Carnaval

Carlinhos Brown: 'Vou me despedir do Carnaval de rua em 2019'

Em entrevista exclusiva a Marrom, do jornal Correio, artista conta que só fará mais dois carnavais em Salvador; fala também sobre livro que vai escrever e exposição de pinturas

Osmar Marrom Martins, do Correio 24h

Entrevistar Carlinhos Brown é sempre garantia de muitas novidades. Mas, dessa vez, quando recebi o convite de sua produtora e mulher, Andréa Mota, para ir ao Rio e assistir ao show de lançamento de seu novo álbum, Semelhantes, no Blue Note, e à final do The Voice Brasil, na Rede Globo, não imaginava que ia trazer tantas surpresas. A começar pela revelação de que Brown vai se despedir do Carnaval de rua de Salvador em 2019. Justo no ano  que marca o retorno de Ivete Sangalo, que estará fora em 2018 por causa da gravidez.

Aos 56 anos, o Cacique do Candeal também comentou sobre sua primeira exposição internacional de pinturas em Madri, ano que vem; a nova formação da Timbalada; da turnê com os Tribalistas, do  livro que pretende escrever; sobre a  direção artística do Filhos de Gandhy e realização um antigo sonho: ser professor de música. Confira  a seguir a entrevista exclusiva, concedida no camarim do Projac, antes do Cacique   entrar em cena para  o The Voice Brasil, do qual continuará sendo técnico em 2018, ao lado de Lulu Santos, Michel Teló e Ivete.

Depois do The Voice, do Réveillon e das festas temáticas que você costuma fazer, vem o Carnaval. Como será o Carnaval de Carlinhos Brown?

Mais do que o Carnaval, vamos falar de um compromisso com o Carnaval. E o que é o compromisso com o Carnaval?  É um respeito ético ao que você aprendeu para com ele. Todo  carnavalesco  é formado desde criança. Não foi diferente comigo. Não foi diferente com Neguinho do Samba. E nós temos vários mestres, embora meu mestre principal é Pintado do Bongô. Pois é, sinto-me já com a  missão cumprida. Então, como em 2019  faço 40 carnavais, vou me despedir das ruas do Carnaval de Salvador. Mas havia algumas missões nas quais eu não tinha cumprido...

Que missões seriam essas?
Uma é Filhos de Gandhy. O afoxé me chamou para produzir e dirigir artisticamente aquela entidade na qual  35 anos atrás eu já fui empossado por Djalma (na época, presidente do Filhos de Gandhy), que era irmão de Mestre Pintado do Bongô, para ser diretor de bateria. Só que eu não entendia o que era. Indaguei: ‘Mas como diretor do Afoxé Filhos de Gandhy?’.  Eles disseram que era mediunidade e pronto. Eu aceitei e nunca exerci. Com a liderança de Gilson Ney (não sei por que ele me chamou), eu aceitei. E, realmente, eu disse que aceitaria se eu desse o que eu achava que faltava ao Filhos de Gandhy.

E o que faltava ou falta ao Filhos de Gandhy?
Registros. Registrar músicas novas e adaptar-se ao que é a rua hoje sem infligir na tradição do Gandhy. Isso tem sido possível e está bastante satisfatório. Arrumei desde novos cantores para trabalhar um repertório clássico do Gandhy já que, em 2019, o Gandhy fará 70 anos e vai fazer aniversário junto com o do Mahatma Gandhi. E coincide que é quando eu deixo o Carnaval e saio da rua. E, com certeza, não vai ter esse negócio de voltar, não!

Eu vou me dar oportunidade que eu não me dei. Eu me dediquei ao Carnaval da Bahia, realmente, por 40 anos

Você vai sair do Carnaval por definitivo?
Isso não significa que eu vou deixar de fazer Carnaval. Eu vou me dar oportunidade que  não me dei. Porque eu me dediquei ao Carnaval da Bahia, realmente, por 40 anos. Eu nunca saí do Carnaval da Bahia. Até Dodô e Osmar já saíram quando o trio quebrou. Mas, eu nunca saí do Carnaval da Bahia. Aos 40 anos, pela lei, as pessoas se aposentam. Eu quero me aposentar das ruas. Acho que minha contribuição já foi dada. Se foi boa ou ruim não dá ainda para analisar. Mas eu fui feliz nesses 40 anos. E vou encontrar outras formas, sobretudo nas artes.  

Quais seriam essas formas?

Porque eu não faço só música e tem outras coisas que eu me interesso muito a fazer. E se eu não me dedicar a gente já sabe, né? O artista muito apaixonado pelo Carnaval termina na porta do SUS ou então pedindo shows beneficentes. Eu estou falando a verdade. Ninguém está nem aí para isso, mas eu estou. Porque eu também quero escrever livros, contar histórias enquanto há memória. Antes que a amnésia, antes que o alemão Alzheimer chegue, eu vou trabalhar nisso.

E a nova Timbalada?

Foi um ano de extrema dedicação ao segmento que amo e respeito e que fez a minha vida ser o que é. Esse foi um ano que eu trouxe a Timbalada com toda sua força. Botei novos cantores e isso funcionou muito bem. Já dei as sete músicas que esperava... Ainda faltam mais 14 músicas que estão prontas, esperando a hora certa de gravar. Mas não adianta se arvorar com a internet porque essa é uma geração que precisa maturar as músicas. Então, você dá 21 músicas e eles não vão entender. Virão os próximos EPs.

O artista muito apaixonado pelo Carnaval termina na porta do SUS ou então pedindo shows beneficentes. Falo a verdade

E esse namoro com a e-music, através da Eletrotimba e com o vocalista Oscar Dominic?

Foi um ano  em que produzi muitos outros artistas. Foi um ano que criei a Eletrotimba. Porque  nós começamos um movimento da axé music eletrônico e as novas gerações não sabem... Era um momento que o Brasil não estava falando em música eletrônica e   a gente já estava ali com a Simon, a Doctor Ritmos, com baterias que hoje são referências pro funk, pro house, pro reggaeton, pro rap e pra tudo que está se fazendo de novo. Então, produzir vai ser um dos melhores quesitos que eu posso fazer.

Quais seus futuros projetos?
Eu tenho tido muitos convites,  sobretudo no caminho das trilhas sonoras nacional e internacional e isso me fará muito feliz. Não quero dizer que um Carnaval ou outro eu não faça um camarote. Não tantos. Mas alguma coisa posso vir fazer. A rua é que realmente não vai mais me interessar porque é melhor sair Pelé do que pé rapado (risos). E não há nenhuma melancolia nesse sentido. Eu acho que preciso dar muita atenção a outras coisas, a minha pintura. Eu quero ensinar música. Quero ser professor de música, que é uma coisa que eu comecei muito bem. Trabalhei gerações.

Por falar em pintura, parece que você vai expor fora do Brasil?
Agora, eu vou expor em Madri, em 2018. Minha primeira exposição internacional. São 25 telas, incluindo a cena da Caxirola, e três instalações, apresentadas na Fundação Telefônica, na Gran Via. Na mesma rua onde eu mais botei gente, na mesma rua  em que  levei um milhão e meio de pessoas atrás da cultura brasileira/baiana, com trio elétrico, tocando Maria Caipirinha, e  sobretudo, onde   lançamos, com Alonso e Rafael Nadal, a nova marca da Movistar. Foi um negócio incrível e coincidiu que eu estava fazendo a propaganda da Schweppes e estava espalhada na Espanha inteira. Foi incrível! Inesquecível! E volto dessa forma, dizendo tudo o que os meus olhos registraram, porque a Espanha me ajudou muito nessa coisa de recobrar ideia  de pintar uma coisa que eu deixei para trás.

Não quero dizer que um Carnaval ou outro eu não faça um camarote.  A rua é que realmente não vai mais me interessar porque é melhor sair Pelé do que pé rapado

Além da pintura, em que outro setor da arte você pretende explorar?
Será um momento também desse desejo de escrever livros. De, talvez, fazer um apanhado sobretudo dos  35 anos da axé, em que ganhei um bom 60% do Carnaval. Metade do Carnaval, eu fui número 1. E quando não fui, estava perto. Isso é uma marca, sim, importante numa vida. Vale salientar que eu saio de um bairro como Candeal, você conhece a minha história, e eu não esperava isso como artista baiano, sem uma instrução, informação devida. Fui ao Oscar, ganhei o Grammy americano, como autor uma vez com Sérgio Mendes e outra vez com Angelique Kidjo. E outra vez o Grammy latino com Omara Portuondo. Ganhei Grammys  latinos com o Tribalistas e com o meu disco Carlito Marron. E o que é gostoso disso tudo é que eu não esperava mais nada. Fui indicado ao Grammy, devo ir a Los Angeles  no primeiro semestre de 2018 e só deixo o Carnaval em 2019, quando Ivete, que é a nossa Diva, volta. Ela volta eu saio.

E como será essa volta dos Tribalistas?
Primeira turnê que nós vamos fazer no Brasil.  As datas sairão daqui a pouco. Salvador vai estar no roteiro. As pessoas se preparem porque vai ser um só. Quem viu, viu.  Não vai ser isso não, de na semana que vem estou aqui. O Tribalistas está muito contente porque é uma coisa que nós não esperávamos, fizemos esse álbum com respeito ao público, de tanto eles pedirem. Claro que a gente sempre esteve junto. Mas essa turnê, acredito que vai ser uma missa: as pessoas vão cantar essas músicas que se amadureceram há 15 anos. Marisa, Arnaldo e eu estamos muito felizes. 2018 é um ano muito promissor. No sentido de mostrar tudo que nós plantamos. Mas é um ano também onde toda maturidade artística virá com todas as forças mostrando como nós crescemos.

Como você arranja tempo pra tanta atividade?
Quando você é proativo, tem uma equipe que acredita no que você faz, é claro que existe uma dinâmica. Eu lidero, mas eu sou liderado. Eu lidero as ideias, depois as ideias me lideram, através de quem está do meu lado,  de quem me protege. Muito agradecido pela compreensão da Bahia. Saio com o dever cumprido.