Futebol S/A

O Cisne Negro e A Bola Brasileira

Estamos, agora, diante de um cisne negro

Renato Gueudeville, Futebol S/A
- Atualizada em

Nassim Nicholas Taleb é um megainvestidor libanês que fez carreira no mercado financeiro, passando por grandes instituições como Credit Suisse e BNP Paribas. Porém, sua fama vem da literatura e, mais precisamente, após escrever o excelente livro “Black Swan” (“A lógica do cisne negro”, em português). 


O título do livro vem do aparecimento inesperado do animal pela 1ª vez na Austrália no século XVII. Até aquela data era consenso que só existiam cisnes brancos.

Ou seja, diante de grandes eventos imprevisíveis, normalmente o nosso cérebro não está preparado para processar rapidamente uma resposta ou busca explicações simplistas para os fatos.

Quem imaginaria que 19 terroristas sequestrariam 4 aviões e partiriam em direção ao World Trade Center e ao Pentágono (1 deles acabou caindo em um campo aberto na Pensilvânia após alguns passageiros e tripulantes tentarem tomar o comando da aeronave)?

Estamos, agora, diante de um cisne negro.

A Covid-19 é um desses eventos enquadrados nas características acima. A quantidade de mortes vistas na China, Itália e Espanha e a propagação rápida por todo o mundo fizeram as nações ligar todos os alertas disponíveis para evitar o estrangulamento dos seus sistemas de saúde. Ainda não há consenso mundial de como combater o vírus embora, em muitos casos analisados, o isolamento social tenha se mostrado eficaz no achatamento da curva de infectados.

As economias pararam e, a reboque, o mundo dos esportes também. O futebol, basquete, vôlei e Fórmula 1 foram alguns desses. 

O COI adiou as Olimpíadas de Tóquio, a FIFA cancelou para este ano a Eurocopa e a Copa América. A Uefa suspendeu a Liga dos Campeões e a Conmebol a Libertadores.

Por aqui, a CBF também suspendeu a Copa do Brasil e deixou a cargo das federações o destino dos estaduais. E esses fizeram o mesmo, seguindo as recomendações das autoridades médicas. Tudo parado no mundo da bola para proteger torcedores, atletas e todos os que trabalham no segmento.

E as consequências econômicas desta pandemia no nosso futebol?


A questão econômica tem tirado o sono de todos os governantes mundiais. As implicações e desdobramentos dessa crise tendem a ser muito mais graves.

Com as populações em casa, a economia parou. O comércio, indústria e serviços estagnaram.

Pararam os CPF’s e CNPJ’s. 

Para efeitos de comparação, a Bolsa de Nova York recuperou o seu patamar prévio do 11 de setembro apenas 1 mês depois dos atentados.  A crise dos subprimes americanos, em 2008, passou por nós como uma “marolinha”, já diria o ex-presidente Lula. E de fato, os reflexos aqui foram poucos e o Pib cresceu 5,1% naquele ano.

Desta vez, tudo leva a crer que a pancada será muito maior.

Somente nos EUA, na semana deste artigo (23/03/2020) já se registram cerca de 3,2 milhões de pedidos de seguro desemprego. Uma semana antes foi de 282 mil e o recorde era em 1982 com 695 mil pedidos. Portanto, quase 5 vezes mais que o recorde.

A chance de ser um tsunami econômico é fortíssimo e, para um país vindo de anos de recessão, o desafio será ainda maior.

O mesmo se aplica para um futebol em que grande parte dos clubes não têm “musculatura financeira”. Por aqui, vende-se o almoço para comprar o jantar. Clubes com atrasos em salários, fornecedores, bloqueios judiciais, dívidas astronômicas e alguns dirigentes com gestões fraudulentas e temerárias.

Existem exceções? Claro que sim. São os cisnes negros da bola brasileira.  

Se a situação é caótica nas principais séries do futebol brasileiro (A e B), imaginem as dos outros 88 clubes que compõem as séries C e D.

Como podemos falar de gestão de risco se alguns grandes não têm sequer orçamento 2020? Alguns têm ele como uma perfeita obra de ficção científica.

Em momentos como o que estamos vivendo agora, o papel do Estado e toda sua máquina é fundamental para garantir o funcionamento e a normalidade da sociedade.

E, trazendo para o mundo da bola, qual o papel da CBF nisso tudo? Ela não é uma instituição pública, mas é a responsável por garantir o funcionamento e a normalidade da “sociedade futebol brasileiro”.


Acima, o balanço patrimonial da CBF no exercício de 2018, somente a estrutura dos ativos. Você pode ter acesso ao documento completo através do site.

A Confederação encerrou o exercício com cerca de R$ 516 milhões de em caixa. 


Repetindo: encerrou aquele ano com R$ 516 milhões em caixa!!

No quesito Receitas Operacionais, o número ficou em aproximadamente R$ 617 milhões.

Pelos números divulgados há algumas semanas, a receita de 2019 ficou em R$ 957 milhões e um superávit de R$ 190 milhões. Sim, ela chegou mais perto do primeiro bilhão de reais de receitas antes de qualquer clube do nosso futebol.

São números expressivos daquela que se propõe a “garantir a gestão independente do futebol brasileiro e das Seleções Brasileiras de futebol.” Tá escrito lá no site dela.

Não julgo o mérito dos números da CBF. Eles são reflexos de uma gestão focada em resultado, em enriquecimento de uma instituição privada. Aliás, os clubes deveriam aprender até um pouco com ela (só a parte que presta).

Qual seria a função dela em um momento nunca enfrentado pelo futebol brasileiro?

A Real Federação Espanhola movimentou alguns bancos para disponibilizarem empréstimos no total de € 500 milhões aos clubes mais prejudicados. A própria Conmebol já disponibilizou a antecipação de 60% das cotas de quem disputa a Libertadores e a Sul-Americana. 

Os grandes clubes lideram conversas com sindicato dos atletas, através de uma comissão, tentando encontrar algum formato que alivie a folha salarial. Correm atrás de seus patrocinadores para manter contratos sem a contrapartida da exposição de marca. 

Certamente, eles estão repactuando dívidas bancárias ou, pior ainda, tentando buscar acesso às novas linhas de empréstimos quando o segmento financeiro formula o seu antídoto contra crises: trava o crédito e aumentam os juros, em função da deterioração do cenário. Eles praticam a quarentena sempre que chega uma crise. 

Para situações nunca vistas, precisamos de soluções nunca experimentadas. É hora da CBF mitigar o impacto desta crise com os clubes, é a hora dela devolver riqueza que o futebol brasileiro tanto transferiu a ela ao longo das últimas décadas. 

Como fazer isso? Não sei. Nem os governantes sabem ainda todas as variáveis e soluções para a crise que se instalará, mas estão buscando.  

E é chegada a hora dos clubes olharem para suas principais riquezas (história, torcida e títulos) e construírem um novo rumo. Eles já estão “na lona” há algum tempo, alguns praticamente na UTI. Entubados e precisando de ventilação mecânica para respirar, eles correm risco de morrer ou se entregar a irrelevância implacável de um sistema que segue em frente.

É hora de se unir, alinhar pensamentos e crenças. Trabalhar a indústria do futebol, se abraçar com a tecnologia, se inspirar em benchmarkings bem sucedidos lá de fora, levar meritocracia ao ambiente e disputar bons profissionais com a iniciativa privada.

Você não acredita nisso?

Eu entendo. Houve uma época em que todos acreditavam que só existiam cisnes brancos por aí.