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Fabiano Lacerda

Quem costura nossas relações?

Em tempos de polarização, a história de uma mulher me fez pensar sobre o que nos aproxima e o que escolhemos preservar

Naiana Ribeiro

Naiana Ribeiro •

- há XX semanas
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Nesta semana, fui ao enterro de uma pessoa que encontrei uma única vez: Beré. Conheci ela em uma festa de aniversário e, mesmo naquele encontro breve, ela me fez sentir acolhido, como se houvesse espaço para mim em meio a tanta gente. Fiquei pensando em como algumas pessoas conseguem nos fazer sentir vistos, mesmo quando mal tivemos tempo de conhecê-las.


					Quem costura nossas relações?
​Foto: Freepik

A fé de Beré em Cristo convivia com seu jeito desbocado e irreverente, revelando uma mulher cuja existência era muito maior do que qualquer rótulo.

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Durante o velório, ouvi muitas pessoas falarem dela como alguém que costurava relações. Essa imagem ficou comigo. Pensei nas mãos que unem pedaços de tecido, em quem prepara uma comida para receber alguém e nos gestos de quem cria espaços para os encontros acontecerem. Há pessoas cuja presença continua atuando mesmo depois da partida, pelo que ajudaram a construir ao redor de si.

Essa imagem me fez pensar no Brasil em que vivemos, atravessado por polarizações que ultrapassam as disputas eleitorais e chegam às famílias, às amizades e aos ambientes de trabalho.

Independentemente do resultado das urnas, continuaremos convivendo com diferenças profundas. O desafio não é fingir que pensamos igual, mas descobrir como discordar sem transformar toda divergência em hostilidade.

Digo isso sem neutralidade alguma, afinal, discordo profundamente da extrema direita e de ideias que considero ameaças aos direitos, à dignidade e à liberdade de tantas pessoas. Não acredito que todas as posições políticas sejam equivalentes, nem que conviver exija silêncio diante da injustiça. Há ideias que precisam ser confrontadas e limites que não devem ser negociados.

Ao mesmo tempo, gosto de me fazer algumas perguntas: como lidar com quem defende essas ideias? Como reconhecer a humanidade de uma pessoa sem minimizar as consequências de suas escolhas? E como fazer isso sem exigir de quem sofre os efeitos dessas escolhas que ofereça compreensão e acolhimento a qualquer custo?


					Quem costura nossas relações?
​Foto: Freepik

Não tenho uma resposta simples, mas penso que podemos tentar compreender os caminhos que levaram alguém a pensar de determinada maneira sem justificar suas escolhas. Podemos conversar sem concordar, estabelecer limites sem humilhar e nos afastar de determinadas relações sem precisar transformar o outro em alguém desprovido de humanidade.

Isso também significa aceitar que nem todo vínculo poderá ser preservado. Há relações em que a diferença se torna incompatível com o respeito, e insistir na aproximação pode significar abandonar a própria dignidade ou silenciar diante do sofrimento de outras pessoas.

Costurar relações, portanto, não é manter todos os fios unidos a qualquer preço. É reconhecer quais vínculos podem ser construídos sem que alguém precise ser diminuído para que o encontro aconteça. É também compreender que o diálogo não exige que abandonemos nossas convicções, mas que sejamos responsáveis pela maneira como nos posicionamos diante de quem pensa diferente.

Acredito que essa seja a parte mais difícil: sustentar nossas escolhas políticas sem reduzir as pessoas a elas, reconhecer a complexidade humana sem transformar essa compreensão em desculpa e defender aquilo em que acreditamos sem fazer do desprezo nossa principal forma de expressão.


					Quem costura nossas relações?
​Foto: Freepik

Beré me fez sentir acolhido em um único encontro. Depois que ela partiu, conheci um pouco mais sobre sua história pelas lembranças compartilhadas por quem conviveu com ela. Percebi que uma vida também pode ser medida pelos vínculos que deixa e pela maneira como continua presente na memória dos outros.

Não sabemos quantas vezes nossa atenção muda o dia de alguém ou quantas pessoas guardam uma lembrança nossa sem que jamais venhamos a descobrir. Uma conversa, uma refeição compartilhada ou uma escuta atenta podem parecer gestos pequenos, mas ajudam a tornar a vida menos solitária.

Em um país dividido, não precisamos abrir mão de nossas convicções para reconhecer a humanidade de quem pensa diferente. Também não precisamos preservar todas as relações para provar que somos capazes de dialogar. O que podemos escolher é não transformar a diferença, por si só, em desprezo.

Beré partiu, mas os fios que ajudou a unir continuam nas mãos de quem ficou. Sua lembrança me deixa uma pergunta: em meio a tantas divisões, que tipo de presença estamos sendo na vida dos outros?


					Quem costura nossas relações?
​Foto: Freepik

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