Salvador

Vizinhos da Concha Acústica comemoraram retorno do espaço

Moradores vão acompanhar reabertura com shows do projeto Eu Sou a Concha

Redação iBahia
11/05/2016 às 18h48

9 min de leitura
Morando há 20 anos em um apartamento que dá vista privilegiada para a Concha Acústica do Teatro Castro Alves (TCA), no Campo Grande, dona Iraci Bispo, 74 anos, já perdeu as contas de quantos shows assistiu ali. “Roberto Carlos foi lindo! Um dos últimos que vi. E quando ele começou a falar com o pessoal do prédio? Aí foi demais. Mas teve vários de Djavan também, Betânia, Gil, Caetano, Chico… Muita gente. Fora uns roqueiros que vêm de vez em quando, evangélico, católico. Tudo já passou aqui”, enumerava ela, enquanto mostrava o camarote particular. A partir desta sexta-feira (13), o espaço na janela de dona Iraci – que é até bem generoso – vai ficar mais concorrido. A família deve vir assistir todos os shows do festival Eu Sou a Concha, que começa com apresentação de Maria Bethânia e Margareth Menezes e vai até segunda-feira, com show extra dos Novos Baianos, anunciado nesta quarta-feira (11). As entradas para a primeira apresentação se esgotaram em duas horas e, atendendo a pedidos, o governador Rui Costa anunciou um novo show, com bilhetes sendo vendidos a partir quinta (12), no site www.ingressorapido.com.br.

Nova Concha mantém arquibancadas coloridas. Festival começa nesta sexta-feira (13)

(Foto: Evandro Veiga/CORREIO)

festival marca a entrega do equipamento, que estava fechado para reformas desde dezembro de 2013. A requalificação faz parte da primeira fase do projeto Novo TCA, que ainda deve ampliar todo o complexo do teatro. Só nesta primeira etapa, foram investidos R$ 80 milhões pelo governo do estado, além de um aporte de R$ 10 milhões do Ministério da Cultura.“Quero muito ver Bethânia, mas também gosto de Carlinhos. É um baiano que eu gosto muito. Na verdade, eu gosto é de música, sabe? Morar aqui é um privilégio. Claro que a gente paga caro, porque minha pensão vai toda embora no aluguel, mas não penso nunca em sair daqui”. O dono do apartamento até já ofereceu outro imóvel, na Barra, mas ela não quer nem saber – afinal, não está perto só do TCA, mas de tudo que precisa. Do sexto andar, ela consegue ver tão bem que acompanhou, de longe, a visita que o governador fez ao local, na manhã desta quarta-feira, para vistoriar os últimos reparos antes do festival. No início, até parecia que a nova cobertura que fica em cima do palco – na verdade, chamada de passarela técnica, que abriga também um gramado suspenso – pudesse atrapalhar a visão, mas isso não aconteceu. O ângulo da casa de dona Iraci é de fazer inveja.iBahia faz prévia da abertura e visita Nova Concha; confira as fotosAs arquibancadas nas cores do arco-íris continuam lá, assim como o palco “diamante”, mas ambos foram recuperados. Há, ainda, seis camarotes – dois que têm tamanho “fixo”, com capacidade até 20 pessoas e outros quatro que podem ser divididos em espaços menores – e camarins reformados. Também foi construída uma casa de máquinas e um estacionamento de cinco andares com 300 vagas para carros. Nos dias do festival, o estacionamento será gratuito. Depois, deve ser lançada uma licitação para que uma empresa opere um estacionamento privado no local. A renda será destinada ao custeio do TCA.Teatro sustentávelPara o governador Rui Costa, a nova Concha é um “equipamento belíssimo”. “A Bahia ganha, nossa cidade ganha e é a cultura da Bahia falando mais alto. Nenhum estado brasileiro – e estou com a autoestima lá em cima mesmo – tem na cultura seu marco tão forte, sua sinergia tão forte com o povo como na Bahia. Já nesse final de semana, vamos receber visitantes de todos os estados, pessoas de todo o Brasil que compraram os ingressos”, afirmou, pouco após a visita.

O governador Rui Costa visitou a nova Concha na manhã desta quarta-feira (11)
Foto: Evandro Veiga/CORREIO

De acordo com o governador, logo após a inauguração, deve ser lançado o edital de licitação para a reforma da Sala do Coro do TCA e, em seguida, a sala principal. No entanto, as reformas não devem ser simultâneas, para não fechar os dois espaços de uma vez. “Vamos colocar a sala principal dentro das normas atuais, inclusive melhorando acústica, conforto e buscando uma parceria com a iniciativa privada. Já sugeri a parceiros, porque estou querendo fazer o telhado de placa solar para tornar o teatro autônomo quanto a energia.  Isso vai fazer com que a conta, que é alta, se pague com a geração das placas solares no telhado”, completou. No domingo, além de ser o dia primeiro show dos Novos Baianos, também haverá uma programação na nova Esplanada do TCA – que é uma área de 2.600m² em cima do estacionamento. Lá, ficarão food trucks (o Guerrilha Truck, com hambúrgueres, o Family Food Truck, com tapiocas e crepes, o Garage Food Truck, também com hambúrgueres gourmet, e o Coronado, com sorvetes artesanais) das 11h às 17h. Os preços ficarão entre R$ 5 e R$ 25. Além disso, haverá uma Biblioteca Móvel, que levará parte do acervo da Fundação Pedro Calmon, além de brincadeiras e leituras ao ar livre. Já no final do evento gastronômico, às 16h30, a Orquestra Sinfônica da Bahia (Osba) fará um concerto especial. Memórias de uma ConchaA ideia do evento gastronômico deve agradar à estudante de doutorado Evelin Balbino, 28, que chegou a sugerir uma ocupação parecida para a Esplanada do TCA, quando viu o novo espaço. “Podia servir para eventos com a Feira da Cidade”, comentou, enquanto também mostrava a vista que tem para a Concha. Vizinha de dona Iraci, no sexto andar do Edifício Lótus, ela se mudou dois anos atrás – já durante a reforma do equipamento. Na época, o barulho “infernal” da construção fez com que ela pensasse em se mudar. Mas as memórias que tinha da velha Concha foram mais fortes. “O último que vi foi de Gil e foi fantástico. A Concha estava precisando de reforma, mas a cidade já estava carente da Concha. Aqui, percebi que vou ver o show inteiro. Ney Matogrosso é o que mais quero ver! Da última vez que ele veio aqui, foi super caro e eu não tinha grana”, contou. A aposentada Célia Góes, 60, também é novata entre os sortudos com vista para o palco da Concha, mas já chegou com sua própria bagagem de lembranças de apresentações no espaço antigo. Um show de Lenine, quando ainda morava em Camaçari, na Região Metropolitana de Salvador (RMS), é um dos que lembra com carinho. “Minha filha conseguiu comprar ingressos para o segundo dia, mas acho que daqui mesmo dá para a gente assistir. Antes, o barulho incomodava, era muita poeira. Agora, vai ser um barulho sofisticado e com horário definido”, brincou.

A aposentada Célia Góes também mostra sua vista privilegiada 

Foto: Evandro Veiga/CORREIO

<iframe width=”640″ height=”360″ src=”https://www.youtube.com/embed/dRzk-uz1238″ frameborder=”0″ allowfullscreen></iframe>E não vão faltar novos shows para elas acompanharem da varanda de casa. Segundo o diretor do TCA, Moacyr Gramacho, já há uma procura de cerca de 50 propostas de pautas para a Concha Acústica. “Sei que Djavan está interessado em lançar o DVD dele aqui. Esse evento de inauguração é uma entrega e já vamos abrir pauta, mas eu pessoalmente quero ter uns 20 dias de ajuste. É a primeira vez que a gente está ouvindo essa nova sonoridade”, explicou.Até sexta-feira, operários e equipe técnica vão trabalhar nos últimos ajustes tanto da Concha quanto do festival. Mas não se surpreenda se, mesmo durante os shows, avistar um carrinho de mão por lá. De acordo com a cenógrafa Renata Mota, o conceito artístico do evento vai transformar os elementos da obra no espetáculo. “A gente tem carrinhos de mão que são ‘micropalcos’, que serão o palco de dançarinos. Vão ter iluminação, energia, refletores em capacetes…”. Há, ainda, atenção especial para uma grande cortina feita de mangueiras de jardim brancas e transparentes no palco.“A mangueira é um elemento pensado ma cor, para que fosse transformado em luz, com possibilidade de absorver várias coisas. Se Maria Bethânia quiser trabalhar com a luz amarela, a mangueira vai responder a essa cor. Ela vai responder a qualquer cor que a gente quiser colocar. Ela está aço também para trazer o conceito do espaço de transformação de obra no nosso espaço de espetáculo, artístico”. *Colaboraram Oemeson Moreira e Roberto Paim, da 10ª turma do programa Correio de Futuro.