Comportamento

Por que é preciso ir a museus com novos olhares

Pesquisa revela que para 50% das pessoas, os museus são vistos como lugares elitizados e aponta ainda tendências de como transformar a relação do público com esses espaços

Naiá Braga (naia.braga@redebahia.com.br)
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 Aos 45 anos, a dona de casa carioca Elisabeth de Souza, mora em Salvador há 5 anos, e foi já a museus duas vezes na vida: uma ida foi ao museu do Ingá, em Niterói (RJ), durante um passeio da escola, quando tinha 16 anos,e já adulta com os filhos, a visita foi ao Museu da Quinta da Boa Vista, também no Rio de Janeiro. Questionada se voltaria aos espaços, ela se autorresponsabiliza. "Não tenho o costume de ir...errado isso. Acho que falta mais interesse", resume.

Natural de Salvador, a engenheira eletricista Maria Luiza Simões Vieira, de 56 anos, revela que a paixão por viajar contribui na hora de conhecer museus e visitar novamente. "Já fui a vários em Salvador. Gosto de conhecer minha cidade como se fosse turista", conta empolgada. Luiza acumula visitas a museus de São Paulo, Rio de Janeiro e até de outros países. "Vou mais de uma vez mesmo museu, porque geralmente não é possível ver tudo e também muitas vezes há exposições temporárias", pontua. A relação do público com os museus é um dos principais objetos da pesquisa desenvolvida pela Oi Futuro em parceria com a Consumoteca, consultoria especializada em cultura, inovação e comportamento. 

Intitulado "Narrativas para o futuro dos museus", o levantamento analisou dados de relatórios internacionais sobre tendências relacionadas a museus e um corpo de seis especialistas em museologia, patrimônio, educação e história. Ao todo, foram ouvidas 600 pessoas, entre frequentadores e não frequentadores de museus das classes A,B,C de todas as regiões do Brasil, durante o segundo semestre de 2018. O processo da pesquisa incluiu ainda grupos focais em cinco capitais (Rio de Janeiro, São Paulo, Porto Alegre, Belém e Recife).

Público composto por especialistas, estudantes e artistas esteve no Oi Futuro
Foto: Cristina Lacerda

Além de apontar alguns traços comportamentais do público, o estudo se propõe a discutir alternativas e estratégias para que os cerca de 3000 mil museus brasileiros registrados pelo Instituto Brasileiro de Museus (IBRAM) possam se comunicar melhor com o público, conquistar novos visitantes, além de se manterem como espaços de produção cultural e fortalecimento das comunidades.

Na Bahia
Atualmente, a Bahia possui cerca de 60 museus, 29 em Salvador, sob a gestão do Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural do Estado da Bahia (Ipac). Em 2018, foram registrados a presença de 260 mil visitantes nos museus vinculados ao Ipac. Em entrevista ao iBahia, Ana Liberato, coordenadora de museus da instituição, afirma que existe um trabalho consistente para aumentar o número de frequentadores. O visitante é visto como a pessoa que vai esporadicamente ao espaço e o frequentador é a pessoa que retorna diversas vezes. "De uns anos para cá, o público está mais diversificado. Estamos formando públicos e há um trabalho permanente junto às escolas e aos estudantes, com a realização de oficinas, palestras, aulas de yoga, música e outras atividades", pontua. Ainda de acordo com Liberato, há um trabalho em parceria com associação de aposentados para que pessoas idosas também transformem o olhar na hora de ir aos museus. Com os públicos em formação, a aproximação tem sido a estratégia adotada. " O trabalho que é desenvolvido para que esse jovem se sinta estimulado, para que o conhecimento o estimule e acaba aproximando os alunos porque eles acabam conhecendo e reconhecendo a própria história naquilo que é produzido", avalia Liberato.

Exposição de Chico Cunha, 'Fábrica de Balas', em exposição no Oi Futuro
Foto: Cristina Lacerda

'Efeito viu, tá visto' e pertencimento
Para Roberto Guimarães, gerente executivo de cultura do Oi Futuro, além de identificar e conhecer o público, a tecnologia não pode ser o único meio para atrair o olhar e a experiência das pessoas que visitam os museus. "É preciso construir a sensação de pertencimento em que vai ao museu, não somente pela tecnologia e ele dizer:'essa história tem a ver comigo'. Por isso, um nome como 'Casa de Jorge Amado', por exemplo, lá na Bahia, funciona porque a pessoa se sente pertencente àquele espaço", reflete Guimarães. 

Um dos dados de destaque da pesquisa aponta que 55% dos entrevistados tiveram seu primeiro contato com museus em excursões escolares, o que contribui para a visão de que os museus são locais com regras rígidas, onde não se pode tocar em nada nem fazer barulho, e onde a aprendizagem acontece de forma passiva e os conhecimentos adquiridos serão cobrados em uma prova ou exame. Para 50% das pessoas ouvidas, os museus são lugares elitizados, monótonos para visitar apenas uma vez e sem novidade. Para os especialistas que participaram do estudo, o "efeito viu, tá visto" pode ser combatido a partir do momento que os museus se reinventam como espaços onde o público pode viver experiências, que não podem ser reproduzidas virtualmente, e também apostarem em ciclos mais dinâmicos de exposição, inspirados na rotina dos centros culturais.

Bruna Cruz, museóloga do Oi Futuro comenta a pesquisa
Foto: Cristina Lacerda

Bruna Cruz, museóloga do Oi Futuro, aposta no destaque do trabalho educacional do instituto. "A convergência é a palavra-chave do museu. Trabalhamos com um programa educativo e é o impacto que a gente acredita que pode gerar uma transformação social. O museu precisa ser visto como um meio e não como um fim", reflete.

* O iBahia esteve presente no lançamento da pesquisa de tendências inédita sobre a relação do público com museus no Brasil, no Rio de Janeiro, a convite da Oi Futuro.