Se essa rua fosse minha

Pelourinho: dez coisas para fazer fora da rota tradicional

É um lugar delicinha, quase sempre o preferido dos turistas, mas a gente resolveu caçar umas coisas diferentes do que todo mundo costuma fazer

Ive Deonísio e Luriana Morais (falecomseessarua@gmail.com)
- Atualizada em
Nos tornamos quem mais temíamos: pessoas que fazem listas. Culpa do verão e do monte de gente que está de férias agora. Nos pediram dicas pra turistar pela cidade. A gente se desafiou e escolheu o Pelourinho. À primeira vista, parece óbvio. É um lugar delicinha, quase sempre o preferido dos turistas, mas a gente resolveu caçar umas coisas diferentes do que todo mundo costuma fazer. Vamos juntos?

1. Terraço da Casa do Amarelindo ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
É lá que fica o Pelô Bistrô, um restaurante/bar pequeno e aconchegante com vista para o Santo Antônio, Pelourinho e para a nossa Baía de Todos-Os-Santos. Não é barato, mas vale um drink no pôr do sol ou jantar para comemorar um momento especial. Que delícia ficar com a recordação de conhecer um hotel charmosão em um casarão lindo do século XIX na nossa cidade!
Foto: Reprodução/Google
O @casadoamarelindo é esse casarão amarelo, que fica entre o Terreiro de Jesus e o Largo do Pelourinho, uma das melhores localizações do Centro Histórico. Depois, ficamos sabendo que ele é famoso pelo ótimo atendimento e pelas camas de quase 3 metros. A gente achou importante dar esse último aviso, né? Vai que você se empolga nos drinks e resolve ficar por lá.

2. Casa do Benin
Salvador e o Recôncavo foram povoados por negros escravizados da região que onde hoje fica o Benin, na África. Em 1988, na comemoração dos 100 anos da abolição da escravatura, a Prefeitura de Salvador inaugurou a Casa do Benin, um sobrado no Pelourinho projetado pela maravilhosa arquiteta italiana Lina Bo Bardi.
A casa tem o propósito de mostrar a influência da cultura africana da Bahia e a maioria do acervo (tecidos, esculturas de ferro e argila) foi doada por Pierre Verger, na época em que ele estudava o “Fluxo e Refluxo Entre África e Bahia”.

3. Museu da Gastronomia Baiana⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Em 1549, começou a construção de Salvador, a primeira sede do governo português no Brasil. Inicialmente, a muralha da cidade ia da Rua da Misericórdia (Porta Norte ou Porta de Santa Catarina) até a Rua Chile (Porta Sul ou de Santa Luzia). Depois, os limites do Norte foram estendidos até o Largo do Pelourinho.
Sabia que ainda temos um pedacinho dessa muralha guardada no Museu da Gastronomia? Fica no Largo do Pelourinho, é gratuito e narra a nossa história afetiva com a comida africana.

4. Maria Mata Mouro⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Durante muito tempo, o Maria Mata Mouro foi visitado apenas por turistas. Engraçado como aqui em Salvador a gente não tem o costume de frequentar o Centro Histórico. Uma pena porque, além de belo, ele guarda uma parte viva da nossa história, como esse restaurante, que fica em um sobrado do século XVII, tem paredes construídas de taipa de pilão, a mesma técnica que foi empregada nos muros da defesa de Salvador.
Esse é mais um lugar chiquetê lindinho, mas eles fazem várias promoções legais (fiquem de olho no Instagram @mariamatamouro) e dá pra fazer uma gracinha em uma ocasião especial. Pra quem curte um espaço mais charmoso, a gente recomenda o ambiente ao ar livre, que tem jardim, fonte e música. É delícia e dá pra surpreender a companhia. Vai levar quem?

5. Clube do Samba⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Quase todo mundo conhece o Cravinho do Pelourinho, mas pouca gente sabe que atrás da cachaçaria tem o Clube do Samba. Às terças, sextas, sábados e domingos, rola um sambão de mesa lá, com ingresso a R$ 10 e cachaça a R$ 4. A entrada é por uma porta discreta ao lado do Cravinho. (Terreiro de Jesus, 05, telefone 99361-1509)
É uma festa gostosa, dá pra ver que as pessoas vão pra dançar e se divertir. Depois de frequentar esse samba, nunca mais tivemos coragem de dizer que o Pelourinho não tem nada pra fazer à noite. Nosso Pelô está repleto de vida, só falta boa vontade da gente pra descobrir. Simbora?

6. Sociedade Protetora dos Desvalidos
A Sociedade Protetora dos Desvalidos existe há 186 anos, sem ajuda governamental. Ela se sustenta graças à engenharia dos gestores negros fundadores, a maioria muçulmanos (a SPD foi criada entre a Revolta dos Búzios e a Revolta dos Malês), que planejaram a gestão de imóveis e joias para que a entidade pudesse se manter perene e ao mesmo tempo comprar a alforria de negros para proporcionar uma vida digna a eles. Hoje, a sociedade trabalha com educação e cidadania para proporcionar melhoria de vida à população afrodescendente em quilombos, e com mulheres negras da periferia de Salvador.

A sede fica em um sobrado histórico do Pelourinho, com móveis conservados do período de fundação e preserva o mesmo sistema hierárquico do período. É muito visitada por entidades, universidades e cede o espaço para eventos fechados. Mas precisa ser conhecida pelo cidadão comum porque, se nós não nos apropriarmos da nossa história, alguém vai, e pode não dar muito certo.

7. O Conjunto da Faculdade de Medicina⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
A Faculdade de Medicina da Ufba não é só esse jardim lindo e essa arquitetura marcante (aliás, esse deve ser o prédio mais lembrado do Terreiro de Jesus). Ela foi construída em meados do século XVI e, antes de ser faculdade, foi Colégio Jesuíta. Hoje, abriga dois museus e um CAPS (Centro de Atenção Psicossocial).
Tem o Museu Afro-Brasileiro (MAFRO), um dos poucos do país a tratar exclusivamente da cultura africana e sua influência na formação da cultura brasileira. O acervo tem homenagem a Marielle Franco, guarda peças tribais. mas o 'UOW!' mesmo vai para a sala com o “Mural dos Orixás”, de Carybé. São 27 painéis, todos com mais de 2 metros de altura, um desbunde esculpido em madeira com detalhes em cobre, prata, ouro, ferro, latão, búzios, espelhos e fios de contas. Os ingressos custam R$ 6 (inteira) e R$ 3 (meia). É difícil se arrepender.
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Lá também fica o Museu de Arqueologia e Etnologia, menos conhecido, mas também interessante. Ele foi construído em um sítio arqueológico e dá a real sensação de que a gente está em um filme escavando algo muito precioso. Ele expõe artefatos do passado pré-colonial e coisas que os indígenas usam até hoje. Entrada R$ 6 (inteira) e R$ 3 (meia).

8. Hotel do Pelourinho + Rocinha⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Hoje, o número 68 da Rua das Portas do Carmo abriga uma galeria de lojinhas e o Hotel do Pelourinho, mas no passado foi uma estalagem onde Jorge Amado viveu quando se mudou de Ilhéus para Salvador, com 16 anos. Foi lá que ele se inspirou e escreveu o romance “Suor”, uma história sobre prostitutas e trabalhadores do cais. ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Mesmo com a estrutura semiabandonada, a gente curtiu a parte de trás do imóvel. Uma visita foi suficiente para imaginar como era o clima do lugar quando os cômodos e a laje com vista para o Pelourinho, cais do Porto e Rocinha era ocupada.
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A Rocinha era uma comunidade cercada por área verde preservada, que ficava no meio do Pelourinho, atrás da Faculdade de Medicina. Gradativamente, as famílias foram transferidas com a promessa de que o local seria revitalizado e transformado na Vila Nova Esperança, mas, quase 10 anos depois, só restaram as estruturas tomadas pela mata.

9. Jardim das Delícias⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Sabe aqueles filmes da Sessão da Tarde em que um grupo de amigos encontra uma portinha qualquer, entra sem motivo e lá dentro dá de cara com uma casa cheia de coisas pra conhecer?
Foi mais ou menos assim que a gente descobriu o Jardim das Delícias. Primeiro, vimos a sala com móveis e objetos antigos. Depois, o mezanino e, por último, o espaço aberto das fotos, um jardim com cadeira de varanda de ferro, tipo de casa de vó. Muito fofo! ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
10.  Museu do Azulejo Udo Knoff⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
o Udo Knoff, no Pelourinho, foi o museu pioneiro no Brasil no tema da cerâmica. Os azulejos portugueses são protagonistas, mas o Udo Knoff também tem azulejos italianos, ingleses, holandeses, franceses e espanhóis da coleção do ceramista Horst Udo Knoff. Tem uma seção com os instrumentos que ele usava para fazer as cerâmicas e criações de Jenner Augusto, Sante Scaldaferri, Calasans Neto e Carybé.
Quem foi Horst Udo Erich Knoff? Um alemão que morou em Santos e no Rio, mas, depois de expor em Salvador, entrou pro nosso time, se apaixonou pela cidade e decidiu morar aqui. Nos anos 1960, ele instalou um ateliê em Brotas. Morreu em 1994, no ano de fundação do museu.⠀⠀⠀

Curtiu esse passeio diferentão pelo Pelô? Tem mais sugestões? Envia pra gente lá no instagram @seessarua_fosseminha⠀⠀⠀⠀⠀
O projeto "Se Essa Rua Fosse Minha"

visita diversos bairros soteropolitanos, carinhosamente chamados de

ruas, numa das muitas licenças poéticas que você vai encontrar nos

textos. Ali, as publicitárias Luri Moraes e Ive Deonísio se encantam com

as pessoas, conversam animadamente com os moradores e se deixam levar

por esse mar de amor que emana das ruas de Salvador.  Mais histórias e

fotos em @seessarua_fosseminha