Se essa rua fosse minha

Garcia: de antiga fazenda a bairro conhecido pela boemia

Vem com a gente conhecer as histórias e as comidas deliciosas desse bairro

Ive Deonísio e Luriana Morais* (falecomseessarua@gmail.com)
- Atualizada em

Querido leitor, você não leu errado. O Garcia era mesmo uma enorme fazenda, um dos maiores latifúndios do Brasil. O dono desse mundaréu de terra era o conde Garcia D’Ávila, e a tal fazenda até porteira tinha. E sabe onde ela ficava? Onde hoje é o colégio Edgard Santos. E você que se metesse à besta de chegar tarde em casa: a porteira fechava diariamente às 18h. Parece cena de novela, mas é a história real de um bairro que começou a ser habitado de fato quando as terras dessa fazenda foram arrendadas.

No colégio estadual Edgard Santos ficava a porteira de entrada da Fazenda Garcia
Mas com o verão aí a topo vapor, certamente você veio atrás de outra palavrinha mágica do texto: boemia. O Garcia é esse pedaço charmoso onde bares e partidos altos se aglomeram pelas esquinas. Se seu negócio é cair no samba, a Casa de Pedra foi feita pra você. Muita gente já quebrou as cadeiras ou batucou nas paredes de pedra da casa.
O Partido Alto rola solto na Casa de Pedra
Por falar em samba, essas duas garotas aqui que vos falam tiveram uma das maiores honras da vida. Fomos recebidas pelo malandro Riachão em sua casa no bairro, onde ele vive há quase 100 anos.
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Preparem os corações, porque a gente voltou com esse bônus maravilhoso do Garcia: um morador do bairro há quase um século, seu Clementino Rodrigues, esse malandro querido que atende pelo nome de Riachão. ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀ A história de amor dele com o samba é tão antiga quanto sua relação com o bairro. Com 8 anos ele corria para a casa do único vizinho que tinha vitrola pra ficar ouvindo os sambas da época. “O senhor lembra das músicas que ouvia?” “Lembro dessa ó: “Papai cadê Maria? Maria foi passear”... e começa a batucar no sofá, felizão por exibir os anéis que foram cuidadosamente colocados quando chegamos. ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀ Riachão é uma enciclopédia do bairro, e se lembra de quando o Garcia era uma enorme fazenda (veja o samba sobre isso na sequência). Ele adorava plantar junto com seu pai nas terras que ficam ali perto da casa onde ele mora hoje. “O senhor plantava o quê?” “Ah, minhas filhas, banana, aipim, caju, de um tudo”. ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀ Seu José, o pai, era carroceiro, capoeirista e cantor. Da mãe, dona Maria Estefânia, Riachão se recorda com saudade. “Eu não tenho um retrato do meu pai, mas vocês querem ver o de mainha? Eu estava sempre de junto dela enquanto ela costurava e fazia a comida. Fico chateado por não ter aprendido a cozinhar com ela”. E foi abraçado ao retrato da mãe que Riachão cantou a música que fez pra ela (passe pra frente e veja o vídeo que mostra essa lindeza de derreter qualquer coração desavisado ????). ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀ “Mas seu Clementino, porque o senhor nunca quis sair do Garcia?” “Pra quê, garotas? Ai meu Garcia, aqui é minha vida” ❤️❤️ Não precisa dizer mais nada, né? Só um muito obrigada a Carla e Milton, os netos que nos propiciaram esse encontro cheio de amor e samba em pleno coração do Garcia. ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀ #garcia #salvador #bahia #samba #riachao

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A vitalidade e a memória desse garoto quase centenário nos rendeu histórias incríveis, como a de quando ele tinha 8 anos e corria para a casa do vizinho para ouvir o som da vitrola. Um chapéu de bamba para quem adivinhar o que tocava nela. Samba, claro.
Riachão relembra as histórias com a mãe e exibe com orgulho a foto dela
Como o samba parece ser infinito no Garcia, foi no Aconchego da Zuzu que por acaso encontramos Walmir Lima. Quantas vezes você cantou o hino “eu vim de Ilha de Maré minha senhora”? Junto com seu João Barroso, filho de Zuzu, a música rolou solta enquanto conhecíamos histórias da saudosa senhorinha, que entre um feijão e outro que fazia para a família e os amigos, acabou abrindo o restaurante que hoje é uma joia do bairro.
Walmir Lima e João Barroso, duas lendas vivas do Aconchego da Zuzu

Finalmente apareceu por aqui o que a gente sabe que vocês adoram: comida. Pois o Garcia é muitíssimo bem servido. Pra começar, que tal fazer um pit stop no Sabor Regional? Por ali saem coxinhas enormes de charque, fumeiro, camarão e até bode. Pra quem concorda com a máxima de que "coxinha é melhor que muita gente” (risos), vale cada mordida.

Sabor regional e suas coxinhas enorme e deliciosas
Vocês já nos conhecem bem e sabem que a gente não ia ficar só na coxinha, né? Foi aí que surgiu a ideia de fazer um tour do feijão, iguaria famosíssima do Garcia. Começamos pelo Amilton’s Bar, que serve uma porção generosa para 4 pessoas por apenas 50 reais. A próxima parada foi o Feijão de Abdala pra provar o tempero delicioso de dona Cremilda. Andamos um pouco mais pra gastar as calorias e paramos ali no Beco de Rosália, que antigamente ficava nos Barris (quem aí se lembra?). Quem pensa que acabou está enganado. A última parada foi no Recanto da Tia Célia, reduto de mulheres maravilhosas que além do feijão, servem abará, acarajé, bolinho de estudante, bolos e tortas.
O maravilho tour do feijão do Garcia
Antes de ir embora passeamos pelo Colégio 2 de Julho, onde fica o Palácio Conde dos Arcos, um prédio lindo tombado pelo Iphan que já foi morada do vice-rei do Brasil e que infelizmente hoje está vazio, sem nenhuma utilidade. O mesmo abandono encontramos no Beco dos Artistas, um reduto da juventude pós ditadura militar que se reunia ali para discutir o governo, o direito das mulheres e a liberdade sexual. Nem tudo são flores, né?
O Palácio Conde dos Arcos e o Beco dos Artistas
A tristeza bateu e a gente resolveu tomar uma no Boteco do Farias pra esquecer. “Qual a especialidade do bar do senhor?” “Nenhuma que não tenho tempo nem idade mais pra cozinhar nada. Quem quiser vir aqui que tome sua cerveja, compre seu frango e se pique”. Um primo de seu Lunga desses, bixo <3. Então vê uma cerveja aí que a gente quer fazer esse brinde, seu Farias. Saúde, Garcia! Muito obrigada!
O impagável humor do querido seu Farias

SERVIÇOS

Casa de Pedra
Endereço: Rua Prediliano Pita, 451
Telefone: 98897 5645
Funcionamento: Sexta e sábado a partir das 21h e domingo a partir das 20h

Aconchego da Zuzu
Endereço: Rua Quintino Bocaiúva, 18
Telefone: 3331 5074
Funcionamento: Terça a domingo, a partir das 11h30min

Sabor Regional
Endereço: Av. Leovigildo Filgueiras, 515
Telefone: 98847 1878
Funcionamento: Segunda a sábado, das 12h às 21h
Preços: Coxinhas a partir de R$ 5

Amilton’s Bar
Endereço: Rua Prediliano Pita, 123
Funcionamento: Todos os dias, das 8h às 17h
Preços: Feijão para 4 pessoas R$ 50

Feijão de Abdala
Endereço: Rua Clemente Pereira
Funcionamento: Todos os dias a partir de 10h

Beco de Rosália

Endereço: Av. Leovigildo Filgueiras, 530
Telefone: 3329 1281
Funcionamento: Segunda a sábado, das 11h às 15h
Preços: Feijoada carioca R$ 18

Recanto da Tia Célia

Endereço: Rua Padre Domingos de Brito, 25
Telefone: 98652 3197
Funcionamento: Quinta a sábado, das 11h às 23h

Boteco do Farias

Endereço: Rua Martin Francisco, 15
Funcionamento: Segunda a sábado, a partir das 10h


O projeto "Se Essa Rua Fosse Minha" visita diversos bairros soteropolitanos, carinhosamente chamados de ruas, numa das muitas licenças poéticas que você vai encontrar nos textos. Ali, as publicitárias Luri Moraes e Ive Deonísio se encantam com as pessoas, conversam animadamente com os moradores e se deixam levar por esse mar de amor que emana das ruas de Salvador.  Mais histórias e fotos em @seessarua_fosseminha