Mistura de ritmos

As misturas e a renovação de Caetano Veloso na música: do samba ao rock, um doce bárbaro da cultura brasileira

Além da pluralidade nos ritmos, a forma de expressar o que sente e o que pensa em uma canção está entre as características mais marcantes do artista

Redação iBahia
02/08/2022 às 14h47

6 min de leitura
Foto: Reprodução/ Instagram/ @caetanoveloso

Ouvir Caetano Veloso é como dar play em um mix de gêneros. Quer Bossa Nova? Você encontra no disco ‘A Bossa de Caetano’, dos anos 2000. Axé? Basta colocar ‘Meia Lua Inteira’, composição de Carlinhos Brown, para tocar. Rock? Fácil, inclua o disco ‘Cê’, o vigésimo do artista, em sua playlist. Reggae, samba, balada, folk, e tantos outros ritmos, é um fato, Caetano Veloso deixa sua marca.

A pluralidade presente no estilo do baiano, que nesta semana completa 80 anos, seja dentro ou fora dos palcos, é o que faz o verbo ‘Caetanear’ ser tão puro e significativo, além de justificar o encantamento de gerações.

“Caetano Veloso de fato teve muitas fases durante a carreira. Gravou discos de samba, de bossa nova, de rock, mas eu diria que sua principal marca é a MPB. Esta sigla, que rotula uma parte da música brasileira, é um estilo que tem forte influência do samba e da bossa nova, mas que incluiu elementos da música pop global também”, afirma o crítico musical Marcelo Argôlo ao iBahia.

Peça fundamental na criação do Tropicalismo, que pregava justamente a mistura de diferentes estilos musicais, desde o rock psicodélico a música erudita, a trajetória do baiano se assemelha a do movimento dos anos 60.

“No final dos anos de 1960, o seu trabalho tropicalista era a grande novidade, mas depois ganhou um lugar consagrado, de cânone. Acredito que ele consegue ainda hoje ocupar uma posição de destaque na música brasileira por sua habilidade de fazer as suas características de artista da MPB dialogarem com as novidades que vieram surgindo depois da Tropicália”, conta Marcelo.

Passado o tropicalismo, Caetano mergulha em um novo modo de fazer música, podado pela ditadura que o obrigou a buscar exílio na Inglaterra em 1969. Seu álbum lançado pelo selo Famous, da Paramount Record, o ‘Caetano Veloso’, traz em sua maioria canções em inglês.

No disco, seu terceiro da carreira, o artista ainda consegue viver um momento de estreia, foi nele a primeira vez em que tocou violão para uma gravação, incentivado pelo produtor musical Ralph Mace.

Ainda em Londres, Caetano lançou o álbum ‘Transa’, que mistura não só o inglês com o português como traz também para o público um misto de ritmos com o rock e as percussões brasileiras, além do som de berimbau e o próprio tocado mais uma vez por ele. O álbum foi eleito pela revista Rolling Stone como o décimo melhor disco brasileiro de todos os tempos.

Anos depois, em entrevista, Caetano descreveu o disco, que traz homenagens para Maria Bethânia e canções censuradas pela ditadura, como ‘A Little More Blue’, como um documento da depressão e também um registro de como ele conseguiu se tornar um músico mais criativo e pessoa mais forte.

A carreira do veterano por si só já é um grande marco para a cultura brasileira, mas alguns pontos valem sem ressaltados, como o grupo Doces Bárbaros, formado por ele, Maria Bethânia, Gal Costa e Gilberto Gil nos anos 70, com o retorno para o Brasil.

O projeto, idealizado por Bethânia, celebrou os 10 anos de carreira dos artistas e deu ao público o álbum ao vivo considerado como uma obra-prima da música nacional. Rotulado como uma “banda hippie” dos anos 70, o grupo rodou o país com uma pausa em Florianópolis após a prisão de Gil por porte de drogas.

Na época, o artista precisou ser internado em uma clínica para desintoxicação e só deixava o local para se apresentar ao lado dos amigos. Toda história do Doces Bárbaros foi registrada no documentário ‘Os Doces Bárbaros’, dirigido por Jom Tob Azulay.

Até em sua inserção em outros movimentos, Caetano levava sua característica musical mais forte, a de cantar o regionalismo e imprimir em estilos diferentes, suas questões políticas, sociais e comportamentais, como conta Marcelo.

“Além dessa questão mais do ponto de vista musical, Caetano teve também uma grande habilidade de traduzir em canções sentimentos, movimentos e reivindicações da época. Salvo a exceção da sua nítida não compreensão popularização das tecnologias digitais no cotidiano, ele sempre soube exprimir bem as questões políticas, sociais e comportamentais de cada época em suas músicas”.

A chegada dos anos 2000 traz para o público um Caetano Veloso ainda mais romântico em suas baladas. Os fãs ainda aproveitam os resquícios da versão de ‘Sozinho’ de Peninha, que entrou para a trilha da telenovela ‘Suave Veneno’ (1999) e se debruçam sobre aquele estilo que nunca deixou de ser dele, a MPB, com o lançamento de ‘A Bossa de Caetano’.

“Na música rotulada como MPB, há 2 características que são preponderantes: 1) uma forte presença da canção, com temas cotidianos e uma certa erudição na poética das letras; e 2) o violão (às vezes o piano) como principal instrumento acompanhante, com harmonias também mais sofisticadas. O trabalho de Caetano Veloso foi um dos que mais trouxe contribuições para a formação desse estilo, por isso acredito que essa seja a melhor de resumir e explicar o seu trabalho, mas sem perder de vista o seu desdobramento em vários estilos”.

Para o crítico musical, além da pluralidade nos ritmos, a forma de expressar o que sente e o que pensa em uma canção são as características mais marcantes do artista e as que fazem com que ele continue sendo uma das maiores estrelas do país.

“Acredito que esses dois pontos foram fundamentais para que seu trabalho continuasse sempre sendo referência para novas gerações e ter relevância para a cultura brasileira”.

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