Literatura

Um passeio pela Biblioteca Central

Na semana em que a maior Biblioteca Pública do Estado comemora 200 anos, as repórteres Emília Oliveira e Marília Galvão desvendam seus espaços internos e o rico acervo de obras

Emília Oliveira e Marília Galvão (emilia.oliveira@redebahia.com.br/ marília.galvao@redebahia.com.br)
- Atualizada em
Biblioteca Pública do Estado da Bahia completa 200 anos

Eram três da tarde quando pisamos na Biblioteca Pública do Estado da Bahia, mais conhecida como Biblioteca dos Barris. Eu, pela primeira vez, Marília, minha colega de redação, velha conhecida dos espaços. Duas visões distintas, mas apaixonadas por leitura. Quem nos recebeu foi um simpático funcionário do lugar. Edwin Neves, do núcleo Biblioteca Viva, era o responsável por nos transportar para o universo da literatura - e o fez com maestria. Exploramos cada cantinho desse prédio que há 41 anos abriga o acervo da primeira biblioteca pública do Brasil, que completa 200 anos, nesta quinta-feira, dia 4 de agosto.Leia mais!
Biblioteca Pública do Estado da Bahia comemora Bicentenário com programação especialA Biblioteca é uma imensidão, cheia de setores, salas, espaços e corredores sem fim. Começamos nosso passeio pelo terceiro andar. E o primeiro espaço que visitamos foi o setor de "Documentação Baiana". A bibliotecária Jaci Silva mostrou livros e revistas de autores baianos - muito bem catalogados -, além do belíssimo e recente acervo de literatura de cordel e xilogravura. Tivemos um grato encontro com Jorge Amado, João Ubaldo Ribeiro e Bule Bule. Obras de todos eles reunidas em uma só sala. Logo ao lado, o "Memorial Waldeloir Rego" com um rico acervo de 15 mil títulos, em diversas línguas, com temas ligados ao negro e à cultura africana.


Ainda do terceiro andar, seguimos para o setor de "Artes". Sala pequena, mas repletas de livros sobre o assunto. Nosso "guia" Edwin nos explicou que o local era basicamente frequentado por estudantes e pesquisadores de artes plásticas. Foi lá que encontramos Luciana Alves, 29, estudante que faz parte de um projeto de pesquisa da Escola de Artes da UFBA sobre arte afro e indígena. Ela contou que era sua segunda visita à biblioteca: "É impressionante a riqueza de livros, revistas e obras raras que ficam disponíveis para o público baiano. Já encontrei 27 livros que falam do assunto que estou pesquisando".  Passamos ainda pelo setor de "Audiovisual", onde a bibliotecária Raquel Oliveira nos recebeu e mostrou vinis raros, fotos antigas, postais, CDs e DVDs variados. Uma verdadeira viagem no tempo.

O "quadrilátero" da biblioteca é um espaço usado para eventos e shows musicais

Mas, uma das melhores surpresas estava no segundo andar. No setor de "Obras Raras e Valiosas" ficamos como criança quando vê doce. A subgerente Célia Matos nos recebeu em sua sala e foi logo explicando como funcionava o setor. "Nada de pegar nos livros sem luvas. Nada de empréstimos. Nada de cópias". Seguimos para o espaço onde as obras ficavam guardadas. Alcatraz perde! Armários de vidro trancados à chave. Alguns com até três fechaduras. Mas não é para menos. O livro mais antigo é datado de 1531. Além dele pudemos contemplar um raríssimo exemplar de "A Dama de Espadas" todo feito em seda para o jornalista Odorico Tavares na década de 60. Tudo bem conservado e tratado com o maior carinho e cuidado. Nesse momento, orgulho de ser baiana.Em seguida, Edwin nos levou para dois dos setores mais frequentados da Biblioteca, no primeiro andar, o de jornais e o de revistas. Nas salas, o público pode consultar periódicos baianos e de outros estados, com assuntos gerais e especializados, Diários Oficiais do Estado da Bahia, da União, do Município e do Poder Judiciário. Entre os dois espaços, existe um setor onde encontram-se recortes de jornais catalogados por assunto. Muito útil para pesquisas e trabalhos escolares.

Os irmãos Edwin e Lourrana curtem o espaço infantil

Finalmente chegamos ao térreo - último andar da nossa expedição. Fomos direto para a sala infantil. Um encanto! Livros coloridos, revistas em quadrinhos, brinquedos. Um espaço colorido e lúdico, digno de qualquer criança. Lá, encontramos os irmãos Edwin Miranda, 10, e Lourrana Miranda, 8, que se divertiam com as obras infantis da biblioteca. Felizes, eles nem sabiam por onde começar a brincadeira cultural. O mais legal é que, enquanto os adultos fazem suas consultas nos outros espaços, os pequenos podem ficar na nesta sala com as bibliotecárias. Parte do acervo está em Braille, para que crianças com deficiência visual também possam desfrutar da literatura. "Temos, por exemplo, toda a coleção de Harry Potter em Braille", contou Rita Telles, responsável pelo local.E por falar em Braille, há também o setor especifico para deficientes visuais. Com um acervo rico, a sala recebe um público de todas as idades e formações. Silvana Macedo, 37, é deficiente visual e professora de História formada pela Universidade Católica de Salvador. Todos os dias ela vai a Biblioteca para estudar e  fazer trabalhos acadêmicos. "Aqui é um espaço onde aproveito para aprender mais sobre a minha profissão. É um espaço bacana, mas pouco utilizada pelo público, infelizmente", ressaltou. Além dos livros, o setor dispõe de computador especial, impressora Braille, espaço para eventos e voluntários que fazem leitura para os deficientes visuais.E no meio de tanto concreto, um espaço bastante charmoso. O "quadrilátero", como é conhecido, é repleto de árvores e plantas. Um verdadeiro convite "verde" ao ócio criativo. Edwin, nosso guia, nos contou que o local funciona como um agregador de público, onde são realizados alguns eventos da Biblioteca. São shows, espetáculos, leituras, exposições e tudo mais voltado a arte. Um deleite para os olhos!Fomos também ao "Espaço Livre do Leitor". Uma sala especial com mesas individuais e coletivas para os usuários estudarem com seu próprio material. Tinha gente estudando, conversando e até tirando uma soneca. Terminamos nossa maratona no "Centro Digital de Cidadania", onde o público tem acesso livre e gratuito à internet, por até meia hora. Ufa! O relógio marcava dezessete e trinta. Hora de ir. Nos despedimos de Edwin com a promessa de voltar. E com certeza voltarei! Seja sozinha, com noivo ou com os sobrinhos. A Biblioteca me conquistou. Seus espaços, seu acervo. Um verdadeiro labirinto cultural recheado de história e arte. Feliz é quem conhece e visita o prédio. Feliz é o baiano que tem um espaço desse ao seu inteiro dispor. Mas, depois de toda essa maratona, a única coisa que pensei foi: Que dor nos pés! Onde estava com a cabeça que não vim de tênis?Veja galeria de fotos da visita!

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