Mito da Supermãe

"A culpa só paralisa. A história é entre você e seu filho"

Três mães com idades e profissões distintas compartilham suas dificuldades, dicas e reflexões na hora de conciliar carreira e filhos

Naiá Braga (naia.braga@redebahia.com.br)
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Rede de apoio é a expressão fundamental na vida das mulheres que se tornaram mães, sobretudo, após o fim da licença maternidade quando deveriam retomar suas rotinas normais de trabalho. A bacharel em Informática Mônica Goes Novaes Cajahyba atribui ao planejamento estratégico ter conseguido conciliar carreira e maternidade sem tanta dor de cabeça. 

 Mãe de Henrique de 17 anos e de Hannah, de 10 meses, ela compara as rotinas nas duas gestações. "São momentos diferentes. No meu primeiro filho eu era muito  mais jovem. Não me permiti trabalhar até ele completar seis meses de amamentação exclusiva. Meu ex-companheiro segurou a onda. Já a de Hannah foi mais complicado conciliar.Como a licença maternidade tem quatro meses, a gente não tem muitas opções", reflete. Agilizar as demandas de trabalho foi uma das alternativas encontradas pela profissional que atua há 20 anos na área comercial. "Eu corri muito na gravidez da Hannah. Como eu trabalho com cota, eu fiz tudo que eu podia nos setes primeiros meses de gestação para ter menos coisas para fazer  perto do parto para  poder parir com tranquilidade", recorda-se. Para Cajahyba a rotina de muitas viagens no seu trabalho acabam por reforçar a necessidade de planejamento. "O maior desafio é  que a gente tem que ser muito boa em estratégia e planejamento. Eu viajo muito e acabo trazendo comigo uma bomba de extração de leite. Eu mantenho meu leite no congelador e não abro mão de amamentar Hannah. São 30 mamadeiras no freezer, além de provação de sono, preocupação se eles adoecem", explica.

Mônica com os filhos e enteados. Foto: Acervo Pessoal

O psicólogo e doutor em Ciências da Educação Alessandro Marimpietri acredita que as licenças maternidades deveriam ser compartilhadas entre o casal. " Precisamos de licença maternidades maiores e que possam ser compartilhadas com os companheiros e companheiras. Isso faz bem à saúde mental das mães, a construção de um papel social mais digno e equânime e principalmente para a saúde da criança. Com políticas mais justas fica muito mais fácil e justo. Essa ideia de que só depende das mulheres é uma grande injustiça", alerta. 

Aos 44 anos, a engenheira química Gabriela Maria Carvalho Cravo revela que sofreu preconceito de outras mães quando retomou o trabalho, após a gestação. "No ambiente do trabalho e familiar nenhum, mas há sim preconceito principalmente de mães que não têm uma rotina similar à minha", reflete. O dia a dia como gerente em uma petroquímica faz com que seus dias sejam constantemente alterados pelas viagens e com que a cobrança seja cada vez mais pessoal.

Gabriela Cravo e a pequena Isabella
 Foto: Acervo Pessoal
"As cobranças são mais minhas e da minha filha, em relação às atividades básicas do dia a dia, como levá-la e buscá-la na escola, acompanhá-la ao pediatra ou dentista, escovar os dentes na hora de dormir, contar uma historinha para ninar", explica. Apesar de conviver com a culpa na criação da filha, Gabriela afirma que escolheria a vida que tem hoje. " Me sinto culpada quando me deparo com questionamentos sinceros da minha filha, como: “eu queria que você não viajasse tanto”, “liga para seu Diretor e diz a ele que hoje é dia de você ficar com Bebé e papai. Eu reflito, discuto como meu marido (meu grande companheiro da sensatez) quando preciso de apoio para "elaborar", e sigo sem remorsos, porque esse é o meu trabalho no momento. Poderia optar por outra rota de vida? Sim, claro. Mas não é o que quero. Sei que alguns ajustes são possíveis e necessários e tenho os buscado. E afinal de contas, uma ariana infeliz é capaz de deixar muitos à sua volta infelizes", brinca. 

Para a mãe de Isabella, os momentos de individualidade são indispensáveis para sua saúde mental e são mantidos com atividades como natação e acupuntura. Questionada sobre o que deixaria de conselhos para outras mães, a engenharia reforça a compreensão da maternidade como uma experiência particular. "Quanto à culpa, ela só paralisa, e o que eles menos querem é essa paralisia. Então, construa e viva a sua experiência de maternidade, é única, como você. No final, a história é entre você e seu filho, e mais ninguém", conclui.    

Dora e Rosinha em ensaio especial. Foto: Renata Grimaldi
Não ter a família por perto foi apenas um dos complicadores na vida do casal Isadora Alves e Laio Pinho. A empresária Isadora Alves, dona da marca de roupas e acessórios "Com amor, Dora", diz que mesmo com a família morando longe de Salvador e sem ter tido licença maternidade, ter tido a ajuda dos amigos  foi fundamental na experiência.

"Eu contei com a  ajuda de muitas pessoas e comecei a trabalhar quando ela tinha dois meses. Eu não consegui amamentar, meu corpo não se preparou e essa foi muito difícil e é um trauma que eu estou superando. E eu  tinha que voltar para a loja. Quando a gente tem um negócio e não está perto, ele não funciona. eu me cobrava muito para ser a mãe perfeita e não tive tempo para isso por uma necessidade. Eu precisava voltar a trabalhar", diz. Para Dora (como é conhecida entre seus clientes e amigos), deixar o trabalho nunca foi uma opção. "Depois que Rosinha nasceu, eu percebi que não ia dar conta da loja sozinha e abri o espaço com uma sócia e a gente divide os dias na loja. Consegui fazer uma logística entre eu e meu marido. Por isso, eu acho que ter um pai presente é muito importante e as coisas não ficam tão ruins. Eu nunca pensei em abandonar meu trabalho porque eu sei que no futuro ela poderia me cobrar isso. Ela  vai ver que a mãe dela batalhou por isso", se emociona.