Se essa rua fosse minha

Barroquinha: uma aula de história ao ar livre

Bairro tem casarões e vias com mais de 400 anos de história

Ive Deonísio e Luriana Morais (falecomseessarua@gmail.com)
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Sabia que a Barroquinha é um ponto de resistência das religiões de matriz africana na cidade? É que os primeiros terreiros de candomblé da Bahia foram erguidos lá. Após o século XVIII, os negros foram retirados e deram origem a candomblés famosos, como Casa Branca, Gantois e Ilê Axé Opô Afonjá. Foram embora, mas deixaram uma marca. Dizem que embaixo das lojas de couro ainda há 21 exus enterrados. Laroiê, que os caminhos estejam sempre abertos!

Estar na Barroquinha dá a sensação de fazer parte da história viva, a gente convive com uma Salvador de 300, 400 anos atrás. Hoje ela é um espaço de passagem, compras e arte, mas também já foi um dos limites da cidade. Ainda dá para ver o muro histórico com vista privilegiada para o mar que protegia um dos portais de acesso a Salvador. Tão bom saber que as coisas tomam outros significados, mas continuam guardando histórias.
É só passar por lá que a gente logo aciona a memória e lembra do cheirinho de cocô que exalava dos artigos de couro vendidos na passagem entre a Rua Chile e o terminal de ônibus. Até hoje o local oferece uma infinidade de artigos de couro com um custo-benefício que vale a pena: eles duram a vida inteira, a gente valoriza o que é nosso, ajuda o pequeno empreendedor e, se chorar, ainda ganha um desconto.
O complexo da Barroquinha é um polo de arte que abraça história, arte, arquitetura e gastronomia. Dá um orgulho danado circular por lá e confirmar que Salvador tem, sim, um monte de coisas legais para oferecer, a gente só precisa sair de casa. O histórico Espaço Glauber Rocha, pra gente o cinema mais legal de Salvador, é muito mais que um cinema bonito. Tem um terraço com vista que já vale a subida, livraria, café e restaurante. A antiga Igreja Nossa Senhora da Barroquinha, uma das poucas sincréticas da cidade, virou um espaço cultural e tem programação bacana o ano todo.
É por ali que fica a Rua Ruy Barbosa, uma via de 400 anos que já foi endereço fino da cidade nos séculos XVIII e XIX, tornou-se point da night nos anos 60 e 70 e abrigou sebos, restaurantes e antiquários que reuniam a intelectualidade baiana. Hoje, lá circula todo tipo de gente, de funcionários públicos apressados que trabalham no anexo da Câmara de Vereadores a figuras como esse senhor, morador de umas das ruelas que desembocam na rua famosa.
Passear no centro da cidade é correr o risco de se distrair e dar de cara com um painel enorme de Carybé. Incrível pensar que uma obra dessa faz parte do cotidiano da cidade, não? O monumento Colonização do Brasil fica na fachada do Edifício Bráulio Xavier, na Rua Chile.
A biblioteca quase sempre é relatada como um lugar fascinante e mágico. O tradicionalíssimo Sebo Brandão, na rua Ruy Barbosa, não foge à regra. O subsolo imenso abriga várias estantes com um sem número de livros, muitos raríssimos. O dono, seu Brandão, é uma figura que adora contar histórias e resmungar. Em pouco tempo de conversa, ele nos contou sobre a origem dos sebos no Brasil, como a internet alterou a lógica da venda de livros e a mudança dele de Pernambuco para a Bahia a convite de um ex-governador.
Os mais de 10 antiquários da Ruy Barbosa nos transportam rapidinho para o passado de luxo da rua. Muitos donos desses estabelecimentos moram lá há mais de 50 anos e se apegam às memórias felizes para resistir ao comércio esvaziado por causa da insegurança. Dá vontade de passar o dia inteiro conversando e descobrindo utensílios lindos (e caros ) para a decoração. Se você quer fazer o olho brilhar, faça uma visita a um deles (ou todos).
A Rua Ruy Barbosa nem sempre teve esse nome. Até 1923 chamava-se Rua dos Capitães, e o nome foi trocado justamente porque foi na casa de número 12 que morou a família do jurista Ruy Barbosa. O sobrado com fachada bonita foi todo reconstituído para abrigar o museu que guarda a memória do Águia de Haia. Procure se informar sobre os melhores horários pra visitar: nos fins de semana, a partir das 12h de sábado, o movimento do local diminui bastante.

Nos despedimos desse passeio cheio de histórias no Museu Nacional da Cultura Afro-Brasileira. Um prédio imenso, com pé direito alto e paredes de tijolos que pretendem recompor fragmentos da história dos negros no Brasil. A beleza começa do lado de fora, na grade da foto, que conta a história dos orixás e comidas da população brasileira no passado. A gente espera que esse resgate transponha a arquitetura e chegue às ruas e ao coração do nosso povo.
O projeto "Se Essa Rua Fosse Minha" visita diversos bairros soteropolitanos, carinhosamente chamados de ruas, numa das muitas licenças poéticas que você vai encontrar nos textos. Ali, as publicitárias Luri Moraes e Ive Deonísio se encantam com as pessoas, conversam animadamente com os moradores e se deixam levar por esse mar de amor que emana das ruas de Salvador. Mais histórias e fotos em @seessarua_fosseminha