Saúde

Guillain-Barré: população lota postos de saúde por temor de nova doença

Vários pacientes que temiam estar com a síndrome haviam tido dengue e zika há pouco tempo

Yne Manuella e Clarissa Pacheco (mais@correio24horas.com.br)
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O medo de ter desenvolvido a Síndrome de Guillain-Barré (SGB) – que provoca paralisia muscular e pode até matar – levou muita gente, ontem, às Unidades de Pronto Atendimento (UPAs) da capital, que ficaram lotadas. Segundo a prefeitura,  o aumento na procura aos postos chegou a 70%, em relação à média de atendimentos comum. Vários pacientes que temiam estar com a síndrome haviam tido dengue e zika há pouco tempo. Por conta da superlotação, funcionários das UPAs dos Barris, da San Martin e do Cabula (esta, administrada pelo estado) informaram aos pacientes que o atendimento havia sido suspenso durante a manhã. As UPAs da rede municipal tiveram que restringir o atendimento por conta da superlotação. “Quando acontecem situações como essa, a gente precisa restringir o atendimento para dar baixa em todas as pessoas que estão já na UPA, para depois reabrir”, explicou a diretora de Atenção à Saúde, Luciana Peixoto. Já a Secretaria da Saúde do Estado (Sesab) negou que a UPA do Cabula tivesse interrompido o atendimento e alegou que os pacientes  não estavam querendo aguardar.

Pacientes aguardam para conseguir atendimento na UPA do Cabula. Demora fez muitos voltarem para casa
(Foto: Mauro Akin Nassor)

Anteontem, a pasta fez uma apresentação para 250 médicos sobre o protocolo de atendimento da Síndrome de Guillain-Barré, já apelidada nas ruas como Guillain-barril. Somente este ano, 55 casos da doença foram confirmados na Bahia (32 deles na capital) e uma pessoa morreu.Dos pacientes internados em Salvador, boa parte foi infectada pelo Zika Vírus antes de adquirir a síndrome paralisante. Segundo especialistas, a doença, que é autoimune, tem correlação com infecções virais ou bacterianas.A doméstica Solange Paulo, 39 anos, teve zika no mês passado e, desde então, tem tido febre, dores de cabeça e nas articulações, que também estão inchadas. “Estou morrendo de medo de estar com essa nova doença. Não estou aguentando nem trabalhar, dói o corpo todo. Está parecendo que é ela mesmo”, diz.Ela foi até a UPA dos Barris, mas não conseguiu ser atendida porque a unidade estava lotada. “Não estão deixando a gente entrar porque está muito cheio”, explicou.


Quem também está com receio da síndrome é a agente de portaria Adelma Lima, 41, que teve zika há 15 dias. Sem conseguir se movimentar direito por causa das fortes dores nas articulações, ela chegou a se automedicar com anti-inflamatórios. “Faz 15 dias que tive zika. Agora, voltou tudo e não passa. Tomei remédio, mas não melhora. Estou com receio”, contou.


dúvida A estudante Greice Oliveira, que também teve zika há duas semanas, buscou atendimento na UPA dos Barris. Ela voltou a ter manchas vermelhas na pele e chegou a ter dificuldades de se movimentar por causa das dores. “Senti minhas pernas travarem. Estou tendo que usar muletas. A dor foi subindo das pernas até o ombro, tudo dói agora. Por isso, tive medo de ser essa doença nova”, relatou.


No entanto, na quarta-feira, a médica infectologista Ceuci Nunes, diretora do Hospital Couto Maia, disse que alguns pacientes manifestaram a SGB e a doença exantemática (Zika) ao mesmo tempo. Uma enfermeira da rede municipal de saúde, que pediu para não se identificar, disse que o diagnóstico da própria zika é complicado. “Os sintomas são parecidos e não existe um estudo que seja disseminado entre os profissionais de saúde que faça uma diferenciação específica de todas essas doenças”, explicou. Ainda segundo a enfermeira, “o diagnóstico é sintomático e os exames comprobatórios demoram o suficiente para a pessoa  ou já ter evoluído na doença ou melhorado”.

Adenilza  não conseguiu atendimento para a filha Mônica, com dores no corpo após ter tido zika há 15 dias
(Foto: Mauro Akin Nassor)

Superlotação Encontrar as unidades de saúde cheias foi sintoma de descaso para a doméstica Adenilza Conceição, 43. Ela foi à UPA da San Martin levar a filha Mônica, 24, que saiu às pressas do trabalho de babá com dores no corpo.  “Mandam a gente não usar remédio em casa e vir pra UPA. Quando chego aqui, minha filha não pode ser atendida e mandam a gente para outro lugar”, reclamou Adenilza, que também não conseguiu atendimento na UPA dos Barris. Ela admitiu temer a SGB.“Eu vejo jornal todo dia, vejo que essa doença tem risco de morte, paralisia, a gente fica com medo”, comentou.Secretaria  mapeia novo mosquito em Salvador

Um novo mosquito, da mesma família do Aedes aegypti, já foi detectado em Salvador. É o  Aedes albopictus, capaz de transmitir  (caso esteja infectado) o zika vírus e, também, dengue e chikungunya. Segundo a coordenadora do Programa Municipal de Combate à Dengue, Isabel Guimarães, o novo mosquito ainda está sendo mapeado. “Como o problema era só a dengue, a gente só fazia o levantamento do Aedes aegypti. Agora é que nós começamos a computar o albopictus. Na verdade, os estudos em relação à competência de transmissão dele estão começando agora”, explicou. Ela disse também que, por conta disso, ainda não há dados sobre infestação do Aedes albopictus em Salvador. De acordo com informações da Fundação Osvaldo Cruz (Fiocruz), o albopictus chegou ao Brasil na década de 1980. Na América, ele foi capturado pela primeira vez em 1985, nos Estados Unidos. No Brasil, os primeiros estados que registraram a presença foram Rio de Janeiro, Minas Gerais e São Paulo. Subsecretário estadual da Saúde, o infectologista Roberto Badaró diz que a proliferação do Aedes albopictus pelo mundo se deu por meio de contêineres e que o mesmo pode ter acontecido na Bahia - embora não haja um registro de quando e onde ele foi detectado pela primeira vez no estado. “Eu fiquei impressionado com a exportação do Aedes albopictus. É de uma maneira explosiva, através dos contêineres. O Brasil e a Bahia viraram ponto de táxi dos navios”, afirma. O também médico infectologista Antônio Bandeira informa que o grande problema desse novo mosquito é que ele se adapta rapidamente ao ambiente - gosta tanto dos urbanos quanto dos rurais -, além de causar doenças neurológicas graves. A fêmea, que transmite os vírus, também não tem um horário específico para picar. “O albopictus pica o dia inteiro. Sai daquilo de picar apenas pela manhã e no final da tarde (como o Aedes aegypti)”, explica. Em comum com o Aedes aegypti, o Aedes albopictus tem sobrevida de 100 dias, pode voar por até 6 quilômetros, a partir do seu criadouro, e leva de três a cinco dias para se reproduzir. Eles levam uma semana para incubar o vírus e ser capaz de transmiti-los. A olho nu, é difícil distinguir os dois insetos, pois eles têm as patas rajadas. A diferença entre eles é que o Aedes albopictus é um pouco mais escuro. O Aedes aegypti tem o desenho de uma lira no tórax, enquanto o outro tem uma linha longitudinal. Como os dois mosquitos se reproduzem em água parada, é preciso ter cuidado para evitar a formação de poças que podem virar focos de reprodução dos insetos. Pneus, pratos de plantas, recipientes, piscinas e até lixo podem ser locais propícios para a proliferação de larvas. Aumento da procura compromete estoque de farmácias da capital

Com hospitais, clínicas, postos e Unidades de Pronto Atendimento (UPAs) lotados, a solução encontrada por muita gente foi se automedicar. De oito farmácias visitadas, ontem, pelo CORREIO, três estavam com estoque comprometido, uma delas não tinha mais repelentes e em todas a procura pelos medicamentos usados contra a dengue, zica e chikungunya aumentou nos últimos dias. Na Farmácia Sant’Ana da Avenida Otávio Mangabeira, na Pituba, o farmacêutico Marcelo Silva disse que a procura maior é por antitérmicos e antialérgicos. “Aumentou tanto que o nosso estoque quase não tem mais antialérgico e antitérmico. Repelente, a gente está sem. O pessoal está procurando bastante”, afirmou. A gerente de outra farmácia na Avenida Manoel Dias, também na Pituba, disse ter apenas os repelentes do balcão. “Antialérgico, realmente, a gente quase não tem mais. Tem muita gente vindo. Toda hora aparece alguém reclamando de dor no corpo. Aqui na farmácia, todo mundo já teve zika”, ilustrou. Ontem de manhã, depois de ver a neta Amanda Argolo, 18 anos, voltar a ter febre e dor no corpo 15 dias após se curar do zika, a aposentada Anete Argolo, 63, resolveu levá-la até a UPA do Cabula. Mas a jovem voltou sem atendimento, por conta da lotação. “Agora vou passar em uma farmácia, comprar um remédio e medicar ela em casa mesmo, por conta própria”, contou Anete. Na Farmácia Drogasil da Avenida Manoel Dias, o balconista Clayton Caetano disse que muita gente chega ao balcão sem receita, inclusive porque os medicamentos não exigem. “Mas a gente não indica a medicação. Se a pessoa souber o que quer, e puder vender sem receita, a gente vende”, explicou Clayton. Segundo ele, o repelente mais vendido no local não tem mais em estoque. “A gente teve que pedir mais”, revelou.

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