Bate-boca entre jogador e jornalista abre debate sobre sexualização do corpo feminino no esporte


Foto: Reprodução / Redes Sociais

A busca de um corpo perfeito e belo faz parte da natureza do esporte. Por mais que esses conceitos de perfeição e beleza sejam complexos, discordantes entre as pessoas e mutáveis de acordo com os tempos e a cultura nos quais estão inseridos, essa discussão sempre existiu.

Mesmo com a mercantilização total do esporte e o foco nos resultados e na performance dos atletas, a Beleza, em maiúsculo mesmo, sempre foi uma meta a ser perseguida. E é preciso considerar que o conceito de Estética também entrou na rota do business quando se fala em patrocínios, merchandisings, embaixadores de marcas e digital influencers. Até porque nenhuma marca quer se associar a algo ou alguém que não seja desejado.

A lista de atletas de alto rendimento que se notabilizaram por também serem padrões estabelecidos como belos em sua época é enorme e não vem de hoje. Passa por todos os esportes e, evidentemente, também chega ao futebol, no Brasil e no exterior. Há listas e rankings disponíveis na internet para colocar os corpos de homens e mulheres na prateleira do desejo. Mas até onde esse fenômeno de objetificação é saudável ou ultrajante?

História

Com a expansão das transmissões esportivas pela televisão, principalmente a partir da Copa do Mundo de 1970, os atletas passaram também a serem vistos, admirados e desejados. Quem tiver boa memória e idade para isso, deve se lembrar dos tricampeões Pelé fazendo propaganda de complexos vitamínicos e de Gerson incentivando o consumo do cigarro, no comercial que falava que era preciso levar vantagem em tudo.

No universo masculino de jogadores da Seleção Brasileira, a partir do Tricampeonato Mundial, podemos destacar alguns que foram reverenciados como ícones da beleza, além de sua competência esportiva. Entre eles, Rivelino, Leão, Éder, Renato Gaúcho, Kaká, Adriano e Neymar, para ficar apenas nesses nomes, arrancaram suspiros e sucedem-se no imaginário dos fãs como objetos de desejo. Não foram poucos os que exibiam seus corpos em campo com seus calções muito curtos e camisas apertadas, conforme a moda da época, e passaram a estrelar propaganda de cuecas, por exemplo, em anúncios impressos, outdoors e comerciais de TV.

No vôlei, da Geração de Prata aos medalhistas mundiais e olímpicos, destaque para Bernard, Renan, Xandó, Maurício, Tande, Giovane, Marcelo Negrão e mais recentemente com Bernardinho, Lucão e Lucarelli. No surfe atual, Ítalo Ferreira brilha som seu jeito descolado, cara de bad boy e sensibilidade de um garoto carinhoso.

Quando é a beleza feminina que entra em cena, sobram elogios para a skatista Leticia Bufoni, a futebolista Gio Queiroz, a ginasta Rebeca Andrade e muitas outras, mas se a tal beleza masculina pouco incomoda e é incentivada, no universo feminino ela se depara com problemas de sexualização excessiva e até agressiva. E isso também não ocorre somente no Brasil.

Foto: Reprodução / Redes Sociais

Polêmica Douglas Luiz

Esse, por sinal, é o motivo da polêmica recente envolvendo o jogador Douglas Luiz, do Aston Villa, e o comentarista Milton Neves, que sugeriu em um post que seus seguidores reparassem detalhadamente no corpo de Alisha Lehmann, que é jogadora de futebol feminino do clube inglês e namorada de Douglas Luiz. Indignado, o atleta brasileiro cobrou respeito do apresentador. Muitos apoiaram o jogador, outros classificaram como “mimimi”.

Para quem viu o conteúdo na internet antes de ser excluído, a imagem mostrava a beleza e a forma física da futebolista, de forma destacada pela roupa colada ao corpo e clicada numa posição que reforçava as suas curvas enquanto exercia o seu ofício. No vídeo, a atleta aparece comemorando um gol e imita Cristiano Ronaldo, mostrando o número da camisa para as câmeras. O apresentador postou o vídeo com a mensagem: “Sem voltar o vídeo. Qual número estava na camisa dela? Assista e opine…”.

Não deu outra! O debate esquentou, o post foi excluído pelo comentarista, mas usuários capturaram a tela e voltou à tona um debate muito importante quando se trata de julgar performance e aparência de homens e mulheres. Apesar da árdua batalha pela igualdade de direitos, a mulher é sempre mais julgada que o homem.

Ao comentar o fato, a jornalista e escritora Milly Lacombe afirmou, em linhas gerais, que a sexualização do corpo da mulher [em situações aparentemente banais, como essa] é o começo de uma trilha cujo destino final é o assassinato desses corpos e que, ao se fazer isso, coloca-se o corpo na prateleira como qualquer outra mercadoria pronta para ser consumida, aos pedaços. O fato curioso é que, ao colocar o debate da pertinência ou não do comentário na fala entre dois homens, a jogadora foi praticamente remetida a uma dimensão em que era um simples objeto de propriedade alheia.

Não é a primeira vez que vemos o discurso machista fazendo vítimas. Desde a popularização do vôlei feminino nos anos 1980, não eram poucos os que deixavam de observar o desempenho em quadra das jogadoras brasileiras e resenhavam sobre a sensualidade dos uniformes colados ao corpo de atletas como Isabel, Ana Paula, Leila, Virna e Fernanda Venturini, por exemplo. No basquete e no futebol femininos, jogos de contato físico em que a força é um elemento à parte, a extensão das críticas chega até a questionar a aparência e a orientação sexual das atletas. Realmente não é fácil ser mulher!

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