Se essa rua fosse minha

Poucos soteropolitanos conhecem as belezas da Vila Brandão

Vista para a Baía de Todos-os-Santos, comunidade calorosa, passeio de barco e comidas deliciosas

Ive Deonísio e Luriana Morais (falecomseessarua@gmail.com)
- Atualizada em
O @sessarua_fosseminha andou paquerando a Vila Brandão algumas vezes, mas esse último encontro foi amor mesmo, cheio de admiração! E dá pra não amar uma comunidade que há 79 anos resiste à especulação imobiliária? A Vila Brandão, fundada pelo pescador Antônio Agulhão, segue viva e pulsante, debruçada sobre o mar, dizendo a todos que o pôr do sol do Yacht, Corredor da Vitória e Ladeira da Barra também é dela e de quem quiser chegar lá pra apreciar.

Localizada entre a Igreja da Vitória e o Yacth Clube, a comunidade mistura quase tudo entre os cerca de 300 moradores: pescador, empreendedora, videomaker, família de muitos e de um só, gringos, casas com adesivo de Lula Livre e de Bolsonaro. Apesar de algumas divergências, a maioria delas ideológicas, a vila é um dos lugares mais tranquilos e receptivos da cidade. E isso a gente pode dizer com conhecimento de causa. Começou por Marcelo, a pessoa por trás do perfil @vilabrandaoo, que foi o primeiro elemento de uma rede inteira de pessoas e lugares legais que encontramos por lá. 

Quem vive por ali é do mar. Eles crescem brincando pelas pedras, pescando, apostam corrida até os barcos, aprendem a remar, até virar adultos que sabem a tábua da maré de cor, sem esforço. A gente passou um dia inteiro nessa sintonia. Começou com um alerta do mar, chegamos arrumadinhas fazendo pose na escada para tirar foto e eis que vem uma onda mutante e nos molha da cabeça aos pés!

Não bastasse isso, rolou escorregão descendo as pedras e muita água engolida até chegarmos ao flutuante. Contando assim, parece perrengue, mas foi divertidíssimo! Antes do fim a gente já tava querendo tudo de novo.

Se você prefere um rolê com menos aventura e banhos planejados, a gente recomenda o passeio de barco. É uma pausa para ficar de boa, contemplar a Vila Brandão e o os prédios da Vitória de outro ângulo, entender um pouco como o mar vê a cidade e tomar um banho maravilhoso na água transparente. É sintonia com a natureza, um passeio de mar e de amor pela vila.

Chegamos na parte que todo mundo adora, a do rango. Depois de passear de barco, conhecer a horta, andar pelas casinhas e nadar até o píer, a fome bateu e fomos conhecer o Cantinho da Jô, e aí foi um festival de cerveja gelada e comida gostosa até 'umazora'.

O @cantdajo tem vista pro mar, uma garçonete moradora da comunidade fofíssima e muita prosa boa com dona Jô, que entre um petisco e outro, sobe pra cumprimentar e prosear com as pessoas. Apesar de ter só dois anos de funcionamento, o bonito trabalho de Jô já está sendo reconhecido, ela foi uma das convidadas do Panela de Bairro e fez bonito com um prato usando o mamão colhido ali no quintal da comunidade. Comida com preço mara, simplicidade, tempero de mãe e vista pra Baía de Todos-os-Santos. Já deu água na boca?⠀⠀

Festas homéricas. Piscina com água natural. Sala com paredes de pedra. Casa camuflada pela mata densa. Cravada entre o mar e um pedaço da Mata Atlântica, a Casa Amarela era uma lenda em Salvador. Todo mundo queria saber o que havia depois do portão no fim da Vila Brandão. E não é que gente descobriu? Na verdade, são dois portões. O primeiro, que dá pra Vila Brandão, é o portão da Casa Azul, de um dos herdeiros. Depois, tem outro que chega na Casa Amarela real/oficial. Que lugar! Sabe aqueles filmes da Sessão da Tarde em que os guris conhecem uma casa mágica que está meio abandonada e ficam imaginando as histórias de quando havia gente por lá? Foi assim que a gente se sentiu. A casa é linda e faz jus à fama e ainda está muito acesa na memória de muitos soteropolitanos.

A convivência da vila com o lugar era tranquila. Galego, um dos moradores, nos contou que a brincadeira dele e das outras crianças era apostar corrida até a casa pela praia, pegar frutas no quintal e depois correr dos cachorros. Hoje eles já não podem pegar frutas. É que em 2016 a casa foi comprada pela Mansão Wildberger. Muita gente apostava que ela seria derrubada pra virar mais um píer do Corredor da Vitória, mas nossos seguidores incríveis e bem informados nos garantiram que não. Um espaço secular, que conta parte da nossa história, e que assim permaneça! Vida longa à Casa Amarela!

O fundador da comunidade e do candomblé da Vila Brandão, Antônio Agulhão, parece personagem de João Ubaldo, mas é nome de gente da vida real. Seu Antônio deixou um legado de resistência no lugar.

Em 2009, a Vila Brandão sofreu com a ameaça de desapropriação pelo novo Plano de Desenvolvimento Urbano de Salvador. Interessante como destino para promoção imobiliária, empresarial e turística, ela não era tão bem assistida pelos serviços públicos, como coleta de lixo e saneamento básico. Diferente dos vizinhos Barra, Graça e Corredor da Vitória.

Mas a comunidade localizada numa das áreas mais valorizadas da capital e ao mesmo tempo pouco conhecida pela maioria dos habitantes da cidade venceu e não foi desapropriada. O decreto caiu e as casas estão lá, firmes, numeradas, organizadas. A gente acredita em locais assim. Lugares que são muito maiores que a lógica do capital, que crescem e se desenvolvem junto com projetos pensados por moradores. Que expõem as tensões entre riqueza e pobreza e o significado do verbo resistir.

A praça com mirante, o parquinho e a quadra são das crianças que brincam soltas, da roda de samba, da capoeira, dos moradores que celebram juntos. Nesses espaços comuns todo mundo interage e se conhece. Lá tem horta coletiva, terreno com fonte de água natural e trilha no meio da mata. 

A @vilabrandaoo está mais próxima de uma cidade do interior que do estereótipo de comunidade pobre assolada pela violência. Esses equipamentos são um convite para outras pessoas conhecerem e um reforço para os moradores ficarem. Afinal, foi lá que eles construíram as vidas, estabeleceram laços e planejam o futuro, porque no fundo sabem que certamente não será fácil conseguir um imóvel com o mesmo preço e localização.

A gente se despede da @vilabrandaoo com uma dica de lugar que não é exatamente da Vila Brandão. Apesar de ser uma obra de contrapartida da Mansão Wildberger, vale porque é um mirante para o pôr do sol da vila e porque é um começo pra desmistificar o estigma da comunidade. Chame uns amigos, leve o violão e conheça todas as delícias e belezas da Vila Brandão. A gente garante que vale a pena!

SERVIÇO: 

Cantinho da Jô
Vila Brandão, 18, Largo da Vitória
99103 6024
Segunda a sexta das 17:30h ate às 22h
Sábado e domingo das 11h às 22h
R$ 58 moqueca de camarão para 2
Passeio de barco
Entrar em contato com Marcelo no @vilabrandaoo
O valor do passeio depende da quantidade de pessoas no barco