Se essa rua fosse minha

Verão: São Tomé de Paripe, para ver e viver

Bairro do Subúrbio tem mar com águas claras e até um quilombo para visitar

Ive Deonísio e Luriana Morais (falecomseessarua@gmail.com)
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Hoje nosso rolê é por São Tomé de Paripe, o último bairro do Subúrbio de Salvador, limítrofe com Simões Filho. Uma área que já foi para veraneio de famílias abastadas e esconde vistas surreais. Ainda hoje tem chácaras, manguezal e até quilombo. No século XVIII, foi um povoado independente e só veio a ser integrado à cidade com a implantação do transporte ferroviário e aproximação do Subúrbio com o Centro. E antes de tudo isso era uma Mata Atlântica gigante, casa dos índios Tupinambás.

Paripe é um vocábulo de origem indígena que significa “cercado de peixe”. Esse mar de água rasa e tranquila tem um dos melhores banhos da cidade, ótimo para crianças e pode ser uma alternativa para quem tá sem grana para ir para o Litoral Norte, mas quer fazer um programa diferente, curtir um banho legal, viver o verão, né, mores? A orla tem calçadão arborizado e piso compartilhado, bom pra andar de bike, estrutura de cadeiras e sombreiros, barquinhos à deriva, areia clara e o visual de Inema ao fundo.
A ponte do Terminal Marítimo é um ícone de São Tomé de Paripe. É de lá que saem os barquinhos para Ilha de Maré (R$ 5). Diga aí se esse horizonte com mar paradinho não dá umas fotos pra ninguém nas Maldivas colocar defeito?  Bem do lado da ponte fica o muro que divide a praia de Inema, na Base Naval de Aratu, da praia que nós, cidadãos comuns, podemos frequentar.
Mirando da Praia de Paripe, dá para ver no alto da colina uma igrejinha simpática. É claro que não resistimos e fomos visitar a Igreja de São Tomé de Paripe. Descobrimos que ela é umas das mais antigas da cidade. Foi fundada em 1552, apoiada pela lenda indígena/católica das pegadas da entidade de um homem branco/São Tomé. Essas histórias de catequização dos índios são sinistras, né?
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Sinistra também é a vista da Igrejinha, que dá pra Baía de Todos-Os-Santos de um lado,  e do outro para uma escada-mirante de 180°, de onde se vê o lado mais habitado do bairro. A fachada gracinha é rococó, e é bom lembrar que essa é uma das poucas igrejas da cidade que têm o privilégio de ser voltada para o mar. Diz aí se não é fofa?
Ao lado da igrejinha fica o Casarão do Alto, um artifício de guinada de autoestima da cidade disfarçado de mirante, casa e espaço para festas em São Tomé de Paripe. Demorou cinco minutos pra ele virar um dos nossos locais favoritos da cidade.
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Lá de cima, dá para ver a areia clara e os vários tons de azul do mar, a vegetação de Inema, e também tem plantas cuidadas com carinho e muito espaço livre. Artur, o dono do espaço, já viajou o mundo inteiro e escolheu esse lugar para viver. Também pudera, né?
Provavelmente, São Tomé de Paripe é o local da cidade com mais chácaras e sítios. A tradição foi forte até os anos 1970. Hoje, muitos viraram casas de festas. Mas alguns, como esse sobrado, resistem soberanos. Ele é de 1803 e é conhecido por ser cenário da primeira filmagem de Dona Flor e Seus Dois Maridos. O sobrado fica de frente para o mar e não está aberto para visitação, mas dá para olhar da orla e admirar a mansão bem cuidada por fora.
E, pra finalizar esse tour icônico, conhecemos o Quilombo do Alto Tororó. Uma comunidade com vista para o mar e para o rio, onde quase todo mundo é parente. É que ela existe há mais de 400 anos e foi fundada por pescadores escravizados que, depois da abolição, passaram a vender peixes e mariscos.
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Hoje, a maioria dos descendentes desses povos escravizados sobrevivem da pesca e do artesanato, e ainda preservam as tradições e festas dos antepassados. O bumba-meu-boi e a capoeira são joias da comunidade. Desde que a Marinha do Brasil montou a Base Naval na região, em 1940, começou um conflito com a comunidade local. A instituição não reconhece os quilombolas vizinhos como donos do território.

Foi lá que a gente conheceu o restaurante de Paraíba, que chegou logo dando a real: “Aqui não tem cardápio porque eu só ofereço peixe e marisco fresco”. Mais que a honestidade, a gente amou o tempero da mulher dele e o preço. Essa moqueca de peixe e camarão para 5 pessoas custou R$ 90, e vinha farofa, pirão, feijão e salada.
SERVIÇO
Casarão do Alto
Endereço: R. do Corredor, 53 - São Tomé de Paripe
Horário: agendar visita
Telefone: 987404422 - Artur

Restaurante Paraíba
Endereço; Quilombo Alto do Tororó, São Tomé de Paripe
Horário: 12h às 18h
Telefone:985016737/991724288

O projeto "Se Essa Rua Fosse Minha" visita diversos bairros soteropolitanos, carinhosamente chamados de ruas, numa das muitas licenças poéticas que você vai encontrar nos textos. Ali, as publicitárias Luri Moraes e Ive Deonísio se encantam com as pessoas, conversam animadamente com os moradores e se deixam levar por esse mar de amor que emana das ruas de Salvador.  Mais histórias e fotos em @seessarua_fosseminha