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Coluna ValoRH: Regras e Exceções

Especialista analisou a cordialidade e hospitalidade do povo brasileiro durante a Copa

Redação iBahia (redacao@portalibahia.com.br)
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De volta ao que deveríamos considerar nossa rotina normal, ainda repercutem alguns aspectos relacionados à decantada cordialidade e hospitalidade do povo brasileiro, ímpar entre os povos deste planeta. Sem dúvida, foi o espírito acolhedor do povo brasileiro que ajudou a projetar a imagem positiva que o recente evento ajudou a retumbar. Mais uma vez, reforçamos e difundimos esta positividade, ou será que esta cordialidade foi apenas um suspiro entre-copas ?


Se a cordialidade é uma marca, salta aos olhos que a pouca afeição às regras também é uma faceta marcante do brasileiro. E das empresas brasileiras também. Talvez seja algo que esteja entranhado em nossa cultura desde o início da formação de um país que nunca foi projetado, mas que teima em estampar na bandeira um lema que mais parece um apelo. O mesmo povo que entoa o hino como cântico de clube e louva a bandeira com a mesma paixão da bandeira de seu clube de futebol, não parece de fato acreditar no que canta e louva. Ordem e Progresso? O que é necessário para haver progresso então ? Pelo visto, os fundadores da República acreditavam que a Ordem antecede o Progresso. Se inferirmos um pouco mais, muitos acreditam que para haver ordem é preciso também obediência às regras.


Não é preciso circular muito por aí para verificarmos que a desobediência às regras parece ser de fato uma constante de nosso povo. Uma estatística baseada em percepção somente, nos leva a crer que motoristas de SUV´s brancas são os maiores transgressores das regras de trânsito. É apenas uma percepção, que talvez mereça maiores estudos, mas parece revelar que a desobediência às regras parte primeiramente dos mais abastados, que sentem-se acima do bem e do mal.


O noticiário, se analisado com mais atenção, parece reverberar esta adoração à quebra de regras. Uma delas, diz respeito ao “sagrado direito de se manifestar”. Contudo, muitos comentaristas e jornalistas, abalizados até, parecem desconhecer que em países socialmente mais desenvolvidos do que nós há regras para tudo, inclusive o “direito de se manifestar”. Experimente-se pixar o Palácio de Buckingham, o capitólio ou Obelisco de Washington para conhecer a brutalidade da polícia inglesa e o poder de fogo das armas dos policiais americanos...


Regras existem por vários motivos, mas um dos principais objetivos é a garantia do bem-estar da coletividade prioritariamente sobre o indivíduo, mas também garantindo que o indivíduo não seja oprimido pela maioria. Existem para garantir um balanço, um equilíbrio entre os interesses coletivos e individuais, de pequenos grupos, das minorias, mas também da sociedade. Regras existem para que os sistemas fluam mais rapidamente em benefício da sociedade, que a produção das empresas seja eficiente, que o sistema de transporte flua e que os aviões não caiam, e não para garantir privilégios de indivíduos ou pequenos grupos de indivíduos.


Quando um pequeno grupo fecha uma rodovia, ou interrompe o funcionamento normal de uma cidade,

seus interesses estão prevalecendo sobre o da maioria. Causa até um certo espanto a defesa do ato de alguns intelectuais que entendem não haver regras quando se trada de jogar bombas em policiais. Ora, o que são policiais ?  Abstraindo-se a má fama da polícia, devemos acreditar que são profissionais remunerados que exercem uma função com um grau mais elevado de perigo e tensão para fornecer segurança para a toda sociedade. Muitos são pais de família, e dependem desta profissão para sustentar suas famílias, somente isto.


Ao se abolirem as regras que garantem a integridade destes profissionais – vejamos assim por ora, ou seja, que tornam aceitável jogar uma bomba em um profissional que está somente trabalhando, estamos desumanizando aquele profissional. Ele deixa de ser uma pessoa e passa a ser um “objeto de destruição”. Em uma sociedade que despreza as regras, passamos a quebrá-las seletivamente. Enfim, “algumas regras merecem ser mantidas”, no entanto, “outras não”. Com isto, estão abolidas todas as regras, dado que agora cada um pode decidir que regra seguir ou não. Live arbítrio, arbitragem e julgamento.


Regras podem ser mudadas, claro. Principalmente nas empresas, é preciso que haja uma certa flexibilidade para se perceber quando os procedimentos não estão funcionando e proceder as modificações necessárias. A questão é quem decide a mudança. Nas empresas costumamos ser mais cautelosos, principalmente naquelas que possuem auditorias de processos. Mas o mesmo não acontece na vida em sociedade. Esta desobediência e sistemática quebra de regras que se espalhou entre nós possui um potencial de contaminação muito grande.


Crianças podem ser levadas a crer que as regras boas são aquelas com as quais elas concordam, as outras não. Leve-se isto para o ambiente escolar e os estudantes acreditarão que devem ser aprovados sem estudar. Aliás, implementamos um sistema que tem ajudado a cultivar mais esta crença. Em um ambiente empresarial, hospitalar, o resultado será a desordem, acidentes de trabalho e mortes na sala de emergência. Nas rodovias milhares morrem por ano única e exclusivamente em decorrência do desrespeito a regras e normas básicas de segurança.


Grupos de invasores agora são levados a crer que se organizando para invadir projetos habitacionais lhes será garantido um lugar à frente daqueles que simplesmente confiaram nas regras. Invadir, quebrar, depredar tem gerado recompensas. Evidentemente, este princípio acaba se espalhando pela sociedade. Os governos parecem ser os primeiros a atender aos chamados da desordem, talvez porque pareça “democrático” ou demonstre sensibilidade social, quando na verdade atendem apenas interesses eleitoreiros imediatos.


Então, para que regras ? Por que acreditar nelas ? No âmbito empresarial, na sua casa ou no seu trabalho, não custa crer que manter regras sensatas, bem descritas e compreendidas pode constituir um excelente instrumento de defesa contra a confusão do momento. No longo prazo, a obediência às regras sempre acaba gerando eficiência, satisfação e efetividade. Trata-se de um investimento, acreditar que alguns sacrifícios pessoais rendem um resultado geral tão grande que compensa qualquer sacrifício. Lembram daqueles japoneses que recolheram todo o lixo que haviam deixado no Estádio ? Porque fizeram isto ? Alguém se preocupou em entender qual era o benefício que eles buscavam ? A uma sociedade sem regras está reservada apenas a Desordem e Retrocesso. Troque-se o lema da bandeira...





Sérgio Sampaio
E-mail: valorh@valorrh.com.br
Consultor de TI da ValoRH. Engenheiro, empresário da área de Tecnologia da Informação, proprietário da IP10 Tecnologia.