Brasil

Por trás da delação, JBS fatura R$ 170 bilhões

Empresa que começou como açougue em Goiânia cresceu com ajuda de política do BNDES; empresários querem levar negócio para fora do Brasil

Redação Correio 24h

A JBS, gigante por trás da delação que abalou a política e a economia nacional nos últimos dois dias e transformou o presidente Michel Temer (PMDB) em um dos investigados da Lava Jato, existe desde 1953. Mas foi somente nos últimos 11 anos que a receita líquida aumentou cerca de 40 vezes e transformou a JBS na maior processadora de proteína animal do mundo.

Foi graças a uma política do BNDES, durante os governos Lula e Dilma, que a empresa conseguiu aumentar o faturamento de R$ 40 mi, em 2006, para R$ 170 bi no em 2016.

A empresa surgiu há 64 anos como um pequeno açougue na cidade de Anápolis (GO), criada por José Batista Sobrinho. A venda de carne para as empreiteiras que trabalhavam na construção de Brasília fez a empresa crescer, mas foi a segunda geração da família - Joesley e Wesley Batista, os filhos de José Batista - a reponsável por levar a JBS ao patamar que ocupa hoje.

BNDES
As primeiras exportações de carne in natura aconteceram em 1997. Já a grande expansão do grupo ocorreu dez anos depois, em 2007, quando a empresa abriu o  capital, passou a se chamar JBS e deu início a um processo de internacionalização com o apoio do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).

A JBS foi uma das beneficiadas pela política de “campeões nacionais” do BNDES, que tinha como objetivo financiar a internacionalização de grupos brasileiros. Por meio da BNDESpar, o banco adquiriu parte da JBS.

Por conta de vantagens junto ao BNDES, a empresa teria depositado cerca de R$ 300 milhões, em propina devida ao PT, em uma conta secreta na Suíça, controlada por Joesley Batista, um dos delatores.

Uma rápida expansão internacional do grupo aconteceu em sequência, com a compra de outros vários gigantes do ramo de alimentos, como a Seara. Em 2014, a empresa se tornou a segunda maior do setor de alimentos do mundo, com um faturamento aproximado de R$ 120 bilhões. Em 2016, a receita líquida da JBS somou R$ 170,38 bilhões.

Um pouco antes, em 2012, os donos da JBS investiram na formação de uma holding, a J&F Investimentos, para atuar em outros segmentos. Além da JBS, a J&F controla a empresa de celulose Eldorado, o Banco Original, a empresa de laticínios Vigor e o Canal Rural.

Compra de dólares
A delação de Joesley Batista, além de aprofundar a crise no governo de Michel Temer, pode ter feito a JBS lucrar. Segundo O Globo, a empresa comprou um grande quantidade de dólares horas antes de a delação ser divulgada.

Anteontem, o dólar comercial fechou em alta de 1,23%, a R$ 3,134 na venda. Após o escândalo, o dólar disparou e chegou, ontem, a R$ 3,43. O empresário tenta levar o grupo para fora do Brasil - hoje, quasde 50% das vendas da JBS estão nos Estados Unidos.

Acordo de imunidade
Segundo fontes próximas a Joesley e Wesley Batista, os dois executivos não serão sequer denunciados criminalmente pelo Ministério Público Federal (MPF). O acordo fechado pelos irmãos garante imunidade total, o que significa que eles não serão presos, nem usarão tornozeleira eletrônica, como acontece com outros executivos de empresas investigadas pela Lava Jato - a JBS, inclusive, aparece em pelo menos cinco inquéritos. Eles poderão continuar no comando das empresas.

Em contrapartida, além das gravações que Joesley fez com o presidente Michel Temer e o senador Aécio Neves, eles terão de entregar todos os negócios ilegais feitos. A multa acertada pelo acordo de leniência foi de R$ 250 milhões, mas é possível que mude.

Em carta divulgada ontem, Joesley Batista, que está nos EUA com a esposa, a jornalista baiana Ticiana Villas Boas, admitiu o pagamento de propina a políticos: “Pedimos desculpas a todos os brasileiros”.

Procurador preso era ‘infiltrado’ de Joesley
Preso ontem de manhã por ordem do Supremo Tribunal Federal (STF), o procurador da República Ângelo Goulart Villela é apontado pelo Ministério Público Federal no Distrito Federal como um “infiltrado” de Joesley Batista, dono da JBS, para extrair informações da Operação Greenfield. Deflagrada em novembro passado pela Procuradoria da República no DF e pela Polícia Federal, a Greenfield investiga uma série de investimentos suspeitos feitos por fundos de investimento privados em conexão com fundos de pensão de servidores públicos.

Um dos casos envolve a Eldorado, um braço do grupo comandado pelos irmãos Joesley e Wesley Batista. Villela entrou na força-tarefa da Greenfield em março último, como um reforço à investigação. Desde o começo da participação de Villela na força-tarefa, os procuradores começaram a desconfiar do colega. Os investigadores perceberam que Villela trazia informações às reuniões da força-tarefa, em Brasília, que logo depois eram também repetidas por advogados do grupo de Joesley Batista.

A partir daí, os procuradores da Greenfield começaram a fazer testes com Villela, que culminaram com o pedido de ação controlada autorizada pelo STF a pedido do procurador-geral da República, Rodrigo Janot. Villela foi seguido e filmado com autorização judicial.

A investigação, segundo a Procuradoria no DF, confirmou que Villela repassava a Joesley as informações que eram discutidas entre os procuradores da Greenfield. Para isso, segundo Joesley, o procurador recebia R$ 50 mil mensais. Para Rodrigo Janot, a prisão de Villela “tem um gosto amargo para a instituição”.

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