Saúde

Marca-passo cerebral pode reduzir danos do mal de Alzheimer

Cientistas tentam conter declínio das habilidades cognitivas dos pacientes

Agência O Globo

Uma pesquisa realizada pela Universidade Estadual de Ohio testou uma nova estratégia para combater o mal de Alzheimer: em vez de investir em tecnologias para melhorar a memória dos pacientes, a equipe americana tenta conter o declínio da capacidade de resolver problemas e tomar decisões.

Foto: Reprodução/ Instagram

O neurologista Douglas Scharre, que coordenou o estudo, implantou cirurgicamente eletrodos, pequenos fios que carregam impulsos elétricos, no lóbulo frontal de pacientes com mal de Alzheimer para determinar se o uso de uma espécie de marca-passo cerebral melhoraria suas habilidades cognitivas, comportamentais e funcionais.

— Temos muitas ferramentas e tratamentos farmacêuticos para ajudar a memória dos pacientes de Alzheimer, mas não havia um instrumento que os ajudasse a tomar decisões e aumentar sua capacidade de focar em uma tarefa, evitando distrações — descreve Scharre, referindo-se ao método conhecido como implante de estimulação cerebral profunda (DBS, na sigla em inglês). — Essas habilidades são necessárias para que desempenhem atividades como fazer a cama, escolher o que comer e ter uma socialização com amigos e familiares.

Scharre ressata que o lóbulo frontal é a região do cérebro responsável por julgamentos e resolução de problemas. Por isso, seu estímulo contribui para a manutenção de habilidades cognitivas dos pacientes.

Colaborador da pesquisa, publicada on-line esta semana na revista "Journal of Azheimer's Disease", o neurocirurgião Ali Rezai destaca que a tecnologia já é usada com sucesso no tratamento de mais de 135 mil pacientes em todo o mundo com mal de Parkinson.

— A modulação da rede frontal para melhorar os déficits executivos e comportamentais deve ser estudada em pacientes com mal de Alzheimer — avalia.

Os três participantes do estudo apresentaram melhora com o tratamento — em dois deles, os avanços foram considerados significativos. É o caso de LaVonne More, de 85 anos, que, em 2013, não conseguia preparar refeições. Depois de dois anos recebendo técnicas de estimulação profunda do cérebro, ela já conseguia reunir ingredientes e preparar refeições sozinha.

Neurocirurgião do Hospital CopaStar e do Instituto Estadual do Cérebro, Paulo Niemeyer considera que o experimento americano é "interessante, mas não algo que possa ser colocado na prática agora".

— Dizer que houve estímulo ao lóbulo frontal é muito vago, porque esta é a maior área do cérebro — pondera. — O implante cerebral está começando agora no tratamento do Alzheimer, mas já é consolidado em diversas doenças. Para o mal de Parkinson, por exemplo, ele consegue inibir áreas cerebrais responsáveis pelos tremores. Entre os obesos, dá uma sensação de plenitude, como se o paciente tivesse ingerido uma comida hipercalórica.

Niemeyer alerta que, embora a pesquisa seja "curiosa", o caminho indicado não é o correto. Para ele, a tendência é que o mal de Alzheimer seja tratado com medicação.

Coordenador de Neurociências do Instituto D'Or e professor de Psiquiatria da UFRJ, Paulo Mattos questiona o foco da nova pesquisa:

— O déficit de memória é o principal sintoma do mal de Alzheimer. O artigo dá mais importância a características secundárias, como a capacidade comprometida para tomar decisões. Mas como eu vou solucionar um problema se não lembro dele?

Mattos destaca que o implante de eletrodos é uma medida paliativa, ou seja, não leva à cura. Há, no entanto, algumas medidas que reduziriam a vulnerabilidade a uma doença neurodegenerativa, como ler, estudar e exercitar a memória.

— Nosso cérebro é plástico, então o acúmulo de informações aumenta a comunicação entre neurônios — explica. — A atividade física, por sua vez, reduz a produção de substâncias tóxicas que atacam os neurônios. Também é importante manter sono adequado.