Saúde

Suplementos alimentares: entenda quais são os riscos do consumo em excesso

Após meses ingerindo cápsulas de chá verde, americano teve lesão hepática grave e agora precisa de um transplante

Agência O Globo
O americano Jim McCants sofreu uma séria lesão no fígado após meses consumindo cápsulas de chá verde concentrado. Aos 50 anos, ele tentava ter um estilo de vida mais saudável, comendo melhor e fazendo exercícios regularmente. Assim, começou também a tomar o suplemento, pois tinha ouvido falar que seria bom para o coração. Quase três meses depois, os problemas no fígado se tornaram aparentes.
Foto: Divulgação
"Fiquei chocado porque só tinha ouvido falar sobre os benefícios", disse ele à BBC. "Nunca tinha escutado nenhum problema". Quando foi avisado pelo médico de que precisaria de um transplante de fígado, soube também que tinha apenas dias para fazer isso, nem mesmo uma semana.
Diretor da Escola de Medicina da Universidade Wake Forest, na Carolina do Norte, o professor Herbert Bonkovsky acompanha lesões relacionadas a suplementos de chá verde há quase 20 anos. Também à BBC, ele explicou que quem toma quantidades normais de chá verde está seguro. O risco maior é para aqueles que tomam extratos mais concentrados.
A história de McCants tomou as redes sociais nesta quinta-feira e chama a atenção para os suplementos alimentares em geral — produtos como proteína do soro do leite, ômega 3 e vitaminas. Segundo especialistas, seu consumo exagerado e sem acompanhamento de um médico ou nutricionista pode trazer muitos problemas.
O vice-presidente da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia, Alexandre Hohl, destaca que um dos principais riscos é uma sobrecarga de proteína presente nos suplementos, o que pode ser danoso para os rins.
— Se a pessoa tem uma alteração renal pequena e não sabe e passa a ingerir altas quantidades de proteína, isso pode acelerar esse processo a ponto de causar uma insuficiência renal aguda — explica ele, dando outro exemplo: — Às vezes, as pessoas usam tantos suplementos misturados que podem ter sobrecarga hepática. Temos visto muitos casos assim. O de Jim McCants não é o primeiro com esse desfecho.
O nutricionista esportivo e funcional Renato França pontua que os suplementos devem ser consumidos preferencialmente com prescrição de nutricionista ou médico.
— A diferença entre o veneno e o remédio pode ser a dose. Mesmo que seja um alimento saudável, é importante ter cautela e não exagerar no consumo — alerta ele.
Suplementos alimentares devem ser usados para completar a alimentação. Eles se dividem em subcategorias, como de vitaminas, minerais, proteínas. Este último tipo é muito procurado para a recuperação muscular quem se exercita com o objetivo de recuperação muscular.
Segundo Hohl, apesar de trazerem benefícios, os suplementos não são indicados para todos, e, se a pessoa não tem uma alimentação balanceada, não há como buscar soluções apenas neles. Nesses casos, diz o médico, é como jogar dinheiro no lixo.
— Virou uma moda nas academias andar com as garrafinhas contendo proteína, mas esses produtos deveriam ser restritos a quem precisa — diz ele. — Dentre as subdivisões dos suplementos, o principal objetivo é complementar alguma carência nutricional ou algo que, apenas pela alimentação, não chega à quantidade necessária. Um fisiculturista, por exemplo, que não atingiria a quantidade de proteína necessária para a recuperação muscular apenas pela alimentação diante da sua rotina extenuante de exercícios.
Atenção aos rótulos
Os suplementos concentrados como o chá verde são regulados nos EUA e na Europa como alimentos, e não como medicamentos. Isso significa que eles não precisam seguir as mesmas exigências de segurança que valem para remédios.
Mas, no Brasil, a regulamentação de suplementos alimentares foi aprovada pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) em junho deste ano. Até então, esta categoria não existia na legislação brasileira, e os produtos eram chamados de alimentos — como nos EUA e na Europa.
Com essa mudança, os produtos terão que trazer no rótulo a palavra "suplemento" e os que já estão no mercado terão um prazo de cinco anos para se adequar às novas regras.
O endocrinologita Alexandre Hohl chama a atenção para o fato de que nem sempre o suplemento contém exatamente o que está descrito na embalagem. Ele alerta ainda que mesmo algo considerado “natural”, como um chá, não está isento de riscos.
— Nos últimos anos, muitas marcas de suplementos e fitoterápicos vendidos sem receita foram retirados do mercado americano por terem substâncias a menos ou a mais ou outras que não estavam descritas no rótulo — pontua o médico, que aconselha, ainda assim, sempre ler os rótulos antes de ingerir o produto. 
O nutricionista Renato França destaca que o mesmo ocorre no Brasil: suplementos sem exigência de análise da Anvisa sendo retirados das prateleiras por terem substâncias além das relatadas nos rótulos, inclusive de uso controlado.
— Isso é um problema comum nos supostos emagrecedores naturais, que alegam conter apenas ervas naturais, mas já houve casos de verificarem a presença de sibutramina ou clobenzorex, que podem causar efeitos colaterais e até dependência.
Benefícios do equilíbrio
Para Renato, desde que de forma responsável, os benefícios dos suplementos se dão pela melhora das funções orgânicas, correção de deficiências nutricionais, melhor controle antioxidante e oferta de nutrientes importantes para a prática esportiva, como carboidratos e proteínas.  
—  É importante ter cuidado com suplementos com promessas milagrosas, pois eles só ajudarão na melhora da saúde e performance caso a base da alimentação esteja bem regulada. Nenhum suplemento compensa uma alimentação inadequada e o sedentarismo — conclui ele.