Salvador

Publicada em 03/03/2012 às 10h18. Atualizada em 03/03/2012 às 10h27

Acusado de mais de 20 mortes, traficante usa o terror para mandar no bairro da Saramandaia


O traficante comanda Saramandaia com mãos de ferro. Aterrorizada, a comunidade evita até falar o seu nome


Leo Barsan e Florence Perez
(mais@correio24horas.com.br)
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Diplomacia é uma palavra que não existe no vocabulário de Wallace de Oliveira Santos, o Ace, 22 anos. Em Saramandaia, localidade de Pernambués, o traficante governa a comunidade com mãos de ferro e seu nome mal pode ser pronunciado entre os moradores.

Com Ace é assim: briga de vizinhos, nada de polícia; se roubar na área, ele mata; e se ele invocar com alguma coisa, mata também. “O negócio dele é matar”, assegura o investigador José Guerreiro, chefe do setor de investigações da 11ª Delegacia de Polícia (Tancredo Neves).



Ao ditador, de acordo com a polícia, são atribuídos mais de 20 homicídios, além de tráfico de drogas e roubos. Esses dois últimos crimes já colocaram o bandido atrás das grades.

A soberania do criminoso leva tanto medo à comunidade, que ele é definido como presidente de Saramandaia, embora ele mesmo se declare repositor de mercadorias. “A presidenta manda no Brasil, mas em Saramandaia quem manda é Ace”, diz uma moradora, implorando para não ter o nome divulgado.

O mais recente ato criminoso do governo Ace, acredita a polícia, ocorreu domingo passado. De acordo com  testemunhas, eram 19h quando Ace e mais seis comparsas invadiram a mercearia do comerciante Luis Carlos Ribeiro, 33, e o executaram com mais de 30 tiros.

“A mercearia estava cheia. Eles (os criminosos) mandaram todo mundo se afastar, ficaram de frente para o comerciante e abriram fogo. Ninguém entendeu nada”, relata um morador, que também não quer ser identificado.

De acordo com a polícia, Luis Carlos pode ter sido morto porque fez recarga no celular de um presidiário inimigo de Ace, a pedido de um cliente. “As informações que temos é que o comerciante era uma pessoa de bem e trabalhador”, comenta Guerreiro.

Investigações
O crime, porém, é investigado pelo delegado Vinícius Moor, do Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP). Ele preferiu não comentar o caso para não atrapalhar as investigações.

Na terça-feira – dia do sepultamento do corpo de Luis Carlos –, conta a polícia, Ace e seus comparsas atacaram novamente a mercearia, além de arrombar a casa do comerciante, levando objetos. A mulher da vítima deixou a comunidade em um carro da polícia, temendo represálias.

Desde então, Ace não foi mais visto na comunidade. À polícia, o criminoso informou a Rua da Horta como endereço oficial. Encontrá-lo na sede, porém, é improvável. “A gente sabe que ele não saiu de lá (de Saramandaia), mas cada dia dorme em um lugar diferente. A comunidade tem medo de denunciar”, ressalta Guerreiro, lembrando o número do Disque-Denúncia:3235-0000.

Herança
Ace não reina sozinho em Saramandaia. Ele é uma espécie de ministro da gestão do traficante Cosme da Paixão Lisboa, o Coe, 26 , preso em janeiro de 2010. O líder maior, diz a polícia, continua dando ordens aos comparsas, mas embora respeite o chefe, além de comandar a localidade, Ace não abre mão de matar. “Com Coe na comunidade, ele ainda respeita e não mata. Mas agora não tem ninguém que segure ele lá”, expõe um outro morador. E se Coe mandar matar, acrescenta ele, aí Ace cumpre a ordem com gosto.

Pouco diplomático, Wallace extermina todos que lhe causam problema ou que o desagradam. “Se chamar ele de feio, ele mata. Se fizer algo que ele não gosta, ele mata. Se roubar aqui dentro, ele mata também. Só nos resta pedir a Deus para não cruzar o caminho dele”, diz assustada uma moradora.

Em setembro, Wallace e um comparsa conhecido como Leno mataram Marcos Paulo de Jesus, na travessa Sergipana, e balearam Robson de Jesus na avenida Hilda, em Pernambués, a mando de Coe.

Tatuagens
As vítimas, segundo a polícia, eram comparsas de Coe, mas estariam roubando na área do tráfico de drogas. As marcas de Wallace não param por aí. Nas costas, braço direito e barriga, as tatuagens de palhaço, caveira, anjo, carpa e flores revelam os crimes e a personalidade do bandido.


Os significados das tatuagens integram a Cartilha de Orientação Policial da Secretaria da Segurança Pública, elaborada por um tenente da Polícia Militar, autor de um estudo que já entrevistou mais de 15 mil detidos.

No calo de Ace, há quem ainda queira compartilhar o poder. Grupos rivais da rua Minas Gerais, sob o comando de traficantes conhecidos como Ronaldo e Pita, e da Baixa do Manú, chefiada por Babalú, vivem em conflito por causa da disputa de pontos de tráfico.

Preso, Coe também dá ordens
O maioral de Saramandaia, o traficante Cosme da Paixão Lisboa, o Coe, 26 anos, está preso desde janeiro de 2010. Ele é apontado como o líder do 1º Comando da Saramandaia e continua dando ordens aos comparsas. Coe foi preso durante uma operação da 1ª Companhia Independente da Polícia Militar.

Na época, o criminoso foi flagrado com uma sacola cheia de maconha e tentou fugir. O bandido invadiu uma casa e fez uma família refém. Para libertar as vítimas e se entregar à polícia, Coe exigiu a presença da imprensa. As negociações duraram três horas.

Ele ainda reagiu com tiros e, além da droga, os policiais apreenderam duas pistolas. Na comunidade, há quem torça para que o poder no bairro retorne para as mãos do líder, considerado assistencialista. “Precisamos de  Coe aqui na Saramandaia urgentemente. Quando faltava gás lá em casa, a gente pedia a ele”, diz um morador.  “Sem Coe, a Saramandaia pega fogo. Wallace oprime os moradores”, lamenta outro.

Logo após ele ser preso, chegou a circular no bairro um um abaixo-assinado para mostrar a vontade da população de que Coe deixasse a prisão. Tudo por medo da guerra pelo comando do tráfico.

Violência
já é rotina para comunidade

O medo já faz parte da rotina de quem vive em Saramandaia. A comunidade não tem a quem recorrer e está à mercê das leis do tráfico. “Wallace manda em tudo por aqui. Tráfico, comércio... Comanda a vida de todo mundo. A ordem é não chamar a polícia. Se tiver um problema para resolver, é ele quem toma a frente”, revela um morador.

O temor que todos sentem fez um pai entregar praticamente de bandeja a filha aos desejos do traficante. Moradores relatam que quando viu que a filha estava se envolvendo com Wallace, um senhor chegou a tirá-la da comunidade.

O traficante teria então ameaçado de morte o sogro se ele não a trouxesse de volta. Ele não teve escolha e a garota é a atual primeira- dama do bairro. Com o clima de terror instalado, a comunidade acha que o criminoso implacável está acima da lei. Ninguém acredita que alguém possa detê-lo.

Bairro tem 80 mil moradores e é bem localizado
Uma localidade com nome de novela. Em 1976, foi ar pela TV Globo a novela Saramandaia. Na tela, dois grupos brigavam por causa da mudança do nome do vilarejo baiano. De um lado, os tradicionais defendiam a conservação do nome original, Bole-Bole. De outro, os mudancistas alegavam sentir vergonha de dizer onde moravam. Lá, coisas estranhas aconteciam.

Um dos exemplos emblemáticos disso é o caso de Dona Redonda, personagem interpretada pela atriz Wilza Carla, que comeu tanto a ponto de explodir.
Tudo na ficção. A Saramandaia real, em Salvador, fica atrás do Detran e da rodoviária, perto de grandes shoppings. A localização permite aos moradores o acesso à praticamente toda a cidade, por meio do transporte público.

Cerca de 80 mil pessoas moram na comunidade, considerada carente. O comércio  reúne mercadinhos e lanchonetes, armarinhos e butiques, sorveterias.  Lá, coisas estranhas também acontecem: moradores vivem sob o domínio de facções criminosas.

Apesar da violência que aumenta na região, algumas entidades, como a Associação de Pais e Mestres de Saramandaia  se mobilizar para ocupar os jovens do bairro.





Tags: Criminoso, Traficante, Saramandaia, Wallace de Oliveira Santos, Ace
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