Liberalismo, prisão, exílio e críticas à Bolsonaro: como Caetano Veloso está presente na política brasileira 


Foto: Divulgação / Globoplay

Prestes a completar 80 anos, Caetano Veloso pode ser descrito de várias formas. Cantor, compositor, artista… e agente político. Um dos grandes nomes da música brasileira, o baiano de Santo Amaro não restringiu sua importância à música. Não que fosse pouco, mas o cantor sempre levou ao pé da letra a máxima que tem gerado discussões atualmente: artista tem que se posicionar.  

Apesar de nunca ter se candidatado a nenhum cargo eletivo, ele sempre esteve envolvido com questões sociopolíticas. O crítico musical e historiador de música popular brasileira Rodrigo Faour defende que Caetano “pensa com a própria cabeça”. Parece óbvio, mas o que o especialista quer dizer é que o artista sempre fez questão de não seguir a “manada”.  

“Muita gente tenta inclusive o ridicularizar, dizendo que ele muda de opinião. Mas ele muda de opinião porque não tem medo, porque amadureceu sobre determinada coisa. Caetano sempre procurou ter uma opinião própria sobre tudo, mesmo que seja mais radical para um lado ou para o outro. Ele fez isso desde o início. Caetano tem sempre uma carta na manga”, defende. 

Uma das situações mais recentes em que o cantor mudou de opinião é em relação às eleições de 2022. Caetano nunca escondeu sua predileção por Ciro Gomes, candidato à presidência pelo PDT, tendo votado nele em 2018. No entanto, com Luiz Inácio Lula da Silva aparecendo como líder nas pesquisas para as eleições de 2022, ele já declarou que mudou seu voto. 

Em entrevista ao Roda Viva, em dezembro do ano passado, ao ser questionado se votaria em Lula em 2022 para tirar Jair Bolsonaro da presidência, ele afirmou: “total”.  

O escritor Tom Cardoso, autor do livro “Outras palavras – Seis Vezes Caetano”, define Caetano como um “camaleão” quando o assunto é política. No livro, o biógrafo traz um capítulo sobre as opiniões políticas do cantor. Questionado sobre a importância desse tema na vida do artista, Tom listou uma série de situações em que Caetano mudou de opinião – e causou polêmica por isso. 

“Ele começa dizendo que tem uma postura liberal. Tem uma postura de defender o liberalismo em uma época em que era moda todo mundo ser de esquerda. Tem um entusiasmo com o [Fernando] Collor e chega a elogiar a política econômica dele. Ele bate muito no Lula em determinado momento também. E toma um pito da dona Canô, ela diz: ‘você é apenas um cantor de rádio. Não pode falar mal de uma figura como o Lula’”, lista. 

Para Tom, é na política que mais fica mais nítido que para Caetano mudar de ideia não é um problema, uma vez que ele sabe do que está falando.  

“Quando muda de ideia, ele sempre tem um embasamento, um estofo cultural muito forte e que faz com que ele se sinta à vontade até para dizer as coisas que ele diz. Porque ele se sente seguro para isso e de fato ele é um cara acima da média. Que lê de tudo, livros sobre filosofia, sociologia, enfim é um cara com muito embasamento teórico, mas que ao mesmo tempo se contradiz em várias afirmações”, analisa.  

Críticas à Bolsonaro 

Caetano e diversos artistas encabeçaram campanha ‘Ato pela Terra’ / Foto: Reprodução / Redes Sociais

Na atualidade, Caetano se posiciona com frequência contra Bolsonaro. Em entrevista à agência AFP, em março deste ano, ele definiu o momento do Brasil como “horrível” e fez um paralelo ao período da ditadura brasileira.  

“Já vivi sob ditadura militar, fui preso, exilado, mas hoje, em plena democracia, coisas às vezes até mais grosseiras são propostas pelo governo federal”  

Caetano Veloso, em entrevista à AFP

Entre as maiores críticas de Caetano ao governo Bolsonaro está a questão ambiental. Em março, ele liderou um ato contra as políticas ambientais. O ‘Ato pela Terra’ surgiu em defesa do meio ambiente e contra o pacote da destruição do governo federal.  

Além de Caetano, outros nomes da classe artística, como Nando Reis, Rafa Kallimann, Paola Carosella, Seu Jorge e Emicida participaram do ato. 

Vaias e discurso 

Foto: Reprodução / YouTube

Em 1968, Caetano lançou o primeiro LP individual da carreira, intitulado “Caetano Veloso”, além do LP coletivo “Tropicália”.  Em meio ao contexto de Ditadura Militar, ele se apresentou, com roupas “peculiares, e cantou “É proibido proibir” no Teatro da PUC de São Paulo, durante o Festival Internacional da Canção. A plateia o vaiou e ele discursou sobre o conservadorismo daquela época. 

“Mas é isso que é a juventude que diz que quer tomar o poder? Vocês têm coragem de aplaudir esse ano, um tipo de música que vocês não teriam coragem de aplaudir no ano passado? É a mesma juventude que vão sempre matar amanhã o velhote inimigo que morreu ontem. Vocês não estão entendendo nada! Nada!”, provocou Caetano. 

“Absolutamente nada. Hoje não tem Fernando Pessoa. Hoje vim dizer aqui que quem teve coragem de assumir a estrutura de festival não com o que seu Chico de Assis pediu, mas de assumir e fazê-la explodir foi Gilberto Gil e fui eu. Não foi ninguém. Vocês estão por fora. Que juventude é essa?”, completou, seguido de o pedido para desclassificarem ele e Gil. 

Prisão e exílio 

Caetano foi preso pela Ditadura do Militar, em dezembro deste mesmo ano, e ficou 54 dias em cárcere. Quando a polícia bateu à porta do apartamento do baiano em São Paulo, ele tinha 26 anos. No documentário “Narciso em Férias”, produzido por Paula Lavigne, esposa do cantor, ele relembra o período do confinamento.  

“Acordei algumas noites ouvindo gritos de pessoas sendo torturadas. Fiquei apavorado!”, contou no filme.  

Caetano conta que teve que se defender “sem ser um traidor”. Uma das acusações feitas pelos militares foi de que ele teria feito “terrorismo cultural”, após ter modificado a letra do hino brasileiro. 

“Não pode ser: o hino tem versos hendecassílabos e na Tropicália as sílabas são mais longas e poéticas”, foi o que ele disse aos militares. 

Em 19 de fevereiro de 1969, tanto Caetano quanto Gil foram soltos, e depois veio o exílio na Inglaterra, mas o trauma de ter sido preso nunca saiu do cantor.  

“Parecia que nunca mais eu ia sair dali [da prisão] e que eu nunca tinha estado em outro lugar. Teve momentos na primeira fase que parecia que eu nunca tinha vivido o que eu vivi fora, e que a minha vida era aquilo e o resto tinha sido sonhos e fantasias que eu tinha tido”, desabafou em entrevista ao programa “Conversa com Bial”, da TV Globo.  

Atentado

A casa que Caetano Veloso morava com Paula Lavigne, em Ondina, em Salvador, no início da década de 90, sofreu um atentado, com um coquetel molotov e tiros de revólver. Ninguém ficou ferido. 

Coincidência ou não, 15 dias antes o cantor tinha feito críticas públicas ao então prefeito de Salvador, o ex-radialista Fernando José – considerado à época “o mais impopular” do país. 

O prefeito não gostou das críticas de Caetano à gestão do empresário espanhol Pedro Irujo, seu aliado político, e usou a TV Itapoan, emissora da qual era dono, para chamar o cantor de “mau-caráter e descarado”. 

Na época, Caetano disse: “Se alguém queria me intimidar, conseguiu. Estou com muito medo, mas não deixarei de fazer as críticas que acho necessárias”. 

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