Livros eletrônicos: como fazer citações?

Os livros eletrônicos – os tais dos ebooks – começam a ganhar espaço no Brasil. Já existem para venda nacionalmente, ao menos, dois leitores bem conhecidos no exterior: Kindle e Kobo. O primeiro, com vendas no site da Amazon Brasil; o segundo, comercializado pela Livraria Cultura.

Sim, estamos atrasados. A primeira versão do Kindle, por exemplo, foi lançada em 2007, trazendo diversas polêmicas e inseguranças no mercado editorial. Não lembro a data, mas algum tempo depois comprei o meu aparelho, pedindo a uma amiga que o trouxesse dos Estados Unidos (naquela época, a Amazon nem fazia ideia de quando viria ao Brasil). Testando-o, percebia pontos positivos e negativos em relação ao impresso. Mas, em geral, gosto de usá-lo. Mas também não deixei de comprar livros em papel. À época, claro, para livros brasileiros opções em ebooks eram inexistentes. Para livros em inglês, especialmente, era a melhor forma: nada de comprar mais obras em papel importadas e caras.

Comecei a perceber um excelente uso do livro eletrônico: para estudos acadêmicos. Às vezes nos damos conta de, às vésperas de entregar um artigo, por exemplo, precisar complementar alguma informação com um livro específico. Antes de um Kindle ou Kobo, as opções eram: procurar desesperadamente em bibliotecas e livrarias ou pedir emprestado. E se o livro não tivesse tradução para o português, aí vinha a dor de cabeça. Com um Kindle, resolvi isso fácil uma vez. Comprei-o em segundos pelo site da Amazon e em menos de 1 minuto já começava a leitura. Nada de esperar prazo de entrega ou ligar para as livrarias.

Mas outro problema surgia. Nossa maneira de citar em trabalhos acadêmicos está baseada no impresso. Até os arquivos eletrônicos, em formato pdf, baseiam-se em páginas. É sempre ao estilo (FULANO, 2003, p.10), mesmo que seja um arquivo digitalizado. Em um leitor eletrônico, no entanto, o funcionamento é diferente. O texto se adapta ao tamanho de tela, de letra, torna-se bastante maleável. Não há páginas fixas. O Kindle, por exemplo, funciona com “locations“. Fazemos referência à localização de um trecho, e não de uma página. Faz sentido e torna a busca muito mais rápida e simples: afinal, não há “páginas” em um ebook.

É nesse momento que surge o problema. Como faríamos uma citação? A partir da localização? (FULANO, 2003, l.10). Seria uma boa solução, mas não há consenso. E, claro, a ABNT parece nem estar se preocupando com os livros eletrônicos – ao menos, não há nenhuma mudança em vista em relação a esse tema. E mesmo fora do campo acadêmico, como citar, por exemplo, um trecho que gostamos de um romance?

Em um artigo em seu blog, em 2010, o pesquisador e professor da UFBA André Lemos discute essa questão e chega a uma conclusão: “Acho que, infelizmente, ainda, para os livros acadêmicos que tenham versão impressa, teremos que sair de casa e ir buscar na livraria ou biblioteca o livro, fuçar as páginas e localizar exatamente a passagem escolhida”. Ou seja, enquanto não houvesse uma solução para citar a partir da “localização”, ler um ebook simplesmente não faria sentido, já que, para citações, teríamos que recorrer de qualquer forma à versão impressa.

Ainda em 2010, a Amazon resolveu parcialmente esse problema. Além da location, grande parte dos livros para Kindle passou a indicar também a “página”, fazendo referência à edição em papel. É uma solução bastante conservadora, entendendo o livro impresso como se fosse uma espécie de referência original. No entanto, soluciona bastante nossos problemas. A citação continua, então, no mesmo formado (FULANO, 2003, p.10).

Tudo solucionado, certo? Não. Primeiro, devemos lembrar que existem livros sem edição em papel, e isso deve se tornar cada vez mais comum. E, de qualquer forma, não seria estranho fazermos referência a um livro impresso quando estamos lendo um em outro formato, completamente diferente? Em segundo lugar, parece que muitas editoras brasileiras se esqueceram da importância de se pensar no uso acadêmico de seus livros digitais.

Esse tema me ocorreu porque fui, pela primeira vez, utilizar a loja brasileira da Amazon. Comprei um livro que precisava com urgência para minha monografia, editado pela Companhia das Letras, e comecei a leitura em alguns minutos em meu aparelho Kindle (aquele mesmo comprado anos atrás). Em pouco tempo de leitura, me dou conta de que não há referência às páginas do impresso, apenas as “localizações”. Mandei e-mail para a Amazon Brasil, tendo uma resposta com rapidez, explicando que eu deveria ficar atento às observações sobre cada livro no site, que indicariam a presença das “páginas” ou não. Fazendo uma busca rápida não encontrei um único exemplar da Companhia das Letras que contivesse esse tipo de indicação. E boa parte das outras editoras estava no mesmo caminho.

Aquele livro digital, para mim, não fazia sentido. Precisaria de qualquer forma de uma edição impressa para poder citá-lo em um trabalho acadêmico. Expliquei a situação para a Amazon, que logo no dia seguinte cancelou minha compra, devolvendo o dinheiro.

Ainda assim, não resolvi meu problema. Liguei para livrarias perto e nenhuma delas contava com aquele livro em seu estoque, apenas para “encomenda”. Encomendá-lo e esperar mais de uma semana para começar a ler era justamente o que eu não queria. Resultado: comprei a edição em inglês. Não era o ideal, mas foi a solução mais viável para mim naquele momento. Poderia fazer citações a partir das “páginas” e paguei bem mais barato.

Claro, não imagino que fazer referência a uma página impressa, como se ela fosse de fato a original, soluciona o problema. Muitos dos livros, inclusive, possuem o “original” criado de forma digital, depois sendo transformado em obra impressa. Se as referências por página dependem sempre da editora, edição e ano de publicação, por que não poderíamos definir um novo padrão para leitores de ebooks? De qualquer forma, a solução, mesmo que parcial, encontrada para o Kindle deveria ser levada em conta pelas editoras brasileiras. A Companhia das Letras é uma das que se preocupam em oferecer seus livros também em formato digital, mas parece ter se esquecido de uma questão importante: vários de seus leitores precisam fazer citações.

Em resumo:
- Se você não se importa (ou não precisa) em fazer referências, esqueça o problema e compre o livro que quiser. Já há diversas edições digitais, de várias editoras brasileiras, seja para Kindle ou Kobo.
- Caso você busque um livro para uso acadêmico (ou simplesmente gosta ou precisa citá-lo), preocupe-se em, antes de comprá-lo, perceber se há referência às páginas do impresso.

(Leonardo Pastor)


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Recitais pela capital

Cartaz: Rafael Almeida

Hoje às 19h30 acontece mais uma edição do Pós-Lida, evento de poesia e alguma prosa que se mobiliza quinzenalmente no Sebo Praia dos Livros, bem ao lado do Instituto Mauá do Porto da Barra. A boa forma é a mesma: a recepção do ex-pós-tudo, ou pós-pós-tudo, James Martins a dois convidados especiais, um de carne, e outro de Skype. Nesta quinta, estarão o artista plástico Joãozito e o poeta e performer Lucio Agra, respectivamente.  Ao final, os microfones se abrirão para quem se prontificar.

E no sábado, ao cair da tarde nos jardins do Palacete das Artes, acontecerá uma edição especial do Sarau Prosa e Poesia para o projeto Trocando Livros. O quarteto já firmado de poetas e músico, Kátia Borges, Mariana Paiva e Nílson Galvão na companhia de Fabio Haendel, recebe Mayrant Gallo para homenagear o grande escritor da primeira metade do século XX, Antonio de Alcântara Machado. Misturas totais!


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Entrevista: Claudius Portugal

“Se lermos o que Monteiro Lobato nos anos 30 escreveu sobre o livro no Brasil, verificamos que os problemas são os mesmos.”   Foto: André Portugal

Nesta terça-feira de 14/05 às 19h na Confraria do França em Salvador, a P55 Edições traz o lançamento de mais dois volumes para a série “Cartas Bahianas”: o “Trem de Risco”, da poetisa estreante Ana Bárbara Sousa, e “Muadiê Maria”, de Martha Galrão, que publica os textos do seu blog. Ambas são representantes da proposta que o editor Claudius Portugal ajudou a idealizar para a coleção que lançou os principais nomes da literatura baiana atual.

Ele, que nasceu em Salvador, autor de ficções como “Cartas à família” e “Paredes Planas”, conta um pouco da sua trajetória e da editora a partir da próxima descida da barra de rolagem. Sigam.

* * *

BdeL – Claudius, conte-nos como foi o início do projeto Cartas Bahianas.

Esta história remonta a toda uma trajetória como editor e escritor. As duas iniciadas em 1975. Na primeira integrando, como representante dos alunos, a comissão editorial da Faculdade de Letras da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Paralelamente editando os livros do grupo Folha de Rosto, um dos participantes da cena que veio a se chamar “poesia marginal” ou “poesia dos anos 70”.

Voltando para a Bahia participo da comissão da Coleção dos Novos. Conjuntamente veio com Aninha Franco e Diógenes Serra Moura as Edições Bleff.  Em seguida, venho a ser editor da Coleção Copene, depois Braskem. E da revista Exu. Visualizando a possibilidade de fazer os Cartas Bahianas, proponho a P55, eles aceitam, e ela está aí, com 32 títulos e 27 autores. Mas nada disso seria abraçado por mim se não tivesse participado da Folha de Rosto e da poesia marginal no Rio de Janeiro.  Esta ação, não só poética, mas existencial e ideológica, cria as condições de exercer algumas práticas. Sigo uma canção desta época: “quem sabe faz hora, não espera acontecer”. Não se deve ter passividade em campo nenhum da vida. E o que temos de fazer é agir e criar nossos próprios caminhos. Cartas Bahianas é só mais um caminho nesta ação que venho realizando nestes muitos nãos.

BdeL – Por que Cartas? Qual recado se queria dar por baixo desses envelopes? Fale-nos das expectativas e das dificuldades.

É um nome de batismo. Poderia ficar assim. Mas creio que ao colocar este nome, buscar a forma de envelope, estava desejando que autores baianos remetessem seus textos em forma de livro. E sendo cartas impressas saía um pouco na contramão dos e-mails, que é hoje a forma de correspondência. E creio que é uma marca interessante.Não há recado. Na vida não se manda recados. Há é atitude, modo de ser e de pensar, maneira de agir ou reagir, editorialmente e politicamente a uma situação. Quantos autores saíram por existir esta ação?  Claro, que sem ela, alguns teriam sido publicados. Mas com a coleção o número ampliou-se e pode se verificar que se outras editoras ou instituições privadas ou públicas fizessem esta atividade sistematicamente, cada um com seu estilo, seu modo, estaríamos tendo um dinamismo editorial na literatura baiana, que acrescidos de outras ações tornariam não uma atividade eventual para fortalecimento editorial e literário baiano. Por não crer que comissões, seminários, editais, leis, concursos, patrocínios etc., resolvam todos os problemas para ativar a área, e nem achar que o poder público é o responsável, é que venho, desde a poesia marginal, passando pelo espaço Bleff, coordenando edições. Creio no fazer. No realizar. Nos seus erros e acertos para que o caminho exista. Quero acrescentar que não venham a alegar custos. Se desejassem fazer, seria feito. Tudo é possível quando se deseja fazer.

Expectativa e dificuldades? Se lermos o que Monteiro Lobato nos anos 30 escreveu sobre o livro no Brasil, verificamos que os problemas são os mesmos. Ao se conhecer estes textos, as expectativas e dificuldades ficam de fora. São menores diante disto, desta nossa realidade.

BdeL – Enquanto curador, quais são os principais critérios para seleção de um material deste porte? Para além da qualidade do texto e das pressões mercadológicas, como criar a representatividade de uma Bahia tão diversa?

Os critérios, por mais que tenham leitores me ajudando, acabam sendo pessoais. Não no sentido de grupo ou de estilo. A coleção tem uma diversidade ampla, mas no sentido e sentimento de estar diante de alguém que possui um texto que pode se desdobrar numa trajetória. Alguns podem ficar apenas neste, outros seguirão um caminho. Tocar piano não faz de ninguém um pianista.

Há autores que só conheço no dia do lançamento. Aprovo o texto e mando para a editora. Todo o contato e a edição são feitos por esta. Também é bom ficar claro que não se está querendo “criar a representatividade de uma Bahia”. Estamos publicando autores, autores variados, uns já conhecidos, outros inéditos. Esta variedade, da qual você pergunta, só existiria, talvez, se tivéssemos coleções similares, com outros autores, sendo publicadas por outras editoras.

Não há pressão mercadológica. O bom da literatura no Brasil é este. Como não se vive de literatura, pode-se fazer o que quiser, na sua maior liberdade. Daí que não gosto de quem não escreve o seu tempo e fica ruminando o já deglutido por outros. Esta é uma coisa que não me agrada.

Nestes critérios, tento deixar o gosto o mais possível do lado. Explico: meu poeta predileto é Murilo Mendes. Como já disse numa coluna que tenho na Rádio Educadora, programa Multicultura, “Caetano, talvez seja o mais importante poeta para a minha geração, no sentido lato, ou Augusto de Campos e Ferreira Gullar, para os puristas que acham que poesia apenas mora em livros, entre os vivos”. Este é meu gosto e minha opinião. Outros terão as suas e cabe a todos respeitarem todas as opiniões. Viva a diversidade. Algo de Voltaire – “não concordo com uma só palavra do que dizeis, mas defenderei até a morte o vosso direito de dizê-las”. Isto baliza minha conduta ao escolher os autores. Muitos que ali estão editados passam distante desta minha opinião abarcando a canção, a poesia concreta, a neoconcreta, e a marginal. É o que gosto. Se fosse exercer meu gosto, talvez a coleção nem existisse. O que quero dizer é que, mesmo que não vista a roupa, tenho de saber reconhecer que o alfaiate é interessante.

BdeL – O formato das obras é sempre compacto, uma pílula que abriga um universo: é esta a tendência de nossos tempos? Em que pé está, na sua opinião, a eterna dança entre o conto e o romance?

O formato e o número de páginas estão previamente estabelecidos. São do conhecimento de todos. Isto facilita um planejamento editorial.

Uma tendência? Creio que não.  Há publicações que dizem o contrário.

Quanto ao conto e romance, não entro nesta discussão. Vejo hoje os autores escrevendo textos, sem estes limites de prosa e poesia. Prefiro tratá-los como textos, mesmo que a ficha catalográfica ou o mundo acadêmico diga outra coisa. Vejo a literatura como um campo de atuação onde deve se estudar a tradição, conhecê-la, para fazer outra coisa. Quem tem de seguir o que se ensina é a ciência. Uma cirurgia se faz daquela maneira. Uma obturação daquela. Mas em arte, e literatura é arte e não ciência, o conhecimento é fundamental, mas para formar, informar, conhecer e se agir depois nas brechas ou na antítese disto.  Os pés de cada um devem fazer as suas pegadas e não caminhar nas pegadas dos outros, por mais que tenhamos influências e uma história que nos precedem. O caminho se faz caminhando. Os dias de hoje possuem suas necessidades, ansiedades, angústias, velocidade, violência, sexo, drogas, e deve viver este seu tempo. A literatura deve refletir isto. O mais é talento de cada um.

BdeL – E agora, não seria a hora dos E-mails Bahianos, ou ainda estamos todos com um pé atrás em relação ao livro digital?

O livro digital é uma realidade. Uma hora se chega lá. Mas creio que no nosso universo ainda temos muita pouca gente usando, e esta pouca gente é ainda menor ao se tratar de escolher literatura, e literatura baiana, que não caía no vestibular ou que alguma escola estude. Agora é bom deixar claro que alguns dos autores publicados vieram de blogs. Um dos caminhos para que se mostre um texto. E lendo estes blogs fiz o convite para saírem editados.

BdeL – Os mais novos lançamentos da coleção são duas obras de poesia. Por que poesia? E por que a Ana Sousa e a Martha Galrão?

Para mim são textos. O de Martha, por exemplo, é uma autobiografia, um diário, poemas, uma história real ou inventada? Nada disto e tudo isto.

Isto de razão, eu nunca respondo. Alguém que faz uma antologia escolhe quem nela acha que deve estar lá. Outro fazendo, já seria diferente. Não há razão. Há uma circunstância. Jamais reclamei de não ser incluído com minha literatura em revistas ou livros. Cada um gosta do que gosta. Já outros me incluíram. Agradeci. Mesmo quando recuso em sair. Então, como aceito as regras do jogo, ao fazer exerço meu sentimento, meus sentidos e meus quatro mil alto falantes.

Literatura deve deixar de ser muro de lamentações. Sempre se reclamando de quem está a fazer. Nunca dos que não fazem. Se não gosto, crio. Ao se ir à luta isto de queixa é esquecido. Estamos dentro e para entrar não é necessário pedir licença. A poesia marginal arrombou nos anos 70 a porta que estava fechada.  Era uma atitude de jovens. Hoje é história.

Agora são elas duas, Martha e Ana, como antes já tivemos outros vinte cinco.


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O Salão do Livro de Genebra 2013

Com mais de 25 anos de existência, o Salão do Livro de Genebra teve sua edição de 2013 realizada no início deste mês de maio. A convite do Varal do Brasil, que participou do evento, o escritor Valdeck Almeida de Jesus foi à Suíça e nos conta sua experiência.

Jacqueline Aisenman, organizadora do estande Varal do Brasil, doando o livro "Abre a Boca, Calabar", patrocinado pela Fundação Cultural do Estado da Bahia, organizado por Valdeck Almeida de Jesus

A minha ida à Suíça se deu, pelo segundo ano, a convite do Varal do Brasil, movimento criado pela brasileira Jacqueline Aisenman. Trata-se de uma revista eletrônica que recolhe textos de autores do mundo todo, em português, e publica em PDF, para circular pela internet.

No 27º Salão do Livro e da Imprensa de Genebra, vi de muita coisa, inclusive Paulo Coelho, que mora na cidade. Este ano ele fez uma visita aos autores brasileiros que estavam na feira. Realmente é uma festa literária, em todos os sentidos. Há gente do mundo inteiro, numa verdadeira profusão de língua, sotaques, fisionomias, jeitos diferentes de se vestir etc. O que todos têm em comum é a paixão pela literatura. Esta ligação forte com livros e leituras faz com que a magia aconteça e que cada um possa divulgar sua cultura e conviver cinco dias de muito calor humano.

Esse ano o homenageado foi o México que enviou uma delegações de escritoras e escritores para mostrar o que é que aquele país tem. Apresentados devidamente, os representantes mexicanos falaram em espanhol, claro. O bom de Genebra é que sempre tem alguém para falar sua língua. Ou seja, ninguém precisa perder o sotaque para se comunicar. Se bem que a língua inglesa ajuda bastante.

Além do país homenageado, que ano passado foi o Marrocos e este ano, como dito acima, foi o México, acontece, no mesmo espaço, e na maior democracia, o Salão do Livro Africano. Nesse espaço os autores da África, vindo de várias regiões, expõem livros e falas, na maioria das vezes em francês. Eles são elegantíssimos, sejam vestidos de executivos ou com roupas folclóricas, dão um show à parte.

Na quarta-feira a entrada é livre. Ninguém paga nada e todo mundo se diverte. Como em toda feira de livro em espaço fechado, quando a criançada entra o burburinho aumenta. E tem espaço para pintar, brincar, caça ao tesouro e muito mais. O suíço sabe fazer negócio. Inclui todo mundo e sai no lucro. É realmente uma festa, onde todos se comportam, compram, fazem intercâmbio. Aliás, a troca de experiência é o maior lucro que cada participante pode levar consigo. Das feiras que já participei, como São Paulo, Rio, Bahia, Aracaju, Flip e outras em cidades menores, a de Genebra é a que me dá mais vantagem, por ser aconchegante, pequena e muito diversificada em nacionalidades.

Debates, bate papos, conversas nos corredores, trocas de cartões e e-mails, não tem outro lugar onde se encontre tanto brasileiro apaixonado por livro e literatura. Me senti em casa e estou com planos de voltar várias vezes. Vale a pena.

 

Valdeck Almeida de Jesus é jornalista, escritor e poeta. Além de diversas obras publicadas, recentemente editou o livro “Abre a Boca Calabar”, resultado de um concurso de poesias com crianças da comunidade Calabar.


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Memória da Pedra (resenha)

O título do romance de estreia do diplomata e agora escritor, Mauricio Lyrio, lembra um poema indiano: “Deus dorme na pedra, respira na planta, sonha no animal e desperta no homem”. Este homem é o olho vivo de todas as coisas, quem dá significado mesmo a quem não pede o gesto. O preço não fica pequeno: ter a consciência de si em um cosmos já repousado no movimento de sua própria harmonia significa, de algum modo, estar fora. Mesmo que ocupe um espaço, tenha um corpo e intervenha entre tudo o mais que respira e sonha, o homem às vezes parece ser um voyeur da totalidade e expulso do privilégio de uma pureza.

Para Eduardo, professor universitário de filosofia e protagonista deste romance, talvez fosse a solução estar totalmente distante, como um pensamento suspenso, um balão de res cogitans, ou estar inteiramente dentro, imerso em um caldo orgânico, sem mais nada a resolver. O que se torna trágico é o elo de compensação entre os dois, ser a dupla natureza quase sempre fora de equilíbrio. Deixar-se abstrato e distraído de consequências como um profeta à beira-mar não impede que o mundo gire ao encontro e sob uma responsabilidade. Por outro lado, ser empurrado pelas inspirações e espontaneidades traz a perda de um fio lógico e da possibilidade de ainda narrar-se. Ou o fardo do homem é estar em vigília o tempo todo ou é ter de assumir as consequências de sua desatenção.

A pintora e traumatizada Laura, o médico e culpado Gilberto, a psicóloga e autodestrutiva Marina, a secretária e enigmática Anita e Romário, o menino de rua acolhido, formam o quadro de vidas e símbolos, cada um deles vítima de um poder conhecer e ter de ignorar, de um já compreender e não conseguir interpretar, talvez não a tempo, talvez não o suficiente ou por escolha. Aquele que serve de epicentro é um órfão desde a infância, em circunstâncias que ainda terá de descobrir, habitante invariável da cidade do Rio de Janeiro, portador da síndrome de Kartagener e pesquisador especialista em Merleau-Ponty, na mesma universidade onde estudou e ensina. Eduardo parece ser só isso e mais os seus desejos. É o que, no entanto, já constitui a condição de estar implicado nas coisas e nos destinos que a partir delas e junto a elas brotam.

A simples presença lança o indivíduo ao inesperado e ao extraordinário. A marca disto em Memória da Pedra (Companhia das Letras, 2013) está na constância de cenas insólitas, sem que nenhuma delas pareça descambar para o fantástico. O mais sombrio no livro é não querer chamá-lo de realista e tampouco ter depois para onde ir: o real está lá em todas as curvas, justamente em curvas – na autópsia dentro de um cruzeiro, no sono dentro de um buraco de túnel, na queda-livre contra a rocha ou no balão de fogo sobre a madrugada. O que atordoa um homem é toda esta realidade se destacar do “sono bruto de Deus” e sê-lo com outro desígnio, sem a harmonia, sem a neutralidade, humanamente codificado, e mesmo assim tão incompreensível quanto os próprios astros e o oceano.

Nem por isso a narrativa de Lyrio é obscura: os eventos são demonstrados, as palavras são colocadas em seus pontos, e a trama segue, ora com lentidão, ora com intensidade, para um clímax. A questão da complexidade de um homem não é, pois, um aparato da linguagem, somos ainda desafiadores mesmo na clareza. Tampouco Memória da Pedra é um romance de ideias. O pacto para uma relação proporcional entre pensamentos e intrigas está logo no primeiro parágrafo, que serve como prefácio: “Os alunos prestavam atenção quando ele deixava de falar dos textos dos filósofos e discutia suas ideias citando trechos de romances. Personagens imateriais, histórias arbitrárias, nascendo do nada, tinham mais apelo que a linguagem austera da filosofia”.

É o motim do livro: teorias, teses e círculos interpretativos estarão ali nos gestos decisivos de um homem atravessado por um tempo e uma cultura. Filosofa-se não para se aprender em uma aula ou se escrever um artigo, mas para se aprender a morrer, como sentencia Montaigne, ou para quando todo o resta falha, conforme recomenda J. M. Coetzee. Eis a literatura como espaço de encarnação de conceitos e embates nos seus limites.

II

A trama se inicia com a rotina burocrática de Eduardo, desviada pela encenação de um menino de rua no sinal, ao tentar conseguir um trocado. Esse é Romário, que faz o professor de filosofia oferecer comida e uma noite de sono em seu apartamento. Laura, a companheira, não gosta a princípio da presença estranha que vinha passar um dia e fica uma semana, como também não entende o surto de paternidade de Eduardo, ele sempre contrário à ideia de um filho. Quem o pilheria pelo ato de misericórdia é o oncologista, Gilberto, viúvo jovem de Marina, que compunha antes o quarteto inseparável entre os dois casais. É o amigo também que descobre a doença do professor, uma síndrome rara que faz os órgãos se inverterem de posição, e quem se torna cúmplice de sua busca por saber as últimas preocupações dos pais antes de morrerem.

Nada em Memória da Pedra é feito com grandiloquência, porém: em cada ação há morosidade, dúvida, cotidiano. A estranheza se instala sem que se a convoque e sem que surja de repente, já sempre esteve ali e nunca deixou de estar. Mesmo o misto de atração e curiosidade de Eduardo pela nova secretária do departamento, a bela morena Anita, não vem com afetação, e quando algo eclode, ainda não se fecha em um motivo delineável. Tudo paira, como se a vida já fosse memória, ou é a memória que consegue pôr o sentido que o instante mesmo não guarda.

Eis o que vale também para um homem em sua época, em que seus impasses se filiam aos contra-pontos da coletividade. No caso de Eduardo, trata-se do Brasil do impeachment, fragilizado na construção de uma democracia que terá de fazer os abismos sociais e étnicos dialogarem, de reformar-se de um estado de violência disseminado. O peso é a fronteira, o ter de ao mesmo tempo conseguir este passo novo e se desfazer do outro tão mais arraigado. Lançar o primeiro como ordem e cobrir o outro que rumina no íntimo, em gerações e gerações de senhores e escravos, de mandos e obediências. Será simples agir como se a lembrança já fosse ultrapassada, com a naturalidade de quem já pode deixar tudo a próprio curso? A inconsequência de Eduardo é existencial, no sentido forte do termo: próprio de si em correlação entranhada com o mundo dado. O desfecho resvalará duplamente.

O que enfrenta o romance repercute o lugar posto ao poeta pelo crítico James Redfield: “O poeta trágico testa os limites da cultura… Na tragédia, a própria cultura se torna problemática (…). Através do sofrimento não merecido dos personagens, o problema da cultura nos é devolvido”. Os obstáculos que temos enquanto comunidade – exclusões, intolerâncias, velamentos, cinismos – são postos e não merecem melindres, nem a permissão de uma uma vivência abstraída, sem a angústia da passagem. Os problemas de um tempo se esparsam feito a memória, o que torna ainda mais imperativo declará-los.

Trecho da obra

A memória era evasiva, cheia de caprichos, as imagens visitavam-no como um hóspede melindroso. Ela falava a seu lado, e ele a revia por trás, as linhas, as cores, as sombras, o tom e a medida certa, a aproximação, os dois corpos abraçados sem brechas (…) Readquiria a certeza de que o contato do corpo era o vínculo mais forte entre duas pessoas. No momento íntimo, um vaga-lume continuava seu voo circular, sua intermitência preguiçosa. Sempre pensou que os vaga-lumes fossem insetos crepusculares, que não sobreviviam à madrugada nem tinham força para chegar ao oitavo andar. O fato é que lá esteve, visível, invisível, mesmo depois que ele tirou os óculos. Tinha ido para a cama dormir, mas o pequeno inseto animou-o pelo inusitado, e ele se perguntou, naquele momento em que os corpos pareciam um só, se Laura também o viu.

(Saulo Dourado)


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Escritor também vai à escola – parte II

Olha, a gente fala muitíssimo mal da vida, reclama da falta de leitores, dos preços altos em livros ruins, do descaso com bienal, etc., etc, mas, quando é um projeto legal que merece divulgação, não podemos nunca negar o espaço. Portanto, é o seguinte. Para você, amigo internauta, que, depois de ler este nosso post, resolveu descobrir por si mesmo os segredos de um curso de Escrita Criativa, uma ótima oportunidade: a Fundação Cultural do Estado da Bahia abriu nesta semana inscrições para a 2º edição do projeto Escritas em Trânsito, que traz escritores brasileiros de peso para ministrar oficinas em Salvador.

Sim, sim, já não era sem tempo! O Escritas em Trânsito é uma das iniciativas mais legais a surgir na Salvador literária dos últimos anos. É gratuito, os escritores selecionados são bons nomes – premiados, com formações distintas, interessados e interessantes –, sem falar que o material didático-literário oferecido é enorme (tendo frequentado apenas uma oficina, terminei com mais de 300 páginas de contos na mão). As acomodações para os alunos precisam melhorar, né, mas aí é um problema da Biblioteca Central como um todo – recomendamos, aliás, aos responsáveis pela biblioteca, que conversem com James Martins sobre a questão, ele tem várias (boas) ideias a respeito.

Enfim. Aos detalhes da segunda edição, que é o que nos interessa. Desta vez serão 14 cursos, do começo de maio até o início de 2014, cada um com 20 vagas. Entre os “professores” anunciados, atenção às aulas de Joca Reiners Terron, José Luiz Passos, que já foi até resenhado pelo Blog de Literatura, Antônio Cícero, Laura Erber, Carol Bensimon, selecionada para a polêmica Granta brasileira, Noemi Jaffe, Ondjaki e Paulo Henriques Britto, além de consideração especial com o Assis Brasil, talvez o maior responsável pela introdução das oficinas de Escrita Criativa no país, ainda nos anos 80.

As datas de todos os cursos, no entanto, não foram divulgadas – é provável que estejam ainda negociando agendas. Portanto, as inscrições serão feitas caso a caso, a começar pela Oficina de Criação Poética: Poesia no Corpo e na Palavra, de 13 a 15 de maio, a ser comandada por Marina Wisnik, com inscrições abertas.

Outras informações, você consegue aqui, ó: http://www.fundacaocultural.ba.gov.br/escritasemtransito

Eu, se fosse você, já estaria lá.

(Davi Boaventura)


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Como se escreve uma carta?

O primeiro passo é  preparar o material:  1) Papel e caneta. Isso, caneta é o que se usa para escrever à mão. 2) Envelope. Branco mesmo, do tamanho de uma folha A4 dobrada em três partes.

Separados os itens necessários, resta-nos a tarefa de escrever. Normalmente, coloca-se no canto superior direito o local e a data. Exemplo: Salvador, BA, 29 de abril de 2013. Alinhado à esquerda, porém mais abaixo, um vocativo – afinal, uma carta é endereçada a alguém, certo?

Vamos lá.

 

Salvador, Bahia, 29 de abril de 2013

Caro leitor,

Serei sincero: eu nem lembrava da existência das cartas. Sim, claro, recebo papéis chatos pelo correio, mas não considero como cartas, e sim contas a pagar. Aos amigos, escrevo por e-mail, SMS ou redes sociais. Nunca por cartas.

Criado pelos egípcios e aprimorado pelos persas, o correio é claramente uma invenção revolucionária. Informações escritas passaram a circular de forma organizada, funcionando até os dias de hoje. Há pouco tempo, aliás, a comunicação escrita baseava-se nesse tipo de correspondência.

Tem carta perdida, rasgada ou guardada. Há aquelas famosas – e até nunca enviadas, como a de Kafka a seu pai, depois transformada em livro – e as anônimas, sem remetente. Mas o que me fez lembrar delas (das cartas) foi uma enviada por meu avô, endereçada a mim, no ano de 1997. Foi encontrada por acaso e, claro, nem lembrava de sua existência. Afinal, tinha apenas 9 anos na época.

Datilografada, era uma carta para me recomendar e presentear com músicas: “Mando-te em fita modelo K-7 as nove sinfonias de Beethoven”. Amante da música clássica, meu avô costumava me incentivar a apreciá-la. Se fosse um e-mail, talvez nunca o encontrasse. A carta pode nos mostrar o prazer de uma lembrança inesperada, mesmo que seja realmente mais fácil e rápido enviar uma mensagem de texto pelo celular.

Não estou defendendo as cartas – e nem substituirei o e-mail por elas. É importante, ao menos, pensar em como é bom escrevê-las ou lê-las.

Não lembro se respondi a esta carta em 1997. Mas responderei agora, em 2013. De Salvador para o Rio de Janeiro.

Abraço,

Leonardo Pastor

 

 


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Entrevista: Mayrant Gallo

foto: Carlos Souza

 

“Para onde olhamos há uma ditadura em curso. Quase só há ditaduras. E, qualquer que seja o autor, ele precisa ser livre. Não escrever nem para alguém nem para uma causa”.

 

 

Na próxima segunda-feira, às 19h, no Restaurante Casa de Tereza, Mayrant Gallo lançará o livro de contos “Cidade singular” pela Editora Kalango. Os músculos da mão para as canetadas de autógrafos já terão que estar refeitos no dia 08 de Maio, quando lança a sua novela/romance “Os encantos do sol” (Escrituras, 2013). Ele, que foi também um dos selecionados para a divulgação de autores baianos na Feira Literária de Frankfurt, já foi colaborador do Correio, gestor público na Fundação Pedro Calmon e publicou livros comemorados. Com as palavras que nos chegam, ele traz significados para esses giros e brechas por onde entre eles o leitor tenha o seu.

Em “Cidade Singular”, você compila contos de épocas diferentes, alguns até refeitos ou complementados de um período para outro. Parece ter sido uma oportunidade de voltar e assistir ao próprio percurso de escritor do início até o momento. Qual foi a surpresa? O que ganhou nesse tempo e também o que perdeu?

As boas ideias perseguem o escritor, e ele jamais as esquece. Esta afirmação, de Truman Capote, é quase uma leitura do conteúdo de “Cidade singular”. Eu não recolhi relatos antigos e outros mais recentes, simplesmente aconteceu de eu entender, num certo momento, que algumas histórias, já tendo sido publicadas em periódicos ou que simplesmente foram engavetadas, chegavam por si mesmas, depois de anos de criação, a uma versão à altura de constar em livro; além do fato de que três assuntos básicos as costuravam: crime, família e individualidade. Creio que não perdi nada, por adiar ano após ano a publicação deste livro, e, se ganhei alguma coisa, foi sem dúvida a certeza de que, se devo fazer literatura, não devo procurar nada senão a qualidade do texto, aquilo que o difere de todos os demais registros de escrita. Ao fim, me surpreendi com o fato de que, ao ler as provas gráficas, apreciei os contos mais como leitor do que como criador.

A novela “Os Encantos do Sol” é um conto que se estendeu, conforme relata sobre a sugestão de uma leitora ao lê-lo nos primórdios. Isto significa que você não sabe por princípio qual é o tamanho de uma história? Por que nenhum dos contos a serem lançados agora não poderia transformar-se em uma novela ou um romance?

Quando fiz do conto “Os encantos do sol” uma novela ou, se o leitor preferir, um romance, operei mudanças estruturais importantes, de modo a deslocar a história de um gênero para outro. Quando Ângela Vilma me disse que o conto rendia um romance, obviamente que ela se referia ao teor dramático, que poderia se estender, tornar-se mais complexo e dinâmico, à feição de um romance. Muitos contos, meus e de outros autores, reúnem tais características, em germe. Um dos relatos de “Cidade singular”, por exemplo, “Você não é Sam Spade”, vai se tornar um romance daqui a alguns anos, e do qual ele será, certamente, o primeiro capítulo. Já tenho o segundo e o terceiro em forma de esboço. Se eu não me desestimular, o que acontece frequentemente, deverei escrevê-lo.

Na epígrafe do seu blog, há uma frase de Ramalho Ortigão em que se diz: “Toda a ditadura oficial e acadêmica é fatal à arte”. Por que isto lhe preocupa? Parece que os seus livros agora publicados foram escritos livremente, ao seu gosto estético. Onde está então essa ditadura?

Ora, para onde olhamos há uma ditadura em curso… Cultural, política, econômica, literária, acadêmica, de gosto… Ditadura de um tipo de cinema, de um tipo de livro, de um tipo de política cultural, de uma teoria ou uma crítica… De magreza, de beleza, de juventude, de cor, de raça, de sexo… De comportamento. Quase que só há ditaduras. E, qualquer que seja o autor, ele precisa ser livre. Não escrever nem para alguém nem para uma causa. Um amigo meu, escritor, me disse não entender como o meu projeto para a criação e publicação de “Os encantos do sol” foi aprovado pelo MinC, por estar, de certa forma, na contramão do que aquele Ministério propõe e exige. Eu também me surpreendi. Mas, por outro lado, é uma evidência de que os jurados também são livres. Ainda.

Falando sobre a sua experiência enquanto gestor público no setor de cultura. Em uma famosa oração beneditina, pede-se “serenidade para aceitar o que não podemos mudar, coragem para modificar aquilo que podemos e sabedoria para distinguir um do outro”. O que você acha, de forma geral, que não conseguiria mudar? E o que se consegue vale a pena?

Na Bahia, não se consegue mudar a ideia, largamente disseminada, de que Arte e Educação não servem para nada. Mas vale a pena tentar fazê-lo, e nos damos conta disso quando, mesmo com a Ditadura Oficial (que transforma a primeira biblioteca pública do Brasil, nos Barris, em centro cultural, reduzindo o livro a apenas mais um item), descobrimos que alguém se transformou após a leitura de um grande clássico da literatura universal, ou depois de assistir a um filme de Truffaut ou Domingos Oliveira, ou depois de contemplar uma obra de Picasso ou ouvir a um movimento de Sibelius. Itens culturais vão e vêm, são como a areia da praia, enquanto a Arte é eterna, pelo menos enquanto houver humanidade.

E o que se pode fazer enquanto escritor?

Escrever. Sem servir a ninguém nem a nada, senão às suas convicções.



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Quantos livros você consegue segurar?

Leitores fazem de tudo por mais livros. Endividam-se, pegam emprestado – e nem sempre devolvem – e, até, participam de concursos sem sentido na internet.

O escritor de livros de fantasia Mark Lawrence lançou uma campanha inusitada: “Holding up books for no reason“. Os seja, simplesmente por nenhum motivo ele convida seus leitores a segurar o maior número possível de livros. Como premiação, o escritor enviou livros de fantasia aos autores das três melhores fotos. E, claro, vários leitores participaram. Segurando com o pé, mordendo, apoiando com o queixo… vê-se de tudo.

As regras eram claras: 1) Livros com capas voltadas para frente; 2) Apenas uma pessoa segurando; 3) Nada de montagem em photoshop; 4) Proibido qualquer tipo de suporte auxiliar. Seguindo essas instruções, um adolescente chamado Benjamin conseguiu carregar 21 livros ao mesmo tempo. É justamente a foto que ilustra o início deste post. O garoto venceu em número de livros, mesmo disputando com adultos viciados em fantasia.

Na mesma linha de concursos inusitados, lembrei de um que premia as capas mais esquisitas: o Diagram Prize. Surgindo inicialmente como uma brincadeira durante a Feira de Livros de Frankfurt, numa avaliação com uma banca de jurados, em seguida passou a ter votação livre na internet.

Confira, abaixo, alguns dos vencedores:

 


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Teremos coisas bonitas pra contar

 

Ilustração de Ricard Sans em "Para Colorir", de Ricardo Cury

De leitor a escritor, de aluno a professor, a certeza que sempre redescubro é a vocação das histórias. Em pátios ou salas de aula, não foram as pirotecnias que me fizeram presenciar a unanimidade dos olhos atentos, e quando não havia recurso algum, sem que quarenta me notassem debaixo de um ventilador antigo, o que tocou a flauta mágica foi o  “certa vez, um amigo meu me contou que…”. Crianças, velhos, madames e pobres: todos parecem estar à espera de dois ou três personagens que se aventurem rumo a um final.

Assim, alguns livros são travessos e, mesmo sem grandes propostas de refinamento e originalidade (características essas que não são virtudes prontas e acabadas), puxam o nosso manto e nos sentam à cadeira. É o que me acontece em certas biografias, livros de crônicas e relatos de blogs, sem que eu intencione. No caso do volume que comento, juntam-se de certo modo os três. Para Colorir, de Ricardo Cury, lançado por selo independente e apoiado pela Editora Corrupio em 2008, é de uma simplicidade indivisível. Ou seja, a simplicidade que não conseguiria ser menos do que é, porque está no limite da expressão direta do que se sente e do desprendimento do que se tenta.

São narrativas sobre adolescência, bandas de rock como brincando de deus e Formidável Família Musical, conversas com astros, retiros e formações, permeadas por trechos de canções e capas de álbuns. Não há quase uma consideração ponderada sobre a ordem dos homens e das coisas: existem os homens e as coisas com a rede de sensações e significados que os liga, a partir de um espécime jovem, baterista, nadador, redator, soteropolitano entre as décadas de 90 e 00. Apenas. O que não implica em falta, pelo contrário, trata-se de pura presença, e a companhia de uma vida acontecendo nina leitores para além dos recursos. E se a partir de uma descoberta casual foi possível atravessar com ela um domingo, é porque antes de “literatos”, “em rupturas de paradigmas”, somos uma criança, um velho, uma madame, um pobre.

Em Os sonhos não envelhecem – histórias do Clube da Esquina (Geração Editorial, 1996), de Márcio Borges, não há mais do que relatos com as mesmas palavras que utilizaríamos em uma conversa: mas como é bom estar nessa mesa até mais tarde, nas ruas de Belo Horizonte. Mostra-se, e esta é uma das potências da literatura, como outras pessoas somaram instantes e se tornaram inteligíveis para si mesmas. “Somos a nossa narrativa” – diz o francês Paul Ricoeur, e isto praticam prosadores & contadores, em diversas estruturas. Na crônica “Encontros & Desencontros” de Cury, há um trecho em que ele resume: “Muitas pessoas que leem alguns textos que escrevo me perguntam em que escritor eu me espelho. Na hora, nunca sei o que responder, pois acredito que muito do meu estilo de escrever vem das minhas amizades, e não somente dos meus livros. Tenho amigos que são os melhores contadores de histórias do mundo”.

Para Colorir, como as salas de aula ou botecos ou pátios, ou Os Sonhos não envelhecem, ou tantos outros livros que nos passam despretensiosamente, são espaços de ouvirmos histórias, para que ao mesmo as celebremos e com elas nos escutemos. É uma qualidade que podemos guardar em nossa bolsa de fazedores de contos ou de narrativas de si mesmos, junto com outras que achemos pelas esquinas e talvez não se encontrem aqui. Como o próprio autor cita no desfecho do livro, com as palavras de Sartre, “para o acontecimento mais banal se tornar uma aventura, só é preciso começar a conta-lo”. Era uma vez, meus amigos, o mundo do extraordinário e da autoria que passeava entre os bosques até encontrar a nós, cada um e todos nós, onde se faz a sua morada.

(Saulo Dourado)

 


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