar reconhecimento”. “Era a época em que as blogueiras fitness estavam superaparecendo, redes sociais exibindo corpos lindos e dietas mirabolantes. Fui a uma nutricionista dessas que medem tudo: percentual de gordura, água, músculos... Comecei a emagrecer, postava fotos de biquíni, recebia muitos elogios. O que só estimula quem está completamente neurótica. Eu não comia nada que considerasse minimamente ‘impuro’”, conta.

Triste e sem emprego, a publicitária procurou um psiquiatra para tratar uma possível depressão e acabou descobrindo a doença de nome esquisito, de que nunca tinha ouvido falar. Iniciou, então, um tratamento de três anos, incluindo, além do psiquiatra, psicóloga para sessões individual e familiar e uma nutricionista comportamental (especialista que não apenas ajuda com a nova dieta, mas motiva a mudança de hábitos). “O tratamento é mesmo multidisciplinar, com vários profissionais envolvidos”, endossa o médico Bruno Nazar. “É ideal ainda o acompanhamento de um clínico geral para checar os níveis hormonais, a saúde óssea e dos órgãos reprodutivos, que podem acabar afetados.” 

A doença foi descrita de maneira inédita pelo médico americano Steven Bratman em 1997, com sintomas comuns entre seus pacientes — a crença de que determinados alimentos seriam capazes de causar, prevenir ou tratar enfermidades e, por isso, a razão de seguir um regime rígido. Nasceu então o termo ortorexia, junção das palavras gregas “orexsis” (apetite) e “orthós” (correto).

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Especialistas concordam que as dietas inflexíveis atuais, tão em alta, combinadas a redes sociais que exaltam a felicidade de uma vida saudável radical, têm produzido resultados desastrosos para a saúde física e mental da população. Coordenadora de Nutrição da Clínica de Estudos e Tratamento em Transtornos Alimentares e Obesidade (Cettao), da Santa Casa, Fabia de Campos vai direto ao ponto: “Há muito marketing por trás dessas dietas. Não precisa comer brigadeiro de biomassa de banana-verde. Brigadeiro é para ser gostoso, não é para ser saudável. Tudo bem comer numa festa, doce não é para o dia a dia! E não precisa fazer seu próprio kombuchá e kefir se for virar escrava dessa rotina.”

Fabia de Campos alerta que uma relação saudável com a comida começa em casa. “Os filhos se espelham muito nos pais, sempre. Uma pesquisa da Associação Americana de Pediatria apontou que proibir crianças de comer açúcar aumenta em 30% a probabilidade de desenvolvimento de compulsão alimentar na fase adulta”, afirma a nutricionista.

Foi quando viu seu corpo mudar, no início da adolescência, que a roteirista Marina Tepedino começou a desenvolver anorexia e, logo depois, ortorexia — “dobradinha” bem comum. Aos 13 anos, comprou revistas de beleza, pesquisou na internet e iniciou uma dieta por conta própria junto com a corrida. Marina, hoje com 24 anos, lembra do prazer que sentiu quando começou a emagrecer e ganhar elogios. Não havia pé machucado ou vida social que a tirassem da sua meta de ser saudável. “Houve uma época em que eu fazia quatro horas de exercício por dia, fiquei presa a uma rotina. Tinha café da manhã, almoço e jantar todos programados. Se alguém me chamasse para jantar fora, dava um nó na minha cabeça”, conta a roteirista, que acabou de se mudar para Madri. “Eu saía para restaurantes com meus pais e inventava que já tinha comido em casa. No caso da Marina, a história culminou com uma internação de três meses. Seus exames mostravam alterações nas taxas de cálcio, ferro e vitaminas, e complicações no fígado. A balança revelava 39 quilos, em 1,58m de altura. “Fui retomando a vida aos poucos, precisei de psiquiatra, remédios, a família sofreu junto... Agora me sinto bem, mas presto atenção sempre. Porque você não nota que está com a doença, tudo parece tão saudável”, alerta ela, hoje com 49 quilos.

Para a influencer Mirian Bottan, de 32 anos, a desconfiança de que algo não ia bem veio durante umas férias em Cuba. Brigas com o marido a fizeram pensar sobre seu estado. “Eu ficava sempre olhando as mulheres, seus corpos, se eram saradas, melhores do que eu, e achava que ele olhava para elas”, relembra. “Vivia completamente obcecada, pensava nos músculos de cada parte do meu corpo. E restringia os programas que envolviam alimentação. Levava guardanapo para enxugar o peito de frango gordurento no prato”, conta ela, que teve bulimia e anorexia na adolescência.

Em outra viagem, pela Patagônia, Mirian ficou abalada após se sentir obrigada a comer um pão com presunto e queijo, por falta de opção. “Já chorei vendo foto da minha coxa!”, revela. O diagnóstico de ortorexia veio em 2016, assim como a ideia de transformar as redes sociais, seu grande inimigo, em aliado. Mirian criou um grupo no Facebook sobre o tema, e o perfil @mbottan no Instagram, hoje, tem 650 mil seguidores. Ali, as fotos são o mais natural possível, com direito a “antes e depois”. “Recebo muitas mensagens de gente aliviada em saber que não está só, que a doença existe e pode ser tratada”, conta. 

A publicitária Ciça Campos foi pelo mesmo caminho. Em @umsorvetenacasquinha, há frases de incentivo à autoestima e fotos dela comendo hambúrguer. O nome vem de uma de suas frases preferida, que resume tudo: “A vida é como um sorvete na casquinha: você tem que aprender a equilibrá-la.”