Piu bate recordes e escreve seu nome na história do atletismo
Recordista mundial, tricampeão da Diamond League e vencedor do Ultimate Championship, Alison dos Santos faz de 2026 o melhor capítulo de sua carreira

Há temporadas que produzem títulos. Outras produzem recordes. Algumas, mais raras, conseguem fazer as duas coisas ao mesmo tempo e ainda alterar a hierarquia de uma modalidade. A temporada de 2026 de Alison dos Santos, o Piu, pertence a essa última categoria.

Aos 26 anos, o brasileiro não apenas conquistou pela terceira vez a Diamond League nos 400 metros com barreiras. Ele tomou de Karsten Warholm o recorde mundial da prova, tornou-se o primeiro brasileiro a estabelecer a melhor marca em uma prova de pista do atletismo e, como se não bastasse, encerrou o calendário internacional vencendo o World Athletics Ultimate Championship, em Budapeste, diante de dois dos maiores nomes da história da especialidade.
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É uma sequência que permite olhar para Piu de uma maneira diferente. O brasileiro já não está apenas entre os grandes da geração que transformou os 400 metros com barreiras em uma das provas mais espetaculares do atletismo. Ele passou a ocupar o lugar que até pouco tempo atrás pertencia aos seus principais adversários: o de homem a ser batido.
A cena que simboliza a temporada aconteceu em 27 de agosto, no estádio Letzigrund, em Zurique. Piu entrou na pista para mais um capítulo da rivalidade com Warholm. O norueguês havia estabelecido em Tokyo-2021 o recorde mundial de 45s94, numa final olímpica histórica que também teve o americano Rai Benjamin abaixo da então melhor marca mundial. Cinco anos depois, o brasileiro fez algo que parecia reservado a pouquíssimos atletas: correu ainda mais rápido: 45s80. Foram 14 centésimos de segundo retirados do recorde de Warholm.
Piu abriu vantagem progressivamente e cruzou a linha de chegada sozinho, enquanto o norueguês terminou em segundo, com 46s69. O nigeriano Ezequiel Nathaniel foi o terceiro, com 47s50.
Dez anos, quase dez segundos
Talvez a melhor maneira de dimensionar o que Alison dos Santos construiu seja olhar para trás. Em 22 de maio de 2016, ainda no começo da trajetória, ele correu os 400 metros com barreiras em 55s32, em São Bernardo do Campo. No ano seguinte, baixou para 53s82. Em 2018, já no Mundial Sub-20 de Tampere, chegou a 49s78, marca que lhe rendeu a medalha de bronze. Em 2019, a evolução continuou: 48s28, no Mundial de Doha.
Então veio a explosão internacional. Nos Jogos Olímpicos de Tokyo, em 2021, Piu correu 46s72, conquistou a medalha de bronze e estabeleceu o então recorde sul-americano. Um ano depois, no Mundial de Eugene, baixou para 46s29 e conquistou o título mundial.
A sequência teve uma interrupção em 2023. Depois de já ter entrado definitivamente no grupo dos melhores do mundo, Alison dos Santos terminou aquele ano com 47s38 como melhor marca da temporada. A queda não representava o fim da evolução, mas um intervalo provocado também por uma grave lesão no joelho que o afastou por cinco meses.
O retorno foi rápido. Em 2024, voltou a correr abaixo dos 47 segundos, com 46s63. Em 2025, fez 46s65. E então chegou 2026 com os 45s80. Em dez anos, Piu reduziu sua melhor marca em 9s52. É uma evolução cronológica que ajuda a explicar por que o recorde mundial não pode ser tratado como um acidente de uma noite extraordinária. Ele é o ponto culminante de uma trajetória de aperfeiçoamento quase contínuo.
Piu também ficou mais rápido sem barreiras
A evolução de Alison dos Santos não está restrita à sua especialidade. Em 2026, ele também estabeleceu marcas pessoais expressivas nos 400 metros rasos e nos 300 metros com barreiras. Nos 400m, chegou a 44s38, em Gainesville, nos Estados Unidos. Nos 300m com barreiras, marcou 33s01, em Shaoxing / Keqiao, na China. Nos 400m rasos, ainda venceu o Troféu Brasil com 44s60, estabelecendo o recorde da competição. Foi seu primeiro ouro individual na história do Troféu Brasil. Essas marcas não são apenas curiosidades estatísticas e ajudam a compreender uma das mudanças na preparação de Piu.
O brasileiro passou a correr a primeira metade dos 400m com barreiras de maneira mais agressiva, sem abrir mão da capacidade de acelerar nos metros finais. Segundo analistas da prova, essa alteração estratégica foi um dos fatores que contribuíram para sua evolução recente. Em outras palavras: Piu não ficou apenas mais eficiente entre as barreiras. Ele ficou mais rápido como corredor.
Uma temporada que praticamente não deixou brechas
O recorde de Zurique poderia ser o ponto alto suficiente para qualquer temporada. Mas, em 2026, ele foi apenas uma parte de uma campanha extraordinária. Piu venceu as etapas da Diamond League que disputou nos 400m com barreiras em Xiamen, Estocolmo, Oslo, Silésia, Zurique e Bruxelas. Na China, também venceu os 300m com barreiras, com 33s01.
Na etapa de Bruxelas, em 5 de setembro, venceu novamente os 400m com barreiras, com 46s70, estabeleceu o recorde da competição, que permanecia desde 1986, e garantiu seu terceiro título da Diamond League, repetindo os feitos de 2022 e 2024.
A temporada ainda teria outro capítulo. No World Athletics Ultimate Championship, em Budapeste, no dia 13 de setembro, Alison dos Santos voltou a enfrentar Rai Benjamin e Karsten Warholm. E venceu novamente. Desta vez, com 45s98, a terceira melhor marca da história da prova. Benjamin foi segundo, com 46s40, e Warholm terminou em terceiro, com 46s78. Ou seja: depois de tomar o recorde mundial de Warholm, Piu voltou a derrotar os dois integrantes do chamado “Big Three” dos 400m com barreiras. A temporada terminou com o brasileiro não apenas como recordista mundial, mas também como campeão da Diamond League e campeão do Ultimate Championship.
A rivalidade mudou de lado
Durante boa parte dos últimos anos, a história dos 400 metros com barreiras foi contada a partir de três nomes: Warholm, Benjamin e Alison dos Santos. Os três estabeleceram uma espécie de domínio coletivo sobre a prova e são responsáveis pelas 34 melhores marcas da história dos 400m com barreiras: 14 de Warholm, 11 de Benjamin e nove de Alison dos Santos. O dado mais impressionante é que quatro das nove marcas de Piu foram obtidas somente em 2026.
Isso ajuda a explicar a mudança: Warholm continua sendo um dos maiores atletas da história da prova. Benjamin continua sendo campeão olímpico e mundial e uma ameaça permanente. Mas Piu é, neste momento, aquele que possui o recorde mundial e vem apresentando a evolução mais consistente entre os três.
Há ainda a questão da idade. Alison dos Santos tem 26 anos, enquanto Benjamin tem 29 e Warholm, 30. Não significa antecipar o resultado de Los Angeles, porque dois anos no esporte de alto rendimento podem mudar muita coisa, mas reconhecer o ponto de partida do novo ciclo olímpico: Piu chega a Los Angeles como o recordista mundial e como o principal nome da prova no início do caminho para 2028.
O Brasil volta ao topo do mundo
O recorde de Alison dos Santos também ultrapassa a dimensão individual. Foram 28 anos de espera desde que um brasileiro havia sido, pela última vez, dono da melhor marca mundial do atletismo. O último havia sido Ronaldo da Costa, que em 1998 correu a Maratona de Berlim em 2h06min05s, superando a marca anterior de 2h06min50s, pertencente ao etíope Belayneh Dinsamo.
Antes de Ronaldo, a história brasileira dos recordes mundiais havia sido construída principalmente no salto triplo. Adhemar Ferreira da Silva foi recordista mundial em cinco ocasiões entre 1950 e 1955. Nelson Prudêncio também alcançou a melhor marca do mundo, em 1968, nos Jogos Olímpicos da Cidade do México. Em 1975, João Carlos de Oliveira, o João do Pulo, estabeleceu o recorde mundial com 17,89m no salto triplo.
Piu agora acrescenta um capítulo completamente diferente: pela primeira vez, um brasileiro estabeleceu o recorde mundial em uma prova de pista do atletismo.
O Brasil já produziu campeões olímpicos, campeões mundiais e atletas capazes de estabelecer marcas extraordinárias. Mas Alison dos Santos conseguiu reunir três elementos que raramente aparecem juntos: longevidade competitiva, evolução cronológica e domínio sobre uma geração de adversários excepcionais. Aos 26 anos, ele não chega ao próximo ciclo olímpico tentando descobrir até onde pode ir. Ele já sabe que é capaz de chegar ao topo e, agora, o desafio é permanecer lá.
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