Se essa rua fosse minha

Salvador pelo olhar de Lina Bo Bardi

Arquiteta se apaixonou pela cidade e queria um Centro Histórico popular

Ive Deonínio e Luriana Moraes (falecomseessarua@gmail.com)
- Atualizada em

Nossa última aventura foi uma caçada pelo legado de Lina Bo Bardi na cidade. Lina nasceu na Itália, mas se encantou com as pessoas, músicas, cheiros e as curvas daqui. Ela acreditava na cidade que a gente acredita, uma cidade em que todos vivem juntos, com um centro histórico onde mora gente e tem movimento, não um lugar construído apenas para o turismo. Lina pensava o urbanismo voltado para o social.
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Lina era amiga de Mario Cravo, Diógenes Rebouças e Odorico Tavares. Gostava mesmo de gente, conheceu uma Bahia profunda, estudou festas populares, procissões, viajou para o Recôncavo e para o sertão, estudou a Guerra de Canudos. E dizem que as vivências daqui nunca saíram da vida e das obras dela. A gente acredita.

Nossa primeira parada foi na Fundação Gregório de Mattos, que tem a assinatura de Lina Bo Bardi estampadona na janela, conhecida como a janela da garganta de Gregório de Mattos. Lina colocou a garganta do poeta satírico virada para a Praça Castro Alves, pra gritar que o movimento da arte tem mais é que invadir as ruas e praças.
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Com um olhar mais atento, dá para perceber que as marcas de Lina vão além da janela. Estão na arena do teatro sem palco fixo, um espaço vazado que se move de acordo com a obra, na escada que é quase uma escultura, no andar térreo com espaço para exposições, nas curvas externas do edifício.
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Antes, o prédio era o Cassino Tabaris, que ficou famosão nas décadas de 1930 a 60 por receber os barões do cacau. Em 1988, foi inaugurado com o projeto de Lina para reocupar o Centro Histórico, cheio de curvas, com a proposta despojada de se adaptar a várias linguagens. Da próxima vez que passar por lá, pare, repare e venha contar pra gente.


A Casa do Benin já é figurinha carimbada por aqui, mas não custa reforçar a beleza do pátio interno que rememora a mata africana, com água corrente e plantas, e que, recentemente, virou cenário da moda no Instagram.
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Os objetos da exposição permanente foram curados por Pierre Verger e fazem parte das andanças dele para estudar os fluxos e refluxos entre África e Bahia. Verger era amigo de Lina, muita coisa do acervo foi encomendada por ela.
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E a dica é que dá pra subir no terraço pra observar o Pelourinho e o Santo Antônio Além do Carmo. E fitar os mil telhados retangulares e casas coloridas. Em 1988, Lina queria fazer do lugar quase que um posto diplomático do país. Ela também pensou em criar a Casa da Bahia no Benin, mas não vingou. ⠀⠀
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Daí, se propôs a fazer desse casarão do século 19, que fora atingido por um incêndio, um local com vida. Preservou a estrutura externa e modernizou tudo dentro com arquitetura contemporânea, planejou auditório, vão extenso, usou os famosos pré-moldados de Lelé, colocou restaurante pra servir comidas do Benin dentro de um quiosque como as típicas casas africanas, feito de barro e com teto de palha, e transformou o espaço em um lugar para revigorar os sentidos. ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀

A Casa Coaty é um lugar diferente de tudo na cidade. Uma casa que convive com a natureza, cheia de curvas, janelas assimétricas e a textura da argamassa pré-moldada de Lelé. Ela esteve mais tempo fechada que aberta, e já foi o restaurante Zanzibar. Hoje é administrada pela Fundação Gregório de Mattos e abre de vez em quando para coisas pontuais.
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Agora, a casa e o acesso à Ladeira da Misericódia (que liga a Prefeitura à Cidade Baixa) estão fechados. A ladeira toda é um projeto de Lina Bo Bardi para ocupação do centro da cidade. As três casas ao lado da Coaty foram recuperadas e passaram a ter apartamentos populares no primeiro andar, além de um espaço para serviços ou comércio embaixo. A intenção de Lina era recuperar o centro com projeto de habitação e geração de renda para os moradores. Esse lugares nunca foram habitados. A gente torce para que a Ladeira da Misericórdia volte a ser ocupada. E quem sabe ela se transforma em um espaço para promover arte e capacitação na cidade?

Hoje, a Casa Olodum está bem descaracterizada, mas ela foi pensada por Lina para ter um interior moderno e conservar as características de casarão colonial do século XVII por fora. Lina projetou o espaço interno em forma de pirâmide, com parte da cobertura de vidro, para entrarem luz e boas energias. A gente ama essa vibe dela. No andar térreo funciona a loja do Olodum. No segundo, a recepção e a produção, e no terceiro o auditório.

É lá no auditório que está a exposição de figuras importantes da cultura negra, ancestrais egípcios e rastafáris, alguns baianos e, claro, Paul Simon, que arrecadou recursos com a gravação de um clipe para finalmente terminar a reforma da Casa Olodum – começou em 1987 para ser concluída em 1991. A casa ficou mais bonita depois que a gente descobriu a poesia dessa mistura de música, arquitetura, África, Itália e Bahia.


Sabia que tem Lina Bo Bardi no cemitério? O mausoléu da família Odebrecht no Campo Santo é a obra menos conhecida da arquiteta em Salvador. Mas é uma das mais legais do lugar.

Como Lina teve que sair da Bahia depois do golpe militar, a obra virou uma colaboração entre Lina, Carybé e Irmão Paulo. Imagine que peso! Adoraríamos ver mais produtos de colaboração entre essas grifes, senhores. As imagens bíblicas da pintura foram feitas por Carybé, irmão Paulo fez as letras e a porta de bronze, Lina pensou no formato de caixote alto ajardinado e no mosaico entre o ossuário pra entrar vento e luz.

Como sempre, ela inovou. Fez o primeiro mausoléu com terraço que se tem notícia no Campo Santo, colocou umas escadas pra cima, para dar a impressão de elevação da alma, e ainda queria bouganvilles florescendo de cima até o térreo. Elas foram plantadas, mas não vingaram. Não se pode ter tudo, né?
Talvez o MAM , esse museu debruçado sobre o mar, que a gente ama e leva os amigos turistas que vêm conhecer Salvador, não existisse se não fosse Lina Bo Bardi.
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No projeto inicial de construção da Avenida Contorno, o Solar do Unhão e o Forte da Gamboa seriam derrubados para a via passar. Lina e Diógenes Rebouças foram interceder junto ao governador para preservar os dois lugares. Na época, o Solar estava semi abandonado, funcionava como um grande galpão com vários usos, inclusive oficinas de carro.
O governo comprou o local e Lina chegou para desconstruir. Enquanto todos derrubavam as construções e começavam tudo do zero, ela preservou os galpões e a igreja do Solar, fez apenas mudanças internas. O Iphan queria que as portas e janelas das construções históricas da cidade fossem pintadas de verde-bandeira, e Lina insistiu no vermelho. Tudo que vinha da Europa era muito chique, mas Lina fez uma escada-escultura inspirada nos carros de boi do antigo engenho, sem um único parafuso, toda de encaixe.
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Ela queria mesmo era implantar um museu popular para valorizar a cultura do nordestino. Após o incêndio no Teatro Castro Alves, o Museu de Arte da Bahia saiu do foyer e foi para o Solar do Unhão. Virou um espaço vivo, com vista para o mar, ventilação, eventos e o carinho de quase todo soteropolitano. Qual a memória boa que você guarda de lá?
Aqui fica a nossa homenagem para uma arquiteta com compromisso com o ser humano, com a poesia e com o apuro técnico. Dizem que Lina encontrou no Brasil a esperança, por ter um motivo tão fértil e promissor. Que a gente nunca perca essa sementinha da esperança que ela deixou por aqui.

SERVIÇO

Casa do Benin
Endereço: Baixa dos Sapateiros, 7 - Pelourinho,
Horário: terça a sábado 9h às 17h
Telefone: (71) 3202-7890

Casa do Olodum

Endereço: R. Maciel de Baixo, 22 - Pelourinho
Horário:  segunda a sexta 10h às 18h
Telefone: (71) 3321-5010

Museu de Arte Moderna da Bahia

Endereço: Avenida do Contorno, s/n - Comercio,
Horário: terça a domingo 14h às 18h
Telefone: (71) 3116-8877

Fundação Gregório de Mattos
Endereço: R. Chile, 31 - Centro
Funcionamento:  segunda a sexta - 10h às 19h
                          sábado e domingo 14h às 17h
Telefone: (71) 3202-7800

Campo Santo

Endereço: Largo do Campo Santo, s/n - Federação
Horário: domingo a domingo 8h às 17h
Telefone: (71) 2203-9777⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀


O projeto "Se Essa Rua Fosse Minha" visita diversos bairros soteropolitanos, carinhosamente chamados de ruas, numa das muitas licenças poéticas que você vai encontrar nos textos. Ali, as publicitárias Luri Moraes e Ive Deonísio se encantam com as pessoas, conversam animadamente com os moradores e se deixam levar por esse mar de amor que emana das ruas de Salvador.  Mais histórias e fotos em @seessarua_fosseminha