Capitão América 2 РO Soldado Invernal

“Capit√£o Am√©rica 2 – O Soldado Invernal” se passa dois anos ap√≥s os eventos mostrados em “Os Vingadores“. Steve Rogers luta para cumprir seu papel no mundo moderno, em parceria com Natasha Romanoff e Sam Wilson, tamb√©m conhecidos como Vi√ļva Negra e Falc√£o, para derrotar um poderoso e misterioso inimigo na cidade de Washington dos dias atuais. [SINOPSE]

O Capit√£o Am√©rica n√£o √© um super-her√≥i f√°cil de se vender. Considerado muito americano (o que o torna menos atrativo num mercado internacional anti-americano) e “pouco” super-her√≥i¬†(al√©m do super-soldado virtuoso, n√£o voa nem tem outro super poder) comparado a seus colegas Vingadores. Funcionou no seu primeiro filme exatamente¬†por estar no habitat perfeito de um super-soldado, a segunda guerra mundial.¬†Mas, para uma aventura ambientada nos dias atuais, ainda mais ap√≥s os mega-eventos de “Os Vingadores,¬†o filme deveria se al√ßado a uma condi√ß√£o mais grandiosa. E foi.

A Marvel (Disney)¬†tem o total¬†controle criativo sobre Homem-de-Ferro, Thor, Hulk, Capit√£o Am√©rica e Vingadores. Ficam de fora¬†os filmes de personagens Marvel em outros est√ļdios, como s¬†franquias “X-Men” e “Quarteto Fant√°stico”¬†na Fox e o “Homem-Aranha” na Sony. Neste contexto,¬†as franquias-solo da Marvel (Disney) tem vida pr√≥pria, mas tamb√©m servem para costurar tramas que culminam na reuni√£o de seus super-her√≥is em “Vingadores”. Ap√≥s cada nova reuni√£o deste grupo inicia-se uma nova “fase” Marvel. E Capit√£o Am√©rica tem papel crucial nesta segunda fase que culminar√° com “Os Vingadores 2 – A Era de Ultron”, previsto para 2015.

√Č o melhor filme da Marvel at√© agora.¬†N√£o tem a a√ß√£o desenfreada de “Os Vingadores” nem a verve c√īmica de “O Homem-de-Ferro”, mas tem no equil√≠brio¬†das virtudes destes dois sucessos Marvel seu maior trunfo, transcendendo o g√™nero Super-Her√≥i, podendo at√©¬†ser classificado como um filme de espionagem, no melhor estilo anos 70.

A Marvel tenta fazer filmes que honrem seus HQs originais e agradem aos f√£s ao mesmo tempo que garantam divers√£o e (algum) entendimento a quem n√£o √© necessariamente f√£ dos quadrinhos. E consegue com maestria estas duas metas com “Capit√£o Am√©rica 2 – O Soldado Invernal”.


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Cine News – “No√©” registra a maior abertura do ano

Sucesso absoluto nos cinemas brasileiros, o filme No√© j√° se consolida como a maior abertura da hist√≥ria da Paramount Pictures no Brasil e a maior abertura de um filme de hist√≥ria original (n√£o franquia) no pa√≠s. O longa registrou p√ļblico de mais de 1,3 milh√£o no fim de semana de estreia, acumulando R$ 20 milh√Ķes de bilheteria. Dirigida por Darren Aronofsky e estrelada por Russell Crowe, a produ√ß√£o que chegou ao circuito no dia 3 de abril √© maior abertura do ano at√© o momento.


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Hype Cinematogr√°fico

Numa era cinematogr√°fica onde a avers√£o ao risco √© o move o mercado,¬†onde cada vez mais se faz apenas mais do mesmo (sequencias, refilmagens, reboots…),¬†”promover” um produto se torna crucial na engrenagem do sucesso. E isso vai muito al√©m do marketing convencional, no qual j√° se gasta mais 60% em rela√ß√£o ao custo de produ√ß√£o de um blockbuster. √Č preciso criar um “hype” (burburinho,¬†badala√ß√£o, frisson, expectativa, ansiedade)¬†em cima do filme.

O simples an√ļncio de pr√©-produ√ß√£o de filme j√° gera um rol de questionamentos na internet. Quem ser√° o diretor? E o elenco? Quem ser√° o vil√£o? Hashtags bombam e quase sempre o assunto √© al√ßado ao Trending Topics do Twitter. Quando a produ√ß√£o em si come√ßa, qualquer foto de bastidores ganha imediatamente¬†as manchetes. As not√≠cias continuam no modo conta-gotas, devagar mas sempre, at√© que, enfim, √© liberado o primeiro trailer. Ent√£o surgem tamb√©m os trailers-fake (falsos), estilo Lego e as an√°lises em cima do trailer! Frases famosas s√£o eternizadas antes mesmo do filme estrear, algo que normalmente aconteceria depois de anos de exibi√ß√£o do filme.¬†Para se ter uma id√©ia, o filme “Os Vingadores 2″ j√° foi assunto em, pelo menos, 30 Hyperdrives (inser√ß√Ķes di√°rias de not√≠cias) do site Omelete no seu¬†canal no YouTube.

No caso de “Capit√£o Am√©rica 2 – O Soldado Invernal” (que estr√©ia na pr√≥xima quinta-feira, 10 de abril) n√£o foi diferente. ¬†Numa pr√©-estr√©ia fechada, pude acompanhar dois desses cin√©filos fan√°ticos pelo universo Marvel,¬†que foram especialmente convidados para ocasi√£o justamente para ilustrar esse texto.¬†Will Le√£o, cartunista e (obviamente) f√£ de quadrinhos, curtia cada quadro de filme, interligando-os a grande teia que a Marvel est√° tecendo. Ele disse “foi um filme¬†para arrumar o meio-de-campo, para dar mais consist√™ncia ao Capit√£o Am√©rica”. ¬†Jos√© Cavalcante, designer e mestre do mundo Marvel, identificava cada¬†m√≠nimo detalhe que passava despercebido da maioria da audi√™ncia (inclusive eu!). F√£ de Thor e do Doutor Estranho, Jos√© elegeu “O Soldado Invernal” como um dos melhores filmes da Marvel at√© agora.

Tudo isso, feito (controlado) de forma correta, faz com que, geralmente, o filme obtenha uma estréia acima do esperado, o que não garante o sucesso em si, mas alavanca suas possibilidades.

Quinta-feira não chegou, mas os ingressos já estão sendo vendidos antecipadamente, então garanta logo seu lugar e espere só mais um pouquinho, eu sei que você aguenta!


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Cine Cult ‚Äď Ninfoman√≠aca Vol. 2

Cine Cult é uma seção escrita por Luiz Goulart

Escrevi recentemente sobre o volume 1 de Ninfoman√≠aca, do diretor dinamarqu√™s Lars Von Trier. Ali, eu comentava que qualquer an√°lise seria incompleta sem a estreia da parte 2. ¬†Dizia: ‚Äú√Č muito inc√īmodo falar a respeito de um filme que se assistiu at√© a metade. Como falar sobre a obra se ela n√£o est√° completa? √Č como ver um quadro semiacabado ou ler um livro at√© o meio. Qualquer coisa que se diga √© tamb√©m incompleta‚ÄĚ.

Pois agora, com a estreia da segunda parte, pode-se desnudar um pouco mais do véu que cobre (cobre?) esta obra cinematográfica e desvendar o que Trier já não mais esconde.

Menos que esconde, escancara, exp√Ķe, esfrega na face da plateia e certamente incomoda muita gente. A mim, s√≥ me faltou levar a testa at√© o ch√£o e render todas as honras √† coragem desse genial dinamarqu√™s. S√≥ n√£o aplaudi ao final por puro estupor e porque as camadas de interpreta√ß√£o iam caindo uma a uma, como uma s√©rie de fichas caindo em uma velha Junkie box.

Aqui √© preciso que se diga que a obra precisa ser vista completa para extrair dela o seu melhor. Dividida em duas partes, por raz√Ķes mercadol√≥gicas, n√£o ser√° devidamente fru√≠da sem a sua integridade, o que certamente evita preju√≠zos para quem analisa as duas partes separadas. N√£o √© que um volume √© melhor ou pior do que o outro. Eles s√£o, simplesmente, uma coisa s√≥.

Nesta segunda parte, vemos a continuação da história, mas isso não significa uma sequência linear, pois aqui encontraremos fatos anteriores aos vistos no volume 1. E somente no final é que entendemos como Joe (Charlotte Gainsbourg) foi parar totalmente arrebentada naquele beco de onde foi resgatada por Seligman, personagem de  Stellan Skarsgård.

Aqui descobrimos que Joe se casou e teve um filho com Jer√īme, personagem do excelente Shia LaBeouf. Consciente de que n√£o era capaz de satisfaz√™-la sexualmente, Jer√īme permite que Joe explore como quiser suas possibilidades er√≥ticas com outros homens. E isso, desculpe a analogia vulgar, √© praticamente como oferecer banana a um macaco: Joe cai literalmente na roda e se atira a uma espiral de sexo e pervers√Ķes.

Lars Von Trier chega ao requinte de aludir, neste filme, a uma famosa cena da sua pel√≠cula anterior: O Anticristo, em que a mesma Charlotte Gainsbourg, durante uma rela√ß√£o sexual, v√™, sem reagir, seu filhinho cair para a morte ao som da bel√≠ssima √°ria Lascia ch’io pianga. Estamos diante de um beb√™, como o beb√™ do filme anterior, descendo de um ber√ßo e dirigindo-se para a mesma neve que cai ao som da mesma can√ß√£o. O suspense √© ineg√°vel.

Uma surpreendente interpreta√ß√£o √© apresentada pelo ator Jamie Bell (o eternamente ador√°vel Billy Elliot) como um sombrio K, um mestre do sadismo que ‚Äútrata‚ÄĚ Joe como um saco de pancadas e ainda d√° a ela o nome de um cachorro. Ao receber dele 40 chibatadas, ela de fato supera o pr√≥prio Jesus Cristo, que aguentou 39.

O filme transita sobre analogias religiosas, discuss√Ķes sobre pecado, culpa e expia√ß√£o. Em um momento, quando Joe imagina ter tido a vis√£o da Virgem Maria durante um orgasmo na inf√Ęncia, acaba descobrindo que se tratava, na realidade, da imagem da imperatriz Messalina, conhecida como a maior ninfoman√≠aca da hist√≥ria, e para acompanha-la, na vis√£o, ningu√©m menos do que a imagem b√≠blica da Prostituta da Babil√īnia cavalgando uma besta.

E tome-lhe embate te√≥rico com in√ļmeras cenas da degrada√ß√£o brutal de Joe transformadas em met√°foras e analogias pelo intelectual Seligman: uma ninfoman√≠aca e um assexuado √© uma combina√ß√£o que n√£o d√° nenhuma liga. Dois extremos em busca de algum tipo de resgate. Ela, afirmando-se uma pessoa m√° e ele tentando, a todo custo, provar que ela n√£o √© m√° cois√≠ssima nenhuma e chegando a conjecturar se um homem, no lugar de Joe, sofreria as mesmas cr√≠ticas.

O diretor¬†toca o dedo direto na ferida da hipocrisia¬†quando¬†coloca na boca de Joe palavras consideradas politicamente incorretas como “negro” e “ninfoman√≠aca”. Em ambas as cenas, ela √© admoestada para substitu√≠-las por afrodescendente e viciada em sexo. Para Joe, quando algo atormenta a sociedade,¬†em vez de ela tratar o problema, enfrenta-lo, simplesmente suprime a palavra. Isso tem nome: hipocrisia.

E se qualquer um imagina que Lars Von Trier pretendia excitar algu√©m com esse festival de √≥rg√£os sexuais e taras pode se desapontar. Acho mesmo que ele deve estar at√© agora rindo dos incautos que esperavam extrair algum prazer f√≠sico. Posso dizer que nunca imaginei um m√©nage √† troir mais sem gra√ßa e mais chocho na minha vida. Estamos diante de uma jovem tarada e especialista em pervers√Ķes nas m√£os de dois jovens e fortes negros excepcionalmente bem dotados: um clich√™ do clich√™. Se dessa combina√ß√£o podia sair algum prazer, o anticl√≠max √© total. Ah, esse Trier n√£o vale nada!!!

Um filme de fato mais verborrágico do que erótico e nem por isso menos político. O final é puro Trier atirando um jato de inconveniente verdade, um tiro seco de luz no escuro e sujo coração da hipocrisia. Uma cena de inegável choque. Machistas, moralistas e hipócritas, tremei. Trier chegou para desorganizar o puteiro.


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Cine Humor – E Se Lars Von Trier Filmasse no Brasil?


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Cine Cult РNinfomaníaca

Cine Cult é uma seção escrita por Luiz Goulart

De uma coisa não se pode acusar o diretor Lars von Trier: ser um monstro do marketing! Seus filmes conseguem a proeza de gerar polêmica antes do primeiro ingresso ser vendido. A campanha de Ninfomaníaca foi coisa de gente grande. Há meses, circulam nas mídias as imagens dos atores simulando orgasmos nos cartazes. Uma jogada brilhante. Todos os jornais e cadernos de cultura de revistas e de TV falaram do assunto.

Sou f√£ de von Trier desde que assisti a Europa e n√£o perdi uma √ļnica das suas pel√≠culas: Ondas do Destino, Os Idiotas, Dan√ßando no Escuro, Dogville, Manderley, O Anticristo e Melancolia. Muitos deles me incomodaram, alguns me levaram a algum tipo de epifania, outros me revoltam, me levaram √†s l√°grimas. Jamais sa√≠ tranquilo de nenhum deles.

Ninfoman√≠aca est√° me incomodando at√© agora, dois dias depois de assistir a ele. Isso √© bom sinal. Um filme que fica atacando seus neur√īnios e girando em sua cabe√ßa, levantando camadas e mais camadas de interpreta√ß√£o, n√£o √© coisa √† toa.

Nenhuma an√°lise de Ninfoman√≠aca ser√° completa sem a estreia da parte 2. √Č muito inc√īmodo falar a respeito de um filme que se assistiu at√© a metade. Como falar sobre a obra se ela n√£o est√° completa? √Č como ver um quadro semiacabado ou ler um livro at√© o meio. Qualquer coisa que se diga √© tamb√©m incompleta.

Consciente de que esta √© uma avalia√ß√£o incompleta, preciso lembrar da fama de Lars Von Trier, conhecido pela sua extrema misoginia e por levar suas atrizes praticamente √† loucura. Foi assim com Nicole Kidman, Bjork, Emilly Watson e Bryce Dallas Howard. Algumas n√£o falam mais com ele. Nenhuma das suas ‚Äúhero√≠nas‚ÄĚ pode alegar que passou bons bocados, pois todas sofrem horrores nas suas pel√≠culas e nas suas m√£os. Finais felizes n√£o s√£o o forte desse dinamarqu√™s g√©lido. Mas nem por isso seus filmes s√£o menos deslumbrantes. H√° uma gota de masoquismo voyerista nos seus espectadores que faz um contraponto perfeito para seu sadismo exibicionista. S√£o como mestre e escravos, pois n√£o?

Não estou reclamando. Essa relação tem seus atrativos. Somente suas atrizes é que deram um basta. Bjork deixou as filmagens de Dançando no Escuro na metade, levando o diretor à beira da loucura. Mesmo ganhando a Palma de Ouro de melhor atriz em Cannes, Bjork declarou que nunca mais irá filmar na vida e que odeia o diretor. Eles não se falavam no set. Emilly Watson teve crises nervosas e Nicole Kidman se recusou a fazer a mesma personagem na continuação de Dogville.

Ent√£o estamos aqui diante da atriz Charlotte Gainsbourg que estreia o terceiro filme seguido do diretor. Qual a qu√≠mica que os une? Devemos lembrar que Charlotte √© filha da pira√ß√£o: o cantor Serge Gainsbourg e a atriz Jane Birkin s√£o seus pais. N√£o queria usar um adjetivo vulgar para descrever os dois, pois s√£o extremamente talentosos, mas esse pai e essa m√£e n√£o poderiam ter uma filha muito, digamos, ‚Äúnormal‚ÄĚ. Talentosa como os pais e quase t√£o louca quanto ambos. Da√≠ talvez d√™ para vislumbrar a din√Ęmica complexa da rela√ß√£o dela com o diretor von Trier.

O próprio nome do filme: Ninfomaníaca é uma provocação pois o termo equivalente para definir homens viciados em sexo, satiromaníacos, praticamente não tem uso, ao contrário da palavra ninfomaníaca que se tornou um termo corriqueiro.

Palavras são criadas para atender às necessidades do seu uso. Se uma palavra não existe ou é incomum é porque é quase desnecessária. Quem já ouviu falar no termo damismo, equivalente feminino a cavalheirismo? A linguagem tem um enorme poder de formar conceitos, mentalidades e sentido. Por isso, os grupos feministas sempre se recusaram a contribuir com a construção hierárquica linguística entre o masculino e o feminino. No momento em que construímos uma terminologia para classificar alguém, essa linguagem carrega um processo ideológico que preserva hegemonias.

No vocabul√°rio chulo, para ‚Äúqualificar‚ÄĚ os homens temos os termos: put√£o, miserav√£o, espada, cachorr√£o. Para as mulheres denominadas piriguetes s√£o sin√īnimos: pidona, galinha, fuleira e cachorra. Seguindo a assimetria que se encontra na base da linguagem, todas s√£o denomina√ß√Ķes usadas para ‚Äú(des)qualificar‚ÄĚ as mulheres. E piriguete se relaciona √† imagens de mulher f√°cil: a ninfoman√≠aca.

Assistindo às desventuras da personagem principal de Ninfomaníaca, vemos que o que ela tem é uma doença, uma patologia e isso não tem nada de bonito ou edificante. Uma coisa é a mulher considerar-se dona do seu próprio corpo, do seu desejo e trepar com quem quiser. Os homens já fazem isso há milênios. Outra coisa é a obsessão e o vício no sexo que leva alguém a fazer sexo com dez pessoas no mesmo dia. Isso não é nada bonito.

Ok, o cinema n√£o est√° aqui para mostrar coisas bonitas e louvo a coragem do diretor em ousar lan√ßar um filme impr√≥prio para menores de 18 anos num mundo de entretenimento em que os sucessos, ou seja, a grana, corre na medida em que os filmes procuram atingir um p√ļblico infanto-juvenil e aquele p√ļblico adulto tratado como adolescente. Quase toda a produ√ß√£o cinematogr√°fica mundial visa exatamente √† infantiliza√ß√£o das plateias e p√ļblicos com idades cronol√≥gicas ou mentais abaixo de 18 anos. Ent√£o, por isso, palmas para o diretor.

Lars von Trier almeja esgar√ßar as fronteiras entre o cinema e a pornografia, mas n√£o sou ing√™nuo e sei que ele quer incomodar mesmo que chegue pr√≥ximo demais daquela dita fronteira. Entretanto, ele √© esperto demais para n√£o cruzar essa linha t√™nue. Afinal, foi com sua concord√Ęncia que as cenas mais expl√≠citas foram cortadas da vers√£o para o cinema. A √≠ntegra, s√≥ quando chegar em dvd, o que deve vender como banana madura na feira.

Toda a dana√ß√£o de Joe (Charlotte) √© extremamente complexa, como diria o velho s√°bio de Viena, para quem a vida sexual das mulheres adultas constitu√≠a um ‚Äúcontinente obscuro‚ÄĚ. Afinal, perguntava o mesmo Freud, o que querem as mulheres? Essa √© a pergunta de um milh√£o de d√≥lares que at√© hoje n√£o teve resposta, pois mesmo o doktor Freud afirmou que √© uma quest√£o aberta at√© hoje, como aquelas abstratas quest√Ķes de matem√°tica pura que desafiam g√™nios h√° tempos sem resposta, como as Equa√ß√Ķes de Navier-Stokes (que valem mesmo U$1 milh√£o para quem descobrir a resposta).

A bel√≠ssima cena em que a atriz Uma Thurman leva os tr√™s filhos pequenos para conhecer a cama na qual o pai deles est√° transando com a amante √© uma das melhores que j√° vi. De uma intensidade dram√°tica e de uma tens√£o latente que fica mais impactante diante da frieza das seis pessoas que est√£o presenciando o espet√°culo grotesco. Uma chama de calor, amor e f√ļria perdida debatendo-se contra uma massa de gelo humano: a melhor cena do filme, na minha opini√£o.

Para Lars von Trier, o sexo em Joe é fruto de sofrimento, de pecado e de busca incessante do prazer. Ela se vê como uma pessoa má, que usa os homens para sua próprio gratificação e chega mesmo a ficar intensamente lubrificada ao ver o corpo do pai morto. A ideia de pecado permeia toda a sua obsessão.

√Č, no m√≠nimo interessante, lembrar um filme recente que aborda o mesmo tema, mas sob o ponto de vista masculino. Em Shame, com o excelente Michael Fassbender, estamos diante do mesmo caso de v√≠cio em sexo e em ambos os filmes os personagens, como acontece com viciados em geral, precisam se afastar de qualquer sinal de afeto para se dedicar √† impessoalidade do sexo compulsivo. Todas as energias s√£o voltadas para a realiza√ß√£o desse desejo sem freios que, em certo momento, come√ßa a exaurir as for√ßas do dependente at√© lev√°-lo a um fim tr√°gico, caso n√£o se submeta a um tratamento.

A diferen√ßa entre os filmes √© que o v√≠cio em sexo na mulher √© abordado de modo radicalmente diferente do mesmo v√≠cio em um homem. As semelhan√ßas param em um ponto e as diferen√ßas continuam. Na mulher tudo √© mais complexo, a culpa, o autodesprezo, a ideia de pecado, de n√£o atender √†s expectativas dos outros. H√° uma constela√ß√£o de vari√°veis que fazem lembrar o velho Freud e sua defini√ß√£o de ‚Äúcontinente obscuro‚ÄĚ.

O pior √© que talvez Lars von Trier esteja certo e as estripulias sexuais de Joe reflitam seu perigoso flerte com o dilema de Eros/T√Ęnatos, novamente relembrando a defini√ß√£o de Freud de Eros como a libido, o impulso vital, instinto prim√°rio de autoconserva√ß√£o e T√Ęnatos como a personifica√ß√£o m√≠tica da puls√£o de morte, impulso inconsciente que busca a pr√≥pria destrui√ß√£o. A religi√£o tem um papel crucial nesse dilema, mas pelo jeito o diretor n√£o adentrou ainda essa rela√ß√£o, quem sabe adiante.

Finalizo lembrando que essa √© somente a primeira parte do filme. Pode ser que venha coisa mais ousada pela frente, mas at√© aqui Ninfoman√≠aca oferece inc√īmodo, sombras, densidade, curiosidade e, apesar de todo o sexo exibido na tela, um certo fastio e nenhum erotismo de verdade. S√≥ o vislumbre da busca de sentido em um continente obscuro. Por isso tem gente deixando as salas quando percebe que, ap√≥s 38 falos fl√°cidos de todas as cores e tamanhos, n√£o est√° se excitando. Que homem safado e genial esse dinamarqu√™s!


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Need For Speed


Tobey Marshal (Aaron Paul, da s√©rie ‚ÄúBreaking Bad‚ÄĚ) √© um ex√≠mio piloto e volta e meia participa de rachas. Um dia, o ex-piloto da F√≥rmula Indy Dino Brewster (Dominic Cooper) o procura para que Tobey possa concluir um Mustang. Apesar das diverg√™ncias entre eles, Tobey aceita a proposta. O carro √© conclu√≠do e posteriormente vendido. Entretanto, a velha rixa entre eles faz com que disputem um √ļltimo racha, que conta ainda com a participa√ß√£o de Pete, grande amigo de Tobey. A corrida termina em trag√©dia devido ao falecimento de Pete. Considerado culpado pela morte, Tobey passa dois anos na pris√£o. Quando enfim √© solto, ele organiza um plano para que possa participar de uma conhecida corrida do submundo onde Dino tamb√©m correr√°.
[Sinopse]

O filme √© baseado no hom√īnimo videogame de grande sucesso, mas dele usa apenas o nome e algumas interfaces e modelos dos possantes carros, e √≥bvio, o tema, que s√£o os rachas automotivos. Como n√£o h√° uma est√≥ria a ser seguida, pois n√£o se baseia em nenhum game especificamente, o roteiro tem o caminho livre, evitando engessamento ao game, e deixando espa√ßo livre para uma nova mitologia.

Desde o simples an√ļncio da produ√ß√£o deste filme ele vinha sendo tratado como um mero sub-produto da franquia ‚ÄúVelozes e Furiosos‚ÄĚ. Realmente se assemelha ao primeiro Velozes, quando a franquia ainda tratava de pegas automotivos, e n√£o de bandidos e mocinhos de digladiando em carros turbinados, caminho para onde ela evoluiu com as sequ√™ncias.

O filme √© tecnicamente muito bem feito, os pegas s√£o de tirar o folego, com √Ęngulos e enquadramentos inusitados e trucagens que realmente d√£o sensa√ß√£o de velocidade. Entre uma troca de marcha e outra ainda conseguem arrumar espa√ßo para um romance, mas √© coisa passageira (kkk, n√£o aguentei o trocadilho). Um outro ponto muito positivo foi a verdadeira declara√ß√£o de amor aos carros e as corridas em si, em detrimento a apenas gadgets e exibicionismos dos pilotos, com refer√™ncias a filmes como ‚ÄúBullit‚ÄĚ (Steve McQueen), ‚ÄúCarros‚ÄĚ da Pixar, ‚ÄúEsquadr√£o Classe A‚ÄĚ (o al√≠vio c√īmico do filme) e uma piada do tipo ‚Äúvou-contar-antes-que-voc√™s-contem‚ÄĚ em rela√ß√£o a √≥bvia compara√ß√£o com a franquia-irm√£.

Estilo próprio, alta qualidade técnica e empatia fazem deste filme um digna adaptação cinematográfica de games, ao invés da mera cópia que imaginavam que fosse. E assim é criada a mais nova franquia. Aguardem muitas sequencias.


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Como Devia Ter Acabado – O Exterminador do Futuro


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Capitão América РO Soldado Invernal РOs primeiros 4 minutos de filme


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Humor – Thomas na Sala VIP


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