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Investigação

Três câmeras do quilombo em que Mãe Bernadete foi morta não funcionavam

Assassinato da ialorixá e líder quilombola completou um mês no domingo (17)

Redação iBahia • 18/09/2023 às 12:10 • Atualizada em 18/09/2023 às 21:45 - há XX semanas

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					Três câmeras do quilombo em que Mãe Bernadete foi morta não funcionavam
Foto: Divulgação / Conaq

A defesa da família de Mãe Bernadete, ialorixá e líder religiosa morta a tiros dentro de um quilombo na Região Metropolitana de Salvador, disse que três câmeras instaladas pelo governo no local não funcionavam, por falta de recursos para substituir o equipamento. O crime completou um mês no domingo (17).

Mãe Bernadete foi assassinada mesmo protegida pelo Programa de Proteção aos Defensores de Direitos Humanos (PPDDH) do Governo Federal. O crime aconteceu no quilombo Pitanga dos Palmares, onde a ialorixá vivia. Ela assistia televisão com três netos adolescentes, quando dois homens invadiram o imóvel e a executaram.

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De acordo com o advogado David Mendéz, representante da família de Mãe Bernadete, o custo da manutenção era de R$150. O orçamento total do programa é de R$ R$ 1.081.095,74.

Segundo o g1 Bahia, o acordo com a ONG Ideas, responsável por gerir o programa, o valor foi estipulado por convênio assinado entre os governos federal e estadual, com os recursos ofertados àquela época.

O termo entre a ONG e o Governo da Bahia foi assinado em 2022 e o vínculo vence em dezembro de 2023.

Segundo a ONG, as câmeras foram instaladas em 2021, pela equipe técnica que gestou o PPDDH antes do Ideas assinar o contrato. No total, o território onde Mãe Bernadete viviam possuía sete câmeras no total. Segundo a ONG, quatro contribuíram para o processo de investigação do assassinato e três não estavam com funcionamento adequado.

Em nota, a ONG Ideas afirmou que implementar as câmeras de vigilância, a equipe técnica responsável dialoga com o defensor para entender a melhor estratégia a ser utilizada. Além disso, a conexão a uma central de monitoramento é realizada quando os defensores do território entendem que essa estratégia é a mais adequada.

Recurso limitado

Em nota, a ONG admitiu que o recurso destinado à implementação de equipamentos de segurança é limitado "não só no PPDDH da Bahia, mas em todos os estados que possuem essa política pública".

Ainda segundo a instituição, a metodologia de proteção do programa não se concentra em fornecer equipamentos emergenciais e que o tem como princípio realizar a articulação entre os órgãos públicos para a efetivação de direitos.

"Câmeras só são instaladas em casos excepcionais, diante da análise de risco. Como o quilombo já tinha câmeras instaladas por outra equipe técnica, a prioridade de uso do recurso foi instalar em outras comunidades que estavam sob grande ameaça e ainda não tinham nenhum equipamento do tipo", pontuou a ONG Ideas.

O coordenador do Instituto Ideas, Wagner Moreira, também falou sobre o recursos ser limitado.

"Reconhecemos que três câmeras não estavam com o funcionamento adequado. É uma falha, mas essa falha se deve também ao pouco recurso disponível para esse tipo de estratégia de segurança", afirmou.

Suspeitos presos

Três homens foram presos por envolvimento na morte da líder quilombola e ialorixá Mãe Bernadete no dia 4 de setembro. A informação foi confirmada durante coletiva de imprensa da Polícia Civil.

Durante a coletiva, o Secretário de Segurança Pública do estado, Marcelo Werner, afirmou que os presos tem diferentes participações no crime: (1)Preso suspeito de ser um dos executores do crime; (2) preso por guardar as armas do crime e preso por porte ilegal de arma de fogo; e (3) preso pela receptação dos celulares da líder quilombola e de familiares, roubados durante o homicídio.

Um dos envolvidos no crime teve o mandado de prisão cumprido na sexta-feira (1°) por equipes do Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP), na cidade de Araçás, a 105 km de Salvador.

“Ele relata que foi um dos executores e todas as provas o colocam na cena do homicídio. O seu depoimento é indispensável para esclarecer a dinâmica do fato e o modus operandi dos autores”, delegada-geral da Polícia Civil, Heloísa Brito.

Outros dois suspeitos foram presos em Simões Filho, município onde aconteceu o crime. Um dos homens presos foi um mecânico, que guardava as possíveis armas do crime. Durante uma operação, ainda na sexta, foram encontrados com ele duas pistolas com munições e três carregadores, dois deles estendidos. O armamento estava em uma oficina na comunidade de Pitanga de Palmares, na zona rural de Simões Filho, a mesma região onde fica o quilombo onde Mãe Bernadete foi assassinada.

O mecânico que guardava as armas foi autuado em flagrante por porte ilegal de arma de fogo. Ainda segundo a SSP, as duas armas apreendidas são compatíveis com os projéteis recolhidos no local do crime.

Um terceiro envolvido no crime foi preso no dia 25 de agosto. De acordo com a SSP-BA, ele é suspeito pela receptação dos celulares da líder quilombola e dos familiares que foram feitos de reféns, roubados no dia do crime.

Ainda segundo as investigações, foi identificado que os envolvidos são integrantes de um grupo criminoso responsável pelo tráfico de drogas e também homicídios naquela região.

A Secretaria de Segurança da Bahia informou que foram coletados mais de 60 depoimentos de familiares, testemunhas e outras pessoas. Ações em campo, alinhadas com atividades de inteligência policial, e uso de recursos tecnológicos também foram utilizados na investigação. Todo o material encontrado na cena do crime é periciado pelo Departamento de Polícia Técnica (DPT).

Relembre crime

Mãe Bernadete foi assassinada no dia 17de agosto. A ialorixá e líder do Quilombo Pitanga dos Palmares foi atacada a tiros onde morava na comunidade, em Simões Filho, na Região Metropolitana de Salvador.

Na noite em que os homens invadiram o loca, Mãe Bernadete estava acompanhada de Wellington Gabriel de Jesus dos Santos, de 22 anos, que estava com ela na noite do crime. Além dele, estavam com a ialorixá dois adolescentes de 13 e 12 anos.

Depois de cometerem o crime, o suspeitos levaram os celulares da líder quilombola e dos reféns. Wellington entrou em contato com outras pessoas que vivem no quilombo por meio de um aplicativo de mensagens que estava aberto no computador.

Depois disso, ele deixou os familiares com um vizinho e foi até o terreiro de candomblé, que fica dentro do Quilombo Pitanga dos Palmares. Lá, ele ligou para a polícia.

A Polícia Civil informou, em coletiva no dia 18 do mesmo mês, que as armas utilizadas no crime foram de uso restrito. Investigações preliminares indicam que Mãe Bernadete foi morta com tiros de calibre 9mm.

"A perícia localizou vários vestígios de calibre 9mm. Por essa ser uma arma de uso restrito, ela é usada por indivíduo de índole mais violenta, que tem coragem para cometer o crime, o que requer uma atenção maior da investigação", disse a delegada Andréa Ribeiro, diretora do Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP).

Depoimentos

Wellington Gabriel de Jesus dos Santos contou que a ialorixá pensou que estava sendo assaltada quando os criminosos que a mataram invadiram a casa onde ela morava com a família.

"É assalto?", perguntou Mãe Bernadete quando os dois homens armados, usando capacetes de motociclista, a renderam.

Ainda segundo Wellington, os homens pegaram o celular da avó e a mandaram desbloquear o aparelho. Eles também roubaram os celulares dos dois adolescentes e exigiram que eles fossem para um dos quartos da casa.

Depois disso, um dos homens foi até o quarto onde Wellington estava e o mandou deitar no chão, usando uma expressão homofóbica. "Deite no chão, seu viado", exigiu. Ao sair do cômodo, o homem fechou a porta.

Em seguida, o jovem ouviu diversos disparos. Quando ele saiu do quarto, encontrou a avó morta no chão da sala, já morta.

O conteúdo do depoimento foi obtido com exclusividade pelo Jornal Hoje. Ainda segundo o relato do neto da ialorixá, os criminosos tinham entre 20 e 25 anos, eram negros e usavam roupas pretas, capas de chuva e capacetes. Eles entraram e saíram do quilombo usando uma motocicleta.

Wellington disse também que não existe conflito agrário envolvendo o quilombo e que não se recorda de inimizades ou ameaças recebidas pela avó. No entanto, ele mencionou que Mãe Bernadete tinha muitos medos. Especialmente após o assassinato do filho dela, que também é pai de Wellington, o "Binho do Quilombo".

O jovem ainda relatou à polícia que Mãe Bernadete "pegava no pé" de um policial militar da reserva que mora perto do quilombo. Os dois teriam muitos desentendimentos.

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