Turismo

Turismo de caverna na Terra Ronca: tem coragem para encarar?

Na divisa com a Bahia, maior complexo espeleológico do mundo atrai estudiosos, turistas e aventureiros

Alexandre Reis*
- Atualizada em
Salão dos Espelhos da caverna Angélica, no Parque Estadual de Terra Ronca / Foto: Marcelo Peregrino
Que tal nadar em um rio dentro de um ambiente totalmente fechado, na escuridão, com pedras, morcegos e insetos por todo lado? Se a ideia incomoda você, a dica é: deixe a adrenalina tomar conta do corpo, supere qualquer receio ou medo e utilize todos os sentidos nessa viagem. Uma experiência que, apesar de parecer assustadora, é extremamente recompensadora, uma forma singular de contato com a natureza. Um dos roteiros mais famosos do país fica pertinho do oeste baiano: o Parque Estadual de Terra Ronca, localizado nos municípios de São Domingos e Guarani, ambos em Goiás, um dos encantos do Planalto Central brasileiro.

Claro, ninguém entra em uma dessas cavernas que começaram a se formar há mais de 600 milhões de anos sozinho. Nem mesmo os sempre presentes geólogos, biólogos, espeleólogos ou fotógrafos especializados em registrar esses ambientes que já serviram de abrigo seguro para o homem das cavernas. Em Terra Ronca, a presença do guia na prática do ecoturismo é tão indispensável quanto usar um bom e velho tênis: bom o suficiente para não furar ou descolar a sola, capaz de aguentar as caminhadas nas pedras, e velho porque vai ficar todo molhado.

É o guia que vai fornecer os equipamentos de segurança obrigatórios para a aventura dentro das cavernas: capacete e lanterna, além de carregar itens de primeiros socorros e outros apetrechos, como baterias extras. A maioria dos guias credenciados conduz o visitante a apenas cinco cavernas: Angélica, Terra Ronca 1, Terra Ronca 2, São Mateus e São Bernardo. Mas há pelo menos um mais experiente que topa levar a outras que exigem mais técnica, preparo físico e psicológico.

“Boca” gigantesca
Entrada da caverna Terra Ronca 1 possui quase 100 metros de altura e 120 de largura / Foto: João Paulo Melo
O Parque Estadual de Terra Ronca, cujo acesso às principais atrações está situado no povoado de São João Evangelista, no município de São Domingos, possui 57 mil hectares de extensão e foi oficialmente criado em 1989 para proteger as formações cavernosas esculpidas pela natureza em pleno cerrado. Apesar disso, tem proprietário de terra que alega que ainda não recebeu o valor da desapropriação, como aquele que, por conta disso, cobra uma taxa de R$5 por pessoa para permitir a entrada na caverna Angélica – é o único atrativo no qual se paga algum montante para usufruir.

Talvez a imagem mais conhecida do parque no Brasil e no mundo seja o acesso à caverna Terra Ronca I, com seus quase 100 metros de altura por 120 de largura. É uma imagem impressionante, parecendo uma enorme boca desejosa por engolir quem estiver por perto. Antes de ser engolido, o visitante passa por um altar onde todo ano, no início de agosto, é celebrada a festa de Bom Jesus da Lapa, quando um batalhão de romeiros invade São João Evangelista e achar uma pousada com vaga vira uma missão de fé.
Por alguns metros, o acesso à Terra Ronca 1 é iluminado naturalmente, em função da boca enorme da caverna / Foto: João Paulo Melo
Se você tiver fôlego para uma caminhada de 10 quilômetros (ida e volta) em um programa que dura quase dia inteiro (por isso é preciso levar lanche, água e repelente), o bacana é percorrer os salões de Terra Ronca 1 e 2, começando pela primeira. Logo no início, você tem a sensação de estar em outro planeta, graças à luz que entra pela enorme “boca” de Terra Ronca 1, iluminando e dando uma coloração surreal ao primeiro trecho da caverna.

Depois, a escuridão vai tomando conta, restando apenas a luz artificial das lanternas, que dão formas e cores aos demais salões e espeleotemas (conjunto de esculturas naturais que não devem ser tocadas, a exemplo das estalactites, que levam milhares de anos para se formar a partir do cálcio arrastado pela água que goteja do teto). Boa parte da caminhada é por dentro do Rio da Lapa, e, havendo sorte, é possível ver um ou dois bagres cegos e albinos – já para se deparar com morcegos não precisa de sorte alguma.

Travessia a nado 
O Buraco das Araras é um dos salões prediletos de Terra Ronca 2 / Foto: Alexandre Reis
Após sair de Terra Ronca 1, um alerta: tome cuidado com os macacos que ficam na parte alta do barranco, já que eles costumam atirar pedras nos transeuntes que caminham em direção à segunda caverna. Isso mesmo! Uma turma barra pesada que não gosta muito de ser incomodada. Há ainda outros obstáculos nesse trecho, como a necessidade de escalar para subir em algumas pedras, mas nada complicado. No final vale a muito a pena, como quase todo esforço feito na prática do ecoturismo em Goiás.

Logo no início da Terra Ronca 2 está o único trecho no qual é preciso nadar no rio, já no breu da caverna (veja os vídeos). Uma corda auxilia os aventureiros. São cerca de 3 metros de travessia a nado e, com a ajuda do guia, a tarefa é fácil. A correnteza é bem fraca nessa parte, e o banho ajuda a amenizar o calor. Um dos salões mais bonitos é o Buraco das Araras, que tem uma abertura no teto que permite a entrada de um grande feixe de luz que ilumina o ambiente e rende uma fotografia memorável.

Há ainda o Salão dos Namorados, que tem este nome em função de duas pedras que lembram um casal apaixonado. Sim, os espeleotemas, alguns gigantescos, parecem desde torres de catedrais a flores e partes do corpo humano, a depender da imaginação de cada um. Na volta, que é mais lenta, pois se caminha contra a correnteza do rio, não deixe de subir até o topo da “boca” da Terra Ronca 1 e conferir o pôr do sol acompanhado dos rasantes das araras vermelhas.

Vale frisar que as duas cavernas eram uma só até que, há alguns milhares de anos, houve um desmoronamento que as dividiu. Algumas das pedras enormes que formavam o teto dessa única caverna estão no percurso.

Angélica, São Mateus e São Bernardo
As cavernas em Terra Ronca possuem enormes salões com inúmeras formações/ Foto: Alexandre Reis
A Angélica é uma caverna de rápida visitação (reserve no máximo até três horas para esse atrativo). O roteiro turístico envolve cerca de 2,5 quilômetros de caminhada (ida e volta), apesar da caverna ter 14 quilômetros de extensão. Fica a 25 quilômetros da sede do povoado de São João Evangelista e é o único atrativo do parque no qual é cobrada uma taxa de entrada, no valor de R$5.

O Salão dos Espelhos é sem dúvida o mais bonito. A água no piso da caverna reflete o teto quando se joga luz artificial no ambiente, oferecendo um cenário ao mesmo tempo deslumbrante e assustador. Se você estiver com um bom guia, ele vai posicionar lanternas em locais estratégicos para que as suas fotos e vídeos fiquem legais, embora não cheguem nem perto dos registros feitos por profissionais com equipamentos adequados. Apesar desse salão conter água limpa de nascente, na Angélica não é preciso molhar o tênis.  

Há outros salões lindos, riquíssimos em formações, como o do Porta Retrato, das Cortinas (o segundo mais bonito), da Santa Angélica, da Mina e da Boca do Tubarão. No final do passeio, o guia pede para desligar a lanterna para que você sinta a caverna, com seu silêncio e escuridão. E faz uma espécie de show de luzes com uma música instrumental ao fundo. Ao menos foi o que fez o guia João Paulo Melo, parceiro nessa reportagem (veja informações de contato mais abaixo).

São Bernardo e São Mateus são as duas outras cavernas que os guias costumam levar e que são regularmente abertas dentro do parque. A primeira, que dá para visitar em meio período, tem como destaque o Salão das Pérolas. A segunda, que possui no total 25 quilômetros de extensão, tem acesso mais complicado, exige maior esforço físico e cuidado na caminhada, pois contém abismo e trechos escorregadios. Clique aqui para ver uma imagem em 360 graus de um dos salões da São Mateus. Não detalhamos mais sobre essas duas cavernas porque elas não foram visitadas durante a expedição.

Quando visitar e que guia chamar
Imagem da rua principal do centenário povoado de São João Evangelista / Foto: Alexandre Reis
Assim como a Chapada dos Veadeiros, outro paraíso de Goiás, Terra Ronca também possui apenas duas estações bem definidas ao longo do ano: a seca e a molhada (chuva). O período mais seco é de abril ao início de outubro. Nas chuvas, apenas a caverna Angélica fica aberta para visitação. Mais fique ligado porque em feriados no período seco as pousadas costumam ficar lotadas em São João Evangelista, e também é difícil encontrar guia disponível.

Os guias cobram R$150 por atração para grupos de até 4 pessoas (acima disso o valor é R$25 por indivíduo). O que conduziu a reportagem foi João Paulo Melo (62 99990-0761), bastante atencioso e qualificado. O guia mais antigo e famoso é Ramiro Hilário dos Santos, que reside próximo à entrada de Terra Ronca 1 e leva a algumas cavernas fora do roteiro oficial que está aberto pelo parque, a exemplo da Lapa do Bezerra, considerado por alguns como a caverna mais bonita do Brasil em função da riqueza ornamental, com pouco mais de 8 quilômetros de extensão e cortinas de até 20 metros de altura.

“O Salão Deva, da Floresta Branca e dos Sinos são únicos, belos e sem similares. É preciso ver, contemplar, sentir”, conta o fotógrafo José Humberto Matias de Paula sobre a Lapa da Bezerra. Matias é autor do livro “O Mundo Subterrâneo de Terra Ronca”, que contém fotos de tirar o fôlego das cavernas do lugar. Inclusive fotos da caverna de São Vicente, que possui até cachoeiras e cujo acesso só se dá por meio de rapel.  

Como chegar e onde ficar?
No alto da “boca” da Terra Ronca 1, as araras encantam os visitantes / Foto: Alexandre Reis
A pousada Estação Lunar oferece café da manhã, almoço e jantar / Foto: Alexandre Reis
O povoado de São João Evangelista, que pertence ao município de São Domingos e tem duas cachoeiras, é o melhor lugar para se hospedar, pois fica próximo do acesso às principais atrações do Parque Estadual de Terra Ronca. Saindo de Salvador, são 1,2 mil quilômetros de asfalto até São Domingos e mais 40 de estrada de barro repleta de buracos, desníveis, “costelas de vaca” e pedras para o término da jornada no povoado. Um automóvel mais alto, do tipo utilitário, garante menos desconforto nesse trecho, mas também é possível chegar com veículo de passeio, desde de com cautela.

A primeira rodovia estadual goiana do caminho é a GO-463. Ela é uma das saídas da BR-020 (há uma placa indicativa de Terra Ronca), pista federal que liga o oeste baiano à Brasília. Embora haja buracos, essa estrada estadual está razoavelmente boa, e conta com o visual prazeroso da Serra Geral de Goiás. Ao chegar a São Domingos, os 40 quilômetros de estrada ruim até São João Evangelista são feitos na GO-110 até o acesso ao parque, que é o mesmo do povoado (na esquerda do motorista).

Vale lembrar que o turista baiano que parte de Salvador com destino à Terra Ronca tem sempre a opção de fazer parte da viagem de avião (até Barreiras ou Brasília) e alugar um carro em uma dessas duas cidades. Se o trajeto de automóvel começar em Brasília, numa viagem de 400 quilômetros, é só pegar a mesma BR-020, na direção da Bahia – nesse caso, vale a pena uma parada na cidade de Formosa ou Mambaí, as duas em Goiás, para conhecer algumas cachoeiras incríveis. Nesse itinerário, se passa em Guarani de Goiás antes de chegar à São João Evangelista.

Outra informação importante é que em São João Evangelista não tem posto de gasolina. Então, é bom se programar para abastecer no caminho. O povoado, que possui cerca de 200 habitantes, também não tem restaurante ou mesmo mercado. Por isso, as pousadas oferecem, além do café da manhã, almoço e jantar. A pousada indicada é a Estação Lunar (61 99883-9231), que tem diária para o casal no valor de R$320 com as três refeições, estacionamento e piscina. Há outras mais confortáveis, a exemplo da nova Alto da Lapa. Estão no Booking. Áreas de camping costumam cobrar R$25 a diária.

Zerando as dúvidas
As atrações do Parque Estadual de Terra Ronca fecham na época de chuva?
Sim, por segurança. A exceção fica por conta da caverna Angélica.

Posso fazer os passeios de chinelo para não molhar o tênis?
Não. É preciso estar de tênis ou bota, mesmo dentro do rio, em função das pedras e dos desníveis do solo.

Algum passeio pode ser feito sem guia?
Não, em hipótese alguma.

O trajeto dentro das cavernas é feito em pé ou agachado?
Em pé, a não ser quando se passa por um obstáculo ou outro.

Preciso levar lanternas?
Os guias fornecem lanterna presa ao capacete. Eles também costumam levar lanternas extras e pilhas. Mas você pode levar a sua, sobretudo se tiver uma potente.

Dá para fazer fotos?
Dá sim, com a ajuda das lanternas ou com flash.

Pode acampar nas cavernas?
Não. A não ser que haja alguma autorização especial do parque para pesquisadores ou exploradores.

Falta ar dentro das cavernas?
As cavernas possuem salões amplos, ou seja, não falta ar. A umidade e o calor estão sempre presentes.

*jornalista e viajante compulsivo