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Coluna ValoRH: Você merece o que ganha?

Maioria dos brasileiros acha que mereceria ganhar muito mais e não está de forma alguma satisfeita com sua renda

Redação iBahia (redacao@portalibahia.com.br)
- Atualizada em


É bastante provável que a grande maioria entre nós, se não a totalidade, responda negativamente a esta pergunta. Com a exceção de alguns poucos felizardos, devidamente bem remunerados, a resposta para esta pergunta será provavelmente e quase sempre negativa. Convenhamos, a imensa maioria dos brasileiros acha que mereceria ganhar muito mais e não está de forma alguma satisfeita com sua renda.


Contudo, seria preciso identificar o que separa o merecimento da satisfação. Afinal, você pode não estar satisfeito com o seu salário e ainda assim merecer o que recebe. De outra forma, também precisamos contextualizar este questionamento, visto que os vencimentos para uma mesma função e desempenho variam de empresa para empresa e também geograficamente.



A avalanche de greves que vivenciamos nos tempos atuais, pós-democracia, as passeatas e protestos nos fazem crer que praticamente nenhuma categoria profissional é bem remunerada, ou está satisfeita com o que ganha e parece que vivenciamos no momento atual uma escalada de protestos, greves e clamores pela “dignidade” do salário que atingem todas as categorias, de alto a baixo.


Já para o profissional liberal ou para aqueles que se arriscam na atividade empresarial, ainda que como pequenos empresários, esta questão não faz muito sentido. Afinal, ganha-se o que sua “carteira de clientes” está disposta a pagar e pode pagar. Um médico de renome certamente estará satisfeito se puder cobrar R$ 400,00 por uma consulta e o seu consultório estiver com a agenda permanentemente lotada. Já aqueles que dependem do pagamento vinculado à seguradora do plano de saúde, nem tanto. A diferença entre um e outro poderá muitas vezes estar ligada tão somente ao tipo de clientela – mais abastada, ou popular, o que irá definir os seus ganhos definitivamente, mais do que a competência, propriamente dita.


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Em outras carreiras, é isto que define o quanto professores, engenheiros e outros profissionais irão ganhar, o que muitas vezes estará ligado ao prestígio da instituição para a qual trabalha. Em outras palavras, o salário que você recebe em geral é muito mais uma função da clientela do seu empregador do que a qualidade do seu trabalho.  Se você presta serviço direta ou indiretamente para uma clientela mais abastada, sua remuneração será função desta clientela. Afinal, um elegante e prestativo garçom irá receber uma renda proporcional ao estabelecimento para o qual trabalha. Se o contexto é o boteco ou um restaurante de luxo, não importam as capacitações, mas sim a clientela.


No setor privado, esta relação é mais diretamente obtida do que em outros setores, notadamente naquelas funções que exigem especialização. O fato é que a concorrência termina por impor margens de lucro limitadas e a disputa pelos melhores profissionais se dá na base do leilão. As melhores empresas oferecem mais, até o limite que sua margem de lucro permite. Sendo assim, a base para se estabelecer o quanto você merece ganhar pode ser obtida pela comparação com os salários pagos em instituições ou empresas que atuem de forma similar à sua empresa. Se fizer esta pesquisa, é muito provável que você descubra que não merece ganhar mais. A não ser que você acredite na sua competência superior e pleiteie uma vaga em uma empresa que atenda “clientes mais ricos”. Novamente aqui, quem define, ainda que indiretamente, o quanto você merece ganhar são os seus clientes ou os clientes de sua empresa.


Mas... e o setor público, justamente um daqueles que mais tem reclamado e tido sucesso em obter aumentos ? Como se define o cliente e o merecimento do salário auferido por quem lhe presta serviços ?


Bom, aqui a coisa deveria ser mais fácil, já que o cliente o servidor público é o povo, i.e, toda a população. O critério de renda do cliente neste caso pode ser definido, a grosso modo, como a renda média da população. Dito isto, com que "empresa" podemos realizar a comparação ? Dado que a qualidade e função relativa ao trabalho oferecido seja semelhante, podemos traçar comparações  com a renda auferida por profissionais equivalentes em outros países. Causa espanto que até hoje não se tenha discutido amplamente, e realizadas as devidas balizações, na relação renda da população versus qualidade de serviços versus salários auferidos pelos servidores aqui no Brasil em relação a outros países.


De toda forma, a grosso modo, poderíamos comparar funções exercidas no Brasil com aquelas exercidas nos Estados Unidos. Não seria razoável supor que o povo brasileiro disponha da mesma renda que o americano, o que nos leva a supor que alguma razão de proporcionalidade deveria existir. De forma geral, a renda média do americano situa-se em algo como 4 a 5 vezes vezes a do brasileiro. Esta regra de proporcionalidade, se aplicada aos salários pagos por funções equivalentes, lá e acolá, se realizada, suscitaria muitos questionamentos acerca do merecimento dos salários.


Afinal de contas, se o cliente não dispõe de muita renda, não podemos exigir dele que pague o mesmo valor de consulta que o cliente rico.  Não é o que ocorre no Brasil. E não sendo assim,  estamos nos deparando com graves distorções e desequilíbrios, em que os vencimentos são definidos não com base em merecimento e lógica, mas com poder de pressão. Mas não custa, portanto, realizar este exercício.


E se você quer mesmo saber se merece o que de fato ganha, comece realizando pesquisas e comparações, mas tendo o cuidado de comparar maçãs com maçãs e não alhos com bugalhos. E se suas pesquisas revelarem que você merece mesmo o pouco que ganha, servirá ao menos de consolo saber que infelizmente seus clientes não lhe podem pagar mais, e que nem sempre o que você ganha tem relação com a sua competência.





Sérgio Sampaio
E-mail: valorh@valorrh.com.br
Consultor de TI da ValoRH. Engenheiro, empresário da área de Tecnologia da Informação, proprietário da IP10 Tecnologia.