Se essa rua fosse minha

Campo Grande: um passeio com museus, bares, comércio pulsante e histórias incríveis

Local foi palco de importantes batalhas pela Independência da Bahia,

Ive Deonísio e Luriana Morais* (falecomseessarua@gmail.com)
- Atualizada em


O @seessarua_fosseminha dessa semana vai passear pelo Campo Grande, um lugar que reserva muitas surpresas. A primeira delas a gente conta pra você logo de cara: o Campo Grande não é um bairro. Hã? É isso mesmo, a região passa pela praça da Piedade e segue pela Avenida Sete até quase a Praça Castro Alves é considerada Centro por um projeto de lei aprovado ano passado. Mas calma, a gente não veio aqui bugar seu cérebro. De acordo com a mesma lei, bairro é “identidade e pertencimento de território”, então se você se sente parte do Campo Grande, pronto, estamos conversados, você é do Campo Grande e seu CEP continua garantido.

A Praça do Campo Grande que na verdade é a Praça Dois de Julho
A segunda curiosidade vem agora: a Praça do Campo Grande se chama 2 de Julho, mas o motivo é simples: o local foi palco de importantes batalhas pela Independência da Bahia, e aí agora você já captou a mensagem e sabe de onde veio o nome, né?
Detalhe do monumento aos heróis da Independência da Bahia

O Campo Grande também é muito conhecido por suas tradições. Que o diga as figuras ilustres que transitam ali há anos. Seu José, dono do Hotel Santiago, é uma delas. O senhorzinho de cabelos brancos chegou ao Brasil aos 19 anos e representa a resistência do bairro. É categórico em dizer que a modernidade trouxe sujeira e desorganização. Pertinho do hotel está a Relojoaria Hora Certa, que já foi ofício do avô e hoje é o negócio de um pai e seu filho apaixonados por consertar de cucos antigos a Rolex.

Seu José e um dos hoteis mais antigos do Campo Grande
A paixão por relógios já dura três gerações da família

Depois de tanta andança, tá chegando aquela parte que a gente adora, a hora de matar a fome. Pra começar, que tal entrar na Favorita, chamar seu José, funcionário da panificadora há mais de 20 anos, e entre uma história e outra sobre o bairro, experimentar o bolo indiano? Receita cheia de segredos, assim com o cacetinho do local, famoso na cidade inteira.

"Isso aqui é a minha vida", diz seu José, funcionário da A Favorita há 23 anos

Próxima parada: o bar de mais um espanhol, o Cervantes. O segredo do rango que forra o estômago de muita gente antes e depois dos shows da Concha? A tradição. Sem adaptações nem firulas, o Cervantes serve comida como se come na Espanha. Benjamin herdou a arte culinária do pai, que era cozinheiro do Rei Juan Carlos na época em que ele era príncipe. Seu momento realeza está garantido no Cervantes, bebê.

Benjamin e seu delicioso arroz de polvo
Já que tradição é o segundo nome do Campo Grande, olha essa história: o Gerônimo conserta sapatos há anos ali no bairro. Entre gargalhadas, ele conta que a melhor época pra ele é o Carnaval, quando os clientes vem ajeitar os tênis velhos pra largar os pedaços ali mesmo, na Avenida. Quando fevereiro chegar, procure Gê ali de frente pro Cervantes. Você garante sua folia e a resistência de umas das profissões quase em extinção hoje em dia.

O sapateiro Gerônimo garante a tradição de um profissão quase extinta


Está chegando a hora de irmos embora, mas antes a gente queria fazer um desabafo. Fomos cheias de vontade de visitar o Forte de São Pedro e o Instituto Feminino da Bahia, mas não pudemos, porque muitos museus e fortes da nossa cidade não abrem para o público aos finais de semana, justo quando a gente tem tempo pra turistar por Salvador. Alô, governantes da nossa cidade, nos ajudem a conhecê-la, viu?

Instituto Feminino da Bahia
Como dissemos lá no começo, o Campo Grande é cheio de surpresas. Pra não acabar nosso passeio na tristeza dos locais fechados, a gente deixa aqui uma história divertidíssima que nos aconteceu. Entramos num hotel para fazer umas fotos pra vocês e demos de cara com um senhor de chinelos, bermuda e um copo de cerveja na mão. Olhamos com tanto espanto e admiração pra ele, que brincalhão como a gente já sabia que ele era, ele nos olhou e disse “ei, não tenho culpa de nada”. Quem era? O impagável Zeca Pagodinho!!! E assim, deixando a vida nos levar, a gente finaliza essa rota e já espera por você nas próximas ;)


SERVIÇOS
Padaria Favorita
Rua Forte de São Pedro, 50
segunda a sábado de 6h às 20h / domingo de 6h às 13h
R$ 12,90 o quilo do cacetinho

Relojoaria Hora Certa
Rua Forte de São Pedro, 173
segunda a sexta de 8 às 18h / sábado de 8h às 14h

Cervantes
Rua Forte de São Pedro, 64
terça a domingo a partir das 9:30h da manhã
R$ 25 a porção pequena do arroz de polvo

Forte de São Pedro
segunda a sexta de 8h às 11h e de 13:30h às 16h

Instituto Feminino da Bahia

terça a sexta de 10h às 12h e de 14h às 17h / segunda de 14h às 17h

Gerônimo Sapateiro

Em frente ao Bar Cervantes  
todos os dias de 8h às 5h


*O projeto "Se Essa Rua Fosse Minha" visita diversos bairros soteropolitanos, carinhosamente chamados de ruas, numa das muitas licenças poéticas que você vai encontrar nos textos. Ali, as publicitárias Luri Moraes e Ive Deonísio se encantam com as pessoas, conversam animadamente com os moradores e se deixam levar por esse mar de amor que emana das ruas de Salvador.  Mais histórias e fotos em @seessarua_fosseminha