
Barra antes - Marques de Leão

Barra depois ( Marques de Leão)
O prefeito eleito declarou através da imprensa, que a Barra é um dos locais onde pretende realizar suas primeiras intervenções, implantando calçadas mais largas, área para cooper, sentido único na orla etc.
Vou daqui, desencavando meus alfarrábios digitais para contribuir com a iniciativa.
Bom lugar para começar visto que a Barra é frequentada por gente de todas as classes sociais para as mais diversas atividades e interesses, que vão além de residência, esportes, trabalho, serviços, banho de mar, turismo ou ainda de pessoas que vão alí simplesmente para ver o mar, surfar no barravento, aplaudir o por do sol do Farol ou do Porto, comer um acarajé, conversar sobre motos, jogar conversa com Sergio comendo a moela do habeas, a lambreta de Celi, o bolo de laranja de Dona Xícara, a pizza dos 4 Amici, etc, etc etc
Em 2007 quando Jan Gehl, escritor, arquiteto e catedrático de desenho urbano da escola Real Academia Dinamarquesa de Belas Artes, aceitou o meu convite para vir a Salvador proferir palestras, trouxe uma nova luz, para os auditórios superlotados de interessados nos sistemas urbanos incluindo os estudantes de Arquitetura.
Gehl, cuja maior preocupação é dar vida as ruas e centrar a preocupação nas pessoas ( e não nos carros), nos ensina em seu livro “La Humanización del Espacio Urbano”;
“A vida da rua se reduz drasticamente quando as estabelecimentos pequenos e atrativos são substituídos por grandes. Em muitos locais, se pode ver como a vida nas ruas tem diminuído radicalmente quando postos de gasolina, concessionárias de veículos, praças de estacionamentos, tem criado espaços vazios no tecido da cidade, ou quando se transferem para alí, peças passivas como escritórios e bancos.
Pelo contrário, existem exemplos de desenho cuidadoso em locais em que não se aceitam os espaços vazios, e onde as peças grandes estão situadas atrás ou em cima das pequenas. Só as entradas a todas as funções e atividades mais interessantes ocupam espaços nas fachadas. Em princípio fica evidente, por exemplo, nos cinemas , onde só se colocam na rua a entrada com seus anúncios, enquanto que a sala propriamente dita está bem escondida em algum lugar atrás. Esta deveria ser a solução habitual quando se fosse implantar instituições bancárias ou de escritórios nas ruas das cidades”.
Reforçando vamos ver o que nos diz Jane Jacobs em seu clássico livro- Morte e vida das grandes cidades:
“Atualmente, todos os que prezam as cidades são incomodados com os automóveis.
As artérias viárias, junto com estacionamentos, postos de gasolina e drive-ins, são instrumentos de destruição urbana poderosos e persistentes. Para lhes dar lugar, as ruas são destruídas e transformadas em espaços imprecisos, sem sentido e vazios para qualquer pessoa a pé…..
É questionável que parcela da destruição provocada pelos automóveis nas cidades deve-se realmente às necessidades de transporte e trânsito e que parcela deve-se ao puro descaso com outras necessidades, funções e usos urbanos. Como os planejadores urbanos que não conseguem pensar em outra coisa que não projetos de renovação, porque desconhecem quaisquier outros princípios respeitáveis de organização urbana, da mesma maneira os construtores de vias públicas, os engenheiros de tráfego e, mais uma vez, os urbanistas não conseguem pensar no que realmente podem fazer, dia a dia, a não ser solucionar congestionamentos quando acontecem e aplicar a previsão que tiverem a mão sobre como movimentar e estocar mais carros no futuro”
Então, de acordo com o que dizem os mestres a recuperação urbana passa, além de um bom projeto, pela revisão da suas políticas de uso e de ocupação do solo urbano.
Vejamos o (contra) exemplo da orla da Barra. Um percurso menor do que 500m entre o Farol e o Barra Center na Avenida Oceânica e Marques de Leão podemos contar os seguintes bancos ocupando grandes extensões das ruas, senão quadras inteiras.
São eles: Itaú, Caixa Econômica, Citibank, Santander e Bradesco, sendo que um deles está de costas para a orla. Tem ainda um centro de distribuição dos correios, igualmente de costas, com o agravente de ser um órgão de funcionamento interno. Tem também um estacionamento além de grandes escritórios e imobiliárias. Postos de gasolina temos 2, sendo um no Farol (por acaso alguém acha que este é um lugar adequado para posto de gasolina ????) e outro no cruzamento da Marques de Caravelas com M. de Leão.
Se Jacobs estiver certa temos aí vários “instrumentos de destruição urbana poderosos e persistentes”.
Quem tiver dúvida de que a teoria de Jane relamente funciona, é fácil de comprovar.
Dê uma caminhada de 500 m, após as 18 horas saindo do Farol em direção ao Barra Center pela Marques de Leão e voltando pela Oceânica.
Na metade do trecho, ou seja nos primeiros 250m, a profusão de bares e restaurantes, residências e pequenos comércios, apesar da desorganização, nos dão a impressão de rua viva e animada onde vemos muitas pessoas se apropriando dos espaços públicos. A partir daí, o isolamento é total. Como aqui se diz: dá mêdo. Rua deserta, morta, cujas atividades dos bancos e escritórios foram fechados, após as 17 ou 18 horas.
Nada contra estas atividades, mas as perguntas são: o que faz um centro de distribuição dos Correios na orla da Barra?
E a área (morta) do estacionamento onde uma vez por ano são armadas as traquitanas do carnaval de Daniela Mercury que infernizam os vizinhos durante as montagens e desmontagens? Será que precisa ficar assim mesmo?
Será que os Correios, a Caixa e o Itaú, que financiam um monte de projetos, não poderiam abrir mão de grande parte dos seus térreos para alí implantar, pelo menos, os seus centros culturais?
Então além de mudanças no trânsito e na revisão do sistema de transportes da Barra, desestimulando o tráfego de passagem , é preciso que o novo Prefeito, que vem com todo o gás, tome conta do uso das ruas para que o seu projeto tenha pleno êxito.
Pra esquentar a conversa seguem abaixo, outros exemplos de intervenções que propomos para algumas áreas da cidade seguindo os conselhos do mestre Jan Gehl.

Comércio antes

Comércio depois, com integração da praça com a Associação Comercial

Baixa dos Sapateiros antes

Baixa dos Sapateiros para pessoas
É isso aí gente.
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