Carnaval

Apoiador, folião e admirador: Caetano Veloso e a relação próxima com os blocos afros de Salvador 

Relação do artista com esses blocos que ocupam as ruas de Salvador há quase 50 anos durante o carnaval é de admiração mútua

Cláudia Callado
03/08/2022 às 7h30

5 min de leitura
Caetano Veloso em 2009, ao sair no Ilê Ayiê / Foto: Thiago Bernardes / Divulgação

Apesar de ser baiano, Caetano Veloso não é propriamente um artista do carnaval. Não puxa trio, nem canta axé, mas está sempre presente. Para os blocos afros, ele sempre foi um apoiador. A relação do artista com esses blocos que ocupam as ruas de Salvador há quase 50 anos durante o carnaval é de admiração mútua. 

Para o Ilê Aiyê, Caetano compôs, ao lado do filho Moreno Veloso, um canto de afoxé. Os versos, gravados durante a turnê Ofertório, exaltam o bloco e diz: “como é bonito de se ver”, “sua beleza se transforma em você” e “maneira mais feliz de viver”. 

“Moreno Veloso e eu alternando o canto desse afoxé, tendo Zeca Veloso no baixo e Tom Veloso, além do violão, cantando o doce grito final, é o carinho mais profundo que posso imaginar fazer no Carnaval da Bahia, essa entidade que tem tanto valor para nós”, disse Caetano ao lançar a música. 

Antônio Carlos Vovô, conhecido como Vovô do Ilê e um dos fundadores do bloco, reforça que a relação de Caetano com o bloco sempre foi estreita. “Ele levou a Bahia para o mundo, a cultura baiana, os blocos afro. A contribuição de Caetano para a gente é enorme”, pontuou. 

Também no repertório de Ofertório, Caetano incluiu “Deusa do Amor”, do Olodum, cantada ao lado de Moreno.

No Olodum, ele foi homenageado nos anos 80, no período de ativação do bloco. “Caetano Veloso fez um movimento tropicalista fantástico e quando começamos a ativar o bloco Afrolodum a partir de 83, dois personagens eram importante para nós: Gilberto Gil e Caetano Veloso”, contou João Jorge, presidente do bloco afro.

“Caetano Veloso é nosso parceiro na guerra contra a pobreza, a opressão, a falta de visão do mundo e tem sido também um companheiro da sensibilidade das coisas nova. Das canções, do comportamento e da atitude”, completou.

Nós somos Caetano Veloso, Caetano Veloso é Olodum e vamos juntos

João Jorge, presidente do Olodum

O poeta e amigo pessoal de Caetano, James Martins, reforça que a ligação do artista com os blocos afros foi passado para canções.

“Ele sempre teve com o Ilê, com Olodum, com o Badauê… no ano que surge o Badauê, ele lançou o Cinema Transcendental que traz a letra ‘misteriosamente, o Badauê surgiu…’; na música ‘Beleza Pura’, ele traz ‘moço lindo do Badauê, beleza pura, do Ilê Aiyê’; ‘Eu sou Neguinha’, que dialoga diretamente com ‘Eu Sou Negão’, de Gerônimo… enquanto tudo isso estava acontecendo, ele estava processando tudo isso em tempo real”, analisou.

Versão folião

Além de cantar e receber homenagens dos blocos afro, o cantor também se divertiu como folião. João Jorge relembra de quando ele saia no bloco, no carro de som e distribuía cervejas para quem passava.

“No caso do Olodum, um carnaval específico em 1993, foi dedicado aos tropicalista, entre eles Caetano Veloso. E ele passou a desfilar no loco, em cima do carro de som”, disse.

“Quando estava no Olodum como diretor de artes, ele sempre saia no bloco. Depois eu fundei o cortejo eu convidei Caetano e Paula [Lavigne, esposa do cantor] para serem padrinho e madrinha do cortejo afro, assim como Gilberto Gil e Flora [Gil, esposa do artista]”, relembrou Alberto Pitta, fundador do Bloco Afro. 

A relação de Caetano com o Cortejo é antiga. Pitta lembra que em 1999, primeiro ano de desfile do Cortejo Afro, Carlinhos Brown recuperou a “Caetanave”, trio elétrico utilizado por Caetano após voltar do exílio em Londres, na década de 70, e fez uma homenagem a ele. 

“Nos 20 anos do Cortejo, ele volta a sair no circuito ao lado de Mariene de Castro. Desde aquela época e até hoje, ele segue colaborando”, pontua.

Em 2018, Caetano foi homenageado pelo bloco, com o tema “Milagres do Povo”, um dos sucessos do artista.  

Neste mesmo ano, Caetano pediu ajuda para colocar o bloco na rua. “Vamos colaborar com o crowdfunding do Cortejo Afro? Mesmo que você não vá desfilar na Bahia, essa roupa é linda para brincar no Rio, em São Paulo, em qualquer lugar do Brasil ou do mundo e vai arrasar. O Cortejo Afro precisa urgentemente de grana para conseguir botar o bloco na rua, justamente nos seus 20 anos”.

James Martins lembra da reação do artista e de Gilberto Gil ao verem, pela primeira vez, o Ilê passar.  

“Estiveram conectados com os blocos afros em seu nascedouro, com o Ilê, com o Olodum, ele gosta de escrever sobre a primeira vez que eu viu o Olodum na avenida descendo a Castro Alves em 87, no ano do ‘Faraó’ e viu o bloco descendo sem saber o que era. Eles vieram descendo e cantando “Eu falei faraó, ê Faraó” e ele ficou impressionado. Aquilo mudou o mundo, segundo as palavras dele mesmo”, contou James.

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