Saúde

Clínicas oferecem cartão de desconto para clientes sem plano de saúde

Contra a crise, setor aposta em planos de fidelização; ANS alerta que não equivale a um plano

Gabriel Rodrigues, Correio* (gabriel.rodrigues@redebahia.com.br)

De olho nas pessoas que deixaram de ter acesso a planos de saúde por conta da crise, hospitais, clínicas e laboratórios particulares da Bahia apostam cada vez mais no uso de cartões de desconto. Para o consumidor, a vantagem é que a adesão a esse tipo de plano garante preços mais baixos em consultas e exames médicos. A economia, segundo usuários, pode chegar a 70% em consultas e exames. No entanto, esse tipo de  cartão  não dá acesso a internação hospitalar e procedimentos mais complexos, uma vez que não  se trata de  plano de saúde, como faz questão de alertar  a Agência Nacional de Saúde Suplementar  (ANS).

Em 2016, 40 mil pessoas deixaram de ter convênio com operadoras de saúde na Bahia. Uma delas foi a decoradora Luciana Eloy,  32 anos, que aderiu ao serviço Mais Vida, do Hospital São Rafael. Na avaliação de Luciana, a decisão foi acertada: está economizando 68% na comparação com o que pagaria caso não tivesse o cartão de fidelização.  “Não tenho condições de pagar um plano de saúde e com ele (Mais Vida) consigo ter acesso aos procedimentos médicos”, afirma a decoradora, que agora paga R$ 80 por consultas que antes só encontrava por pelo menos R$ 250.

Quem também está se beneficiando é a aposentada Lourdes Neves dos Santos, de 82 anos. Ela optou pelo cartão Cliente Vida, da clínica Vida. Sem burocracia, pagou uma taxa de R$ 100 semestral para ter o benefício e no mesmo dia conseguiu descontos.  “Uma consulta com o cardiologista custa R$ 300, mas, como  houve um decréscimo de R$ 110, ela apagou apenas R$ 190. Já o exame Eco, que ela pagaria R$ 300,  saiu por R$ 150”, explica  Maria Nilza,  filha de Lourdes.

Funcionamento
O cartão do Hospital São Rafael não cobra taxa de adesão ou mensalidade. O benefício oferecido é a redução no preço dos atendimentos realizados nos ambulatórios do Centro Médico Alexander Fleming, na Avenida Garibaldi, Brotas e em Vilas do Atlântico. “O que a gente fez foi um cartão de descontos para enfrentar a crise, garantindo a continuidade da assistência aos clientes que perderam seus planos”, afirma o gestor médico do Hospital São Rafael, Luiz Soares.

No mercado há 12 anos, o Prevencard acredita ser pioneiro no oferecimento do serviço na Bahia. “Atendemos consultas com clínico, cardiologista e exames como raio-x e laboratoriais. Hoje, ele contempla das classes A a E”, pontua José Neto, diretor de marketing e comercial do cartão. Atualmente, o usuário paga uma taxa de adesão que varia entre R$ 120 e R$ 150 e consegue descontos de até 70%.

Já o cartão Multibenefícios, da Clivale, oferece descontos  de 20% a 50% nos procedimentos realizados na rede credenciada. Segundo Virginia Serravalle, responsável pela rede, os usuários pagam a anuidade para ter direito aos benefícios. “O cliente só paga quando utiliza”, diz. O Sistema Informativo de Atendimento Médico e Odontológico (Sinam) é outra opção para quem não tem plano de saúde. Fruto de parceria entre  entre a Associação Bahiana de Medicina (ABM) e a regional baiana da Associação Brasileira de Odontologia, o Sinam indica médicos e consultórios com valores mais acessíveis.

Apesar das facilidades e benefícios, a Resolução nº 1.649/2002 do Conselho Federal de Medicina considera antiética a participação de médicos como proprietários, sócios, dirigentes ou consultores dos chamados Cartões de Descontos. Para o conselheiro Jecé Brandão, do Conselho Regional de Medicina do Estado da Bahia (Cremeb), os médicos não devem exercer suas práticas seguindo a lógica da fidelização de clientes.

 ANS  faz alerta sobre planos de descontos
Responsável por regular o setor dos planos privados de saúde, a Agência Nacional de Saúde Suplementar  (ANS) alerta que os cartões de desconto e pré-pagos  não se configuram como planos de saúde e não garantem o acesso ilimitado aos serviços que devem ser oferecidos obrigatoriamente pelas operadoras.

Entre as diferenças dos planos de saúde para os produtos de desconto estão a ausência de contrato entre o usuário e o operador e a forma de pagamento negociada entre o consumidor e o estabelecimento responsável pelo serviço médico, no caso dos cartões.

É preciso lembrar que caso seja necessário realizar um serviço de alto custo, provavelmente, o valor de um cartão de desconto ou pré-pago não será suficiente para permitir esse tipo de atendimento, e aí será preciso assumir o custo de forma integral.

A agência reforça ainda que operadoras de plano de saúde não podem oferecer cartões de desconto ou pré-pagos. Caso isso aconteça, a situação deve ser denunciada à ANS. Em caso de dúvidas se o serviço adquirido é um plano de saúde ou não, e para verificar se a empresa é registrada, o cliente pode entrar em contato com o órgão por meio do site www.ans.gov.br ou pelo Disque ANS 0800 701 9656.