Lula é reeleito presidente do Brasil em disputa apertada e conquista novo mandato até 2030
Petista venceu o senador Flávio Bolsonaro (PL) com 51,75% dos votos válidos, segundo o TSE
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) foi reeleito neste domingo (25) para um novo mandato de quatro anos, ao derrotar o senador Flávio Bolsonaro (PL) no segundo turno das Eleições 2026. Segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) divulgados às 21h58, com 99,97% das seções totalizadas, Lula somou 51,78% dos votos válidos (64.235.635 votos), contra 48,22% (59.815.984 votos) de Flávio, uma diferença de 3,56 pontos percentuais. O tribunal classificou a eleição como matematicamente definida. O resultado já havia sido projetado pelo instituto de pesquisas Datafolha às 20h46.

Com a vitória, Lula chega ao quarto mandato na Presidência e se torna o único candidato a vencer quatro eleições presidenciais no país (2002, 2006, 2022 e 2026). Ele completa 81 anos na terça-feira (27). Com mais de 60 milhões de votos, também registra a maior votação da história do país.
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A virada reverte o cenário do primeiro turno, em 4 de outubro, quando Flávio terminou na frente, com 47,04% dos votos válidos, contra 45,15% de Lula. Nunca antes um candidato havia vencido a Presidência depois de ficar em segundo lugar no primeiro turno. Ao longo da apuração, a liderança alternou entre os dois candidatos, e houve comemorações em diferentes cidades do país conforme os números mudavam. Lula virou o jogo em Minas Gerais e venceu em 13 estados, contra 14 de Flávio.
A participação foi alta: abstenção, votos brancos e nulos caíram, e o segundo turno teve cerca de 5 milhões de votos a mais que o primeiro. Foram 128.204.388 eleitores às urnas (comparecimento de 80,78%), 1.430.184 votos em branco (1,12%) e 2.722.585 nulos (2,12%).
A votação teve um episódio inédito. O Supremo Tribunal Federal determinou o adiamento, por duas horas, do encerramento da votação em todo o país, depois que a campanha do PT reclamou de obstáculos à liberação do transporte público em dez estados, entre eles São Paulo e Bahia. A decisão foi contestada por bolsonaristas nas redes sociais. Ministros de tribunais superiores, porém, descartam a possibilidade de anulação do pleito.

Campanha polarizada
A disputa se deu em um ambiente de forte polarização, com cerca de metade do eleitorado dizendo não votar em nenhum dos dois candidatos. Flávio concentrou o discurso no antipetismo e explorou a crise na cúpula do Judiciário, além do desgaste da imagem do PT após o mensalão e a Lava Jato, com bordões como "tchau, tchau, PT". Os dois candidatos participaram de debates na Band e na TV Globo, a poucos dias da votação.
A campanha de Lula, que no primeiro turno foi considerada fria e desorganizada (o próprio presidente a descreveu como a mais desorganizada desde 1989), mudou de rota após o susto com a dianteira de Flávio. O ex-governador do Ceará Camilo Santana assumiu a coordenação, e governadores reeleitos, como Rafael Fonteles (PI), foram convocados para ajudar. O foco passou a ser as propostas para um novo mandato, com apelo popular, como o reajuste do Bolsa Família e o veto às bets, e a militância voltou às ruas.
Um dos pontos altos foi o ato na avenida Paulista, em 24 de outubro, que reuniu 2 milhões de apoiadores, segundo a campanha. A militância ganhou fôlego a partir de 23 de outubro, quando pesquisa Datafolha apontou empate, com 50% dos votos válidos para cada candidato, embora tenha ficado apreensiva com levantamentos da véspera que indicavam vitória de Flávio.
O “Exército de Lula”
Outro fator foi o canal de WhatsApp "Exército de Lula", criado pelo deputado federal André Janones (Rede-MG), que reuniu 10,8 milhões de seguidores. Eles recebiam "missões", como engajar em publicações, participar de atos e lives e fazer pesquisas com menções desfavoráveis a Flávio. O bordão de Janones, “EXPLODE”, virou meme, e uma das missões, a de se fotografar com as cores da seleção brasileira e fazer o “L” com os dedos, teve ampla adesão.
O canal chegou a ser suspenso em 11 de outubro pelo presidente do TSE, Kassio Nunes Marques, a pedido da campanha de Flávio, e foi liberado depois pelo ministro Floriano de Azevedo Marques. O estilo de Janones desagradou parte do PT: o fundador do partido Paulo Delgado chamou o termo “exército” de “patético”. Quando Janones passou mal no debate da Band e foi internado, o canal ficou 19 horas parado, o que, para petistas da velha guarda, expôs a dependência da campanha em relação a ele.
O que prevê o programa do vencedor
O plano de governo do petista, com 84 páginas e 13 diretrizes, prevê a manutenção do arcabouço fiscal, um novo PAC para impulsionar a indústria, investimentos em transição energética e a continuidade dos programas de transferência de renda. Entre as promessas de campanha estão a consolidação da isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil por mês, o fim da escala 6x1 e a tarifa zero no transporte coletivo. O programa também defende maior tributação sobre os mais ricos.

Desafios
O presidente reeleito terá cerca de dois meses até a posse para tentar reduzir as tensões políticas e econômicas. Na economia, precisará conciliar as metas fiscais com as promessas sociais. A dívida bruta chegou a 82,9% do PIB em agosto, segundo dados do Banco Central, e o governo precisa compensar a perda de arrecadação provocada pela ampliação da isenção do Imposto de Renda. Analistas apontam que o mercado acompanha com atenção os sinais sobre os gastos públicos. Após a vitória, o ETF do Ibovespa recuou 11% e o real futuro caiu 9%.
No Congresso, Lula deve contar com o apoio de partidos que já integram a base, como PSD e MDB, além de setores do centrão, mas a oposição de direita deve ter bancada mais forte no Senado, o que tende a dificultar a governabilidade. Outra frente é a relação com os Estados Unidos, em meio à negociação em torno do tarifaço americano contra o produto brasileiro. O Judiciário, dividido durante a campanha, também aparece como foco de preocupação do governo.

Direita em reorganização
A derrota de Flávio deve abrir uma disputa por protagonismo no campo bolsonarista. O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), reeleito no primeiro turno, é visto como um dos nomes com espaço para ocupar a liderança da direita nos próximos anos.
Legado e sucessão
Lula já é o segundo presidente que mais tempo ficou no cargo no Brasil. Ao fim do quarto mandato, somará 16 anos, aproximando-se dos 18 de Getúlio Vargas, com quem gosta de se comparar. Ambos voltaram à Presidência após um período fora do poder (12 anos no caso de Lula, 5 no de Getúlio) e serão os dois políticos que deixaram o cargo com mais idade: Lula terá 85 anos no fim de 2030.
Sem possibilidade de nova reeleição consecutiva após 2030, Lula já declarou que esta foi sua despedida das urnas e terá de organizar sua sucessão dentro do campo governista. O vice na chapa é Geraldo Alckmin (PSB).
Próximos passos
O TSE deve diplomar os eleitos até 19 de dezembro. A posse está prevista para 5 de janeiro de 2027.
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