Se essa rua fosse minha

Os circuitos da folia: em muitos deles, você se diverte e não paga nada

Vem viver essa alegria com a gente, vem!

@seessarua_fosseminha (falecomseessarua@gmail.com)
- Atualizada em

Quando chega fevereiro, nosso coração também vira um Carnaval. Por isso, essa semana o se essa rua fosse minha trouxe pra você as histórias e os causos por trás de cada circuito da folia. Abram alas que a alegria vai passar.
 
Circuito Sérgio Bezerra - A magia dos antigos Carnavais está de volta

O Carnaval de Salvador começa mais cedo desde o final dos anos 70 graças a Sérgio, um jovem idealista dono de um bar frequentado por intelectuais, artistas, políticos e estudantes: o Habeas Copos. Nessa época, a Barra começava a se transformar em um bairro mais moderno, e Sérgio e seus amigos perceberam que ela poderia ser uma alternativa para um Carnaval mais familiar e tranquilo. É aí que surge a Banda Habeas Copos, que formou um bloco de sopro e percussão, aquele famoso “chupa catarro” que você conhece.
 
O Circuito Sérgio Bezerra foi oficializado em 2013 e hoje é considerado um patrimônio cultural e uma das maiores expressões do Carnaval da Bahia. O percurso é entre o Farol da Barra e o Morro do Cristo, e segundo o próprio Sérgio, “é um grande salão de festa a céu aberto e toda a família pode participar”. Quando bater aquela vontade de cantar “ó abre alas que eu quero passar”, corra pra Lavagem do Habeas Copos. Quem nunca se encantou por uma marchinha, que atire o primeiro gole.

Circuito Riachão - Protestos bem-humorados e a malandragem do sambista que a Bahia adora
Desde os 9 anos, o garoto Clementino já ensaiava umas batucadas no Garcia, seu bairro de origem. O apelido veio dos amigos, que o consideravam brigão demais, “um riacho que não se podia atravessar”. E é no mesmo Garcia onde o menino nasceu, que há mais de 80 anos desfila o Mudança do Garcia, sem cordas e com a banda que leva o mesmo nome. Quer saber como o bloco surgiu? Reza a lenda que uma prostituta decidiu sair do bairro em uma segunda de Carnaval, logo depois de ter sido expulsa pela elite do lugar. A partir daí, todos os anos os moradores se reúnem para relembrar a mudança da mulher.
A Mudança do Garcia protesta com irreverência sobre assuntos políticos, educacionais e de saúde do país. É a sua chance de se divertir e curtir o Carnaval de uma forma diferente, sem pagar nada. Em 2015, se tornou um dos circuitos oficiais da folia, mas será que o homenageado gostou de se ver retratado pelas ruas do bairro? Com a palavra, o jovem senhor Clementino: “A Mudança do Garcia é um ambiente de muita alegria. Agradeço a todos que concordaram com essa homenagem ao malandro”. E você, já pensou no que vai escrever no seu cartaz?
 
 
Circuito Batatinha - Um Carnaval também se faz sem trio
Já entregamos o ouro logo de cara pra você. No Circuito Batatinha ninguém vai correr atrás do trio, mas vai poder dançar ao som de fanfarras e blocos afro na companhia dos filhos. Você deve estar se perguntando: por que escolheram o Pelourinho e qual a ligação dele com Batatinha? O Pelô foi palco dos primeiros gritos carnavalescos que se tem notícia, ainda no século XVIII. E Batatinha é nosso querido Osmar da Penha, sambista de primeira que compunha e tocava uma caixinha de fósforos como ninguém. O apelido foi dado por um amigo que o achava muito legal, já que batata significa gente boa na gíria popular. O Circuito Batatinha surge como uma homenagem aos antigos carnavais e à tradição do samba baiano.
Se você quer fugir dos circuitos tradicionais e mergulhar num Carnaval que passa pelas ruas do centro histórico de Salvador, reúna sua família e vá se perder pelas vielas do Pelourinho. Mas não se preocupe que a gente te encontra por lá, com as mãos cheias de confete e o coração transbordando de amor. Essa é a Toalha da Saudade de Batatinha que faz a gente sambar.
 

Circuito Mestre Bimba - A luta de um homem e de uma comunidade simbolizada pelo Carnaval
Um Carnaval de verdade é democrático. Só seremos carnavalizados por completo quando a festa chegar pra toda nossa gente. Assim nasceu o circuito do Nordeste de Amaralina. Blocos e afoxés tomam as ruas e contribuem com a economia criativa do lugar. Os moradores se divertem sem sair de casa e ainda ajudam no sustento de muitas famílias que trabalham durante a folia.
 
É nesse contexto de inclusão que entra Mestre Bimba, criador da Capoeira Regional, que mesmo conquistando todas as classes da sociedade, sempre manteve sua academia no bairro, já que seu grande objetivo era tirar a capoeira da marginalidade. Homenagear o homem que sempre estimulou os jovens a se manifestarem artisticamente através da capoeira é uma forma linda de dizer “vai ter Carnaval em Amaralina sim”. É claro que em se tratando do mestre, essa frase teria que vir depois de muita luta. E veio. Sem violência, como ele gostava, mas cheia da efervescência cultural e artística de seu povo, com muita festa, confete e serpentina.
 

Circuito Osmar - A tradição que passa de folião para folião
Chegamos em 2018 e você deve estar aí contando os dias pra sair na Avenida. O problema é que até 1950, o Carnaval da Bahia era restrito a bailes fechados em clubes. Ou seja, zero chance de sua avó ter vivido a emoção de dançar com os braços pra cima carregada pelo seu avô, como a gente faz com os boys hoje em dia. Mas as coisas começaram a mudar quando os amigos Dodô e Osmar adaptaram um velho Ford 1923 com caixas de som e saíram pelas ruas de Salvador exibindo suas músicas. Assim nasceu a Fobica, e já que estamos falando de família, ela pode ser considerada a mãe do trio elétrico. Os rapazes subiram a Ladeira da Montanha em direção à Praça Castro Alves e Rua Chile, arrastaram milhares de pessoas e deram início ao nosso Carnaval.
Conhecido pela tradição, o circuito hoje abraça blocos, trios, fanfarras e samba e passa por lindos casarões antigos do centro, uma ótima desculpa para conhecer mais de Salvador entre um gole e outro de cerveja. Quando seu coração apontar no Campo Grande, pode apostar: seu corpo vai sumir na Praça da Piedade em meio à multidão, seus pés vão parar de tocar o chão e seus pensamentos vão flutuar rumo à praça do poeta. Como diria Moraes Moreira, "um verdadeiro enxame, chame chame gente”.
 
Circuito Dodô - A união perfeita de duas paixões do baiano: Carnaval e beira-mar
Somos capazes de apostar que você ama esse circuito, mas já parou pra pensar como ele começou? Mais uma lenda soteropolitana conta que foi por causa de uma pane do Camaleão na Avenida. No Carnaval seguinte, para evitar que a confusão acontecesse novamente, o bloco resolveu fazer o percurso entre Ondina e o Porto da Barra. Oi? Invertido? Sim, e foi assim durante muito tempo. Estava inaugurado o primeiro Banho de Mar à Fantasia do Camaleão e também os primórdios do que seria o percurso Barra-Ondina.
 
E quando se fala em paixão, o querido Dodô vem logo à cabeça. Quem mais do que ele foi tão louco pelo Carnaval? Tão, mas tão apaixonado, que quase o inventou tal qual ele é hoje. A Barra-Ondina respira essa paixão de Dodô. E quer uma dica? Aproveite pra encontrar muitos amores nessa beira-mar. Quem sabe um deles não sobe a serra?
 

Circuito Orlando Tapajós - Um resgate ao passado que mira no Carnaval do futuro: sem cordas
 Orlando é um desbravador, daqueles das histórias antigas. Foi ele que desfilou pela primeira vez no Carnaval de 1962 com a Carroceria Elétrica. Ele viu um modelo em uma revista de aviação em pleno voo. Foi ao banheiro, arrancou a página e a escondeu no seu sapato. Anos depois, criou o Trio Tapajós e muitos outros, entre eles a Caetanave, que nasceu para comemorar o exílio de Caetano e Gil.
 
O irmão mais novo de todos os circuitos, criado em 2016, desfila sem trios no contrafluxo da Barra-Ondina e trouxe pra gente o Furdunço e o Fuzuê, um delicioso resgate do Carnaval que ocupa as ruas livremente. Ele sai do Clube Espanhol e termina no Largo do Farol da Barra. Aí você nos pergunta: o circuito sem trios é homenageado por um dos construtores do trio? Ah gente, deixa pra lá, vai. Afinal de contas, é Carnaval!!! 

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