Traumas

Mais de 60 comunidades quilombolas foram afetadas por chuva de 2021 na BA; movimento estima prejuízo de R$ 5 milhões

Dentre os 27 municípios onde ficam essas famílias, destacam-se: Bom Jesus da Lapa, Palmas de Monte Alto, Simões Filho, Ibipeba, Vitória da Conquista, Serra do Ramalho, Anagé e Itacaré

Redação iBahia
28/06/2022 às 21h19

4 min de leitura
Foto: Divulgação

Pelo menos 63 comunidades quilombolas foram afetadas pelas chuvas e enchentes que atingiram a Bahia em dezembro de 2021. A estimativa é de que os prejuízos provocados pelo temporal passem de R$ 5 milhões em perdas na lavoura, de animais e moradias.

Os dados foram divulgados ao iBahia pelo Movimento Estadual das Comunidades Quilombolas da Bahia (Cenaq) nesta terça-feira (28). O balanço é fruto de um levantamento feito pela entidade em conjunto com a Secretaria Estadual de Relações Institucionais (Serin).

Segundo o levantamento, pelo menos 27 cidades do estado estão entre as afetadas. Entre elas, Bom Jesus da Lapa, Palmas de Monte Alto, Simões Filho, Ibipeba, Vitória da Conquista, Serra do Ramalho, Anagé e Itacaré.

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Somente em Vitória da Conquista, no sudoeste da Bahia, foram 14 comunidades atingidas, sendo a cidade com maior número de famílias prejudicadas no estado. Uma dessas comunidades é a de Boqueirão.

Lá, Claudenice dos Santos viu sua plantação de milho e feijão ir por “água abaixo”. O desespero foi ainda maior, pois o marido, Joel, na época tinha sofrido o segundo AVC.

Já Celeste precisou contar com ajuda de vizinhos para salvar a casa, que ficou com risco de desabar após as chuvas que atingiram a região.

No Quilombo Barreiro do Rio Pardo, também em Vitória da Conquista, famílias tiveram que sair às pressas de suas casas utilizando helicóptero, por conta do aumento do nível do Rio Pardo, devido à abertura das comportas da Barragem Machado Mineiro, em Minas Gerais.

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O quilombola Pedro Vieira dos Santos, de 50 anos, ribeirinho nascido e criado no quilombo, presenciou as águas do rio inundarem sua plantação de milho, feijão, banana e hortaliça, totalizando um prejuízo de mais de R$ 10 mil.

Sem alimentos e sem renda, ele precisou se reinventar, e hoje, as águas do rio são utilizadas na irrigação da roça, agora, a alguns metros de distância das margens.

Problema maior

Segundo o Cenaq, histórias como essas ecoam pelo país, sendo o nordeste brasileiro uma das regiões mais vulneráveis às mudanças climáticas.

As fortes chuvas na Bahia ativaram o alerta para a emergência climática, pois os locais mais atingidos foram áreas da zona rural.

O Movimento aponta que é preciso considerar a vulnerabilidade, agravada pela ação humana com assoreamento dos rios, perda de vegetação que segura o solo das matas ciliares que protegem as margens fluviais.

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Nas cidades, os alagamentos são agravados pela impermeabilização do solo e canalização de rios e canais que impedem a absorção da água.

Na COP26, o Governo Federal se comprometeu a reduzir 50% das emissões dos gases de efeito estufa da atmosfera até 2030. Mas, na contramão o desmatamento aumentou vertiginosamente no Brasil.

“A atmosfera mais quente é capaz de armazenar mais vapor d’água, para chegar ao ponto de saturação, mais água precisa ser retirada da superfície via evaporação ou evapotranspiração. Isso agrava as condições de estiagem com o prolongamento dos períodos de seca. Do outro lado, uma vez a atmosfera mais ’saturada‘, têm-se mais vapor d’água para se condensar, produzindo chuvas mais intensas e bastante concentradas”, explicou Alexandre Costa, físico com doutorado em Ciências Atmosféricas pela Universidade do Estado do Colorado e professor da Universidade Estadual do Ceará (Uece).

A ausência de vegetação para proteger o solo e as nascentes aumenta o risco de enchentes cada vez mais devastadoras.

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