Nem Te Conto

'Perdi a virgindade num estupro', diz Mônica Martelli

Atriz falou sobre sua carreira e vida pessoal em uma entrevista exclusiva

Marina Caruso, de Agência O Globo

Um metro e 80 de altura. Sucesso profissional depois dos 35 anos. Primeira filha aos 41. Mônica Martelli — inclua-se aí a barriga sarada aos 50 — é uma mulher fora dos padrões. “Filha do meio problemática”, ela jurava que nunca daria certo. Mas viu o destino mudar quando escutou os conselhos da mãe e, em 2005, transformou os textos que escrevia sobre a própria solterice num fenômeno de bilheteria. Nascia “Os homens são de Marte... É pra lá que eu vou”, monólogo que, em poucos meses, trocou o pequenino Cândido Mendes por palcos maiores no Rio, em São Paulo e até em Lisboa.

Foto: Reprodução | Instagram

O sucesso foi tanto que, em 2014, Mônica e a irmã, a diretora Susana Garcia, criaram “Minha vida em Marte”, atualmente em cartaz no teatro Procópio Ferreira, na capital paulista. “Me mudei para a cidade em agosto e estou amando”, diz a fluminense de Macaé. A história chegará aos cinemas em duas semanas, bem no dia do Natal. E, assim como a primeira, tem todos os ingredientes para se transformar em blockbuster. “Tomara”, diz Mônica. “Ainda hoje sou muito insegura”.

No dia 25, estreia “Minha vida em Marte”. Está ansiosa?

Tenho medo que o filme não seja um sucesso tão grande quanto foi o primeiro (“Os homens são de marte... ” levou 2 milhões de pessoas ao cinema). Mas um medo saudável. Quanto mais sinto, melhor trabalho. Passei um ano escrevendo e quatro meses ensaiando oito horas por dia com a minha irmã (Susana Garcia). Tudo que está no filme tem motivo. Sou CDF. Touro com ascendente em virgem.

A Susana dirigiu suas peças, seu filmes e a série do GNT. Como é essa parceria?

Sem ela, não existo. Susana é inteligentíssima. Entrou em segundo lugar na Medicina da Uerj e dava aulas de medicina fetal, mas, como é casada com o Herson Capri (ator), convivia com a turma do teatro. Fez assistência de direção pro Edwin Luisi, ganhou prêmios e virou uma baita diretora. Eu escrevo, ela dirige. Ela, é a caçula, e o meu irmão mais velho, matemático. Sou a filha do meio, problemática (risos).

Essa mania de tirar sarro de si mesma é a chave do seu sucesso. Foi sempre assim?

O começo foi dificílimo. Achei que eu nunca fosse dar certo. Me formei em jornalismo e fui fazer teatro na Cal. Vivia de bicos. Em 2001, um produtor da Angélica me ligou: “Mônica tenho uma participação para você”. Era para fazer a cobra, a cobra!. Só que entra figurinista e fala: “A cobra caiu, vai virar tartaruga”. E aí, amor, vejo um casco de tartaruga gigantesco. Quando vesti a cabeça, minha orelha virou e eu não conseguia desvirar porque a pata de espuma não me permitia. Olhei pro meu amigo que fazia o pinguim e disse: “Vamos repensar a carreira”.

Como deslanchou?

Fiz oficina de atores da Globo e fui contratada para o “Chico total”, do Chico Anysio. Ganhava 800 reais, mas me sentia o máximo. Aí fiz a novela “Por amor”. Era secretária e passei oito meses falando “Dr. Arnaldo, dona Branca na linha C”. Só. Depois, desemprego.

E aí?

Aí tive a ideia de montar uma dupla sertaneja: Tex & Ana, um fracasso retumbante. Abri o show do Fábio Jr. e só ouvia: “Saí daí, baranga!”. Fiquei ferrada. Tinha mais de 30, toda errada, escrevendo sobre minha solterice prolongada. Não sabia o que fazer com aquilo.Era insegura. Ainda hoje sou muito insegura.

Como venceu isso?

Um dia, minha mãe disse: “Pega um caixote, vai pra praça e fala seu texto”. Caiu minha ficha. Morava num quarto e sala na Gávea, com o Jerry, pai da minha filha Julia (de 9 anos). Nosso custo de vida era baixo, e ele me apoiou. Fiquei um ano e meio escrevendo. A família fez um livro de ouro e eu estreei no Candido Mendes. Uma semana depois, a Bárbara Heliodora fez uma crítica maravilhosa, e o teatro lotou.

Como alguém que é tão insegura faz tanto sucesso?

Isso faz a pessoa buscar o melhor e protege da arrogância. A insegurança não me paralisa. Outra coisa: só consigo escrever depois que a ferida está curada. A peça “Minha vida em Marte” saiu cinco anos depois do divórcio. Na hora da separação, era muita dor. Não só a dor do cara que saiu de casa, mas do projeto que ruiu.

Você está de namorado novo?

Sim, há dois meses, mas ele é megadiscreto. Trabalha no mercado financeiro. É carioca e mora em São Paulo. Está assustado comigo. Tô até querendo fazer terapia de casal, acredita? Depois de uma certa idade, a gente tem que usar todos os recursos para cuidar do que é bom: parceria, química, tesão… Falei pra ele: “Me meti numa fria e você também”. Eu sou roubada. Temos 50 anos e somos inteligentes, vamos ver no que dá.

Tem medo de ofuscá-lo?

Duas relações minhas acabaram causa desse pano de fundo da mulher forte, que ofusca. Não quero ofuscar ninguém, quero que o outro tenha seu lugar, mas não admito que me travem. Não seria feliz só sendo esposa. A terapia pode ajudar o homem a entender que se ele deixar a mulher brilhar, vai tê-la pra sempre.

Será?


Para os nossos filhos será natural a mulher ganhar mais que o homem, ter mais destaque. Com a nossa geração e a anterior não foi assim. meus pais eram apaixonados, mas se separaram depois que minha mãe se elegeu vereadora. Foi a primeira mulher no cargo em Macaé, na primeira eleição pós-ditadura, em 1982. Não tinha banheiro feminino na Câmara Municipal. Então ela, começou a levar um penico nas plenárias até conseguir que fizessem um banheiro para as mulheres.

Seu nome de batismo é Mônica Garcia Assis. De onde vem o Martelli?

Da minha cabeça. Inventei. Chico Anysio me chamou: “Quem é Mônica Garcia?”. E eu disse: “Eu”. E ele: “Então você precisa trocar esse nome. ‘MoniCAGARcia’ lembra cagar”. Fui lá nos antepassados da família e achei alguns sobrenomes. Entre eles, Martelli.

A bagagem feminista da sua mãe a ajuda no “Saia justa”?

O “Saia” é um marco na minha carreira. Entrei em contato com assuntos importantes. Me trouxe conteúdo, informação. Hoje, falo sobre tudo com mais segurança. Sou a Mônica ali, por isso estou no programa há seis anos. Quem faz personagem dura seis meses.

Em um dos programas, você disse que achava ter sido abusada na adolescência. O que houve?

Conforme fomos discutindo o conceito de assédio, fui tomando consciência de que perdi a virgindade num estupro. Eu tinha 15 anos, estava num luau, na praia e transei forçada.

O discurso do empoderamento feminino não te cansa?

Cansa porque está sendo falado à exaustão. Mas são séculos de desigualdade, temos que falar até cansar mesmo.