Se essa rua fosse minha

Lapinha: para celebrar a Independência do Brasil e tomar aquela gelada

Foi na Bahia que o Brasil conquistou de fato sua independência e a Lapinha tem tudo a ver com isso

Ive Deonísio e Luriana Morais (falecomseessarua@gmail.com)
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Olha como o @seessarua_fosseminha já começou chique hoje: segundo o Ministério das Relações Exteriores, a Igreja da Lapinha é a única em estilo mourisco do Brasil. Os mouros são descendentes de muçulmanos que foram forçados ao batismo cristão. A verdade é que a igreja parece uma dessas mesquitas maravilhosas do Oriente Médio. Pena que a gente não manja nadinha dos paranauês árabes, porque a vontade que dá é de sair traduzindo tudo. Mas calma, migles, a gente manja dos paranauê do Google, então a tradução diz que: “Esta, a casa de Deus, este, portão do céu”.
A celebração do Dia de Reis acontece todo ano na igreja e relembra a visita de Belchior, Gaspar e Baltazar a Jesus. Quem são eles? Os três Reis Magos que trouxeram ouro, incenso e mirra. Aqui queríamos fazer um salve a Padre Pinto, essa figura transgressora que defendia uma igreja livre, era adepto do candomblé, bailarino, artista plástico e celebrava missa maquiado, o que é claro, chocou a tradicional família brasileira. Salve, salve!  
O centenário Pavilhão da Lapinha é um dos símbolos da nossa luta pela independência. Ali dentro estão o Caboclo e a Cabocla. Um ano depois da conquista do 2 de Julho, muitos dos heróis de guerra resolveram comemorar a data. Enfeitaram uma carreta que havia sido tomada na Batalha de Pirajá e dentro dela colocaram a figura de um caboclo para representar o povo baiano mestiço que lutou nas batalhas.

Em 1826, um artista esculpiu o caboclo por encomenda desse mesmo grupo de migos vitoriosos de guerra. Perceberam a bestage de só ter a figura masculina e um tempo depois outro artista fez a Cabocla, inspirada em Paraguaçu.

Tempos depois é que o Pavilhão foi construído para guardar as esculturas. O mais interessante é que vários baianos se inscreveram para ajudar nas obras como voluntários. Foram tantos que foi preciso fazer turnos especiais, inclusive aos finais de semana, para que todos pudessem trabalhar para dizer depois aos filhos e netos “eu ajudei a construir o Pavilhão 2 de Julho"
É impossível passear pela Lapinha sem prestar atenção na quantidade de casinhas lindas, daquelas que a gente dava um dedinho pra morar. Por causa do se essa rua fosse minha, nós criamos um hobby, observar quais delas tem o bônus de exibir o ano de construção na fachada. Detalhes que não existem mais hoje em dia na arquitetura atual e que nos fazem viajar no tempo sem pagar passagem
A Igreja São Francisco de Paula, do século 18, não tem mais altar nem imagens, e hoje dá lugar ao Projeto Levanta-te e Anda, que atende pessoas em situação de rua. Lá, elas podem tomar banho, lavar suas roupas, comer e participam de festas promovidas pelo projeto. Como se não bastasse a lindeza, eles têm um trabalho que transforma objetos encontrados no lixo, por isso a gente encontrou esse jardim tão colorido.

Vamos à parte etílica do passeio? A dica é tomar uma geladinha no Belvedere. O espaço é grandão, tem música ao vivo, uma vista incrível e um camarãozinho na tapioca que pelamor!!!! Dá pra levar a família, os amigos e até aquele crush que você tá querendo impressionar. Afinal, não é qualquer paquerinha que manja dos bares diferentões fora do circuito do Baixo Itaigara.
Bora falar de gente importante para o bairro? Adivinha onde mora o restaurador que ajudou a restaurar a Igreja da Lapinha? Na Lapinha, claro :) Moisés segue essa profissão há 30 anos, e entre tantas histórias, de uma ele se lembra com carinho: “uma senhora dona de uma fazenda estava arando a propriedade quando descobriu uma coleção de santos enterrados. Eu restaurei todos eles”. Moisés é um restaurador de memórias, daqueles que nossas avós iriam adorar conhecer.
Já o Troca Livros da professora Nilza funciona como um banco de livros didáticos e paradidáticos. Para a troca, é necessário pagar um valor simbólico, dinheiro que ajuda Nilza a manter uma biblioteca comunitária e uma ONG. Uma boa ideia para famílias que estão com o orçamento apertado ou para quem acredita que trocar é o melhor caminho, porque ajuda na economia do aluno, agride menos a natureza e faz girar uma energia que ficaria armazenada em livros que perdem a serventia ao final de cada ano letivo.
Pra terminar, fomos até a Soledade pra mostrar a igreja pra vocês, uma senhora bem antiga, que já existia por ali desde o século 17. Justamente pela avançada idade, ela precisou de umas recauchutagens e uns botox ao longo dos séculos 18, 19 e 20. A igreja ajuda a formar o que a gente apelidou de QG da Soledade, um complexo formado pelo largo, convento e colégio. É história e igreja que tem essa cidade, viu? Amém!
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SERVIÇOS
Projeto Levanta-te e Anda
Endereço: Ladeira São Francisco de Paula
Funcionamento: segunda a sexta, das 8h às 17h
Telefone: 3327 2317

Belvedere
Endereço: Largo da Lapinha, 25
Funcionamento: terça a domingo, das 11h30min às 23h
Telefone: 3241 7181

Ateliê Moisés Souza
Endereço: Rua Corredor da Lapinha, 16
Funcionamento: segunda a sexta, das 8h às 17h e sábado das 8h às 12h
Telefone: 98874 3840

Troca Livros

Endereço: Travessa Lima e Silva, 14
Funcionamento: segunda a sábado, das 8h às 18h
Telefone: 3489 2454

O projeto "Se Essa Rua Fosse Minha" visita diversos bairros soteropolitanos, carinhosamente chamados de ruas, numa das muitas licenças poéticas que você vai encontrar nos textos. Ali, as publicitárias Luri Moraes e Ive Deonísio se encantam com as pessoas, conversam animadamente com os moradores e se deixam levar por esse mar de amor que emana das ruas de Salvador.  Mais histórias e fotos em @seessarua_fosseminha