Curiosidades

Quais são os maiores sucessos de Caetano? Conheça histórias por trás de canções marcantes do baiano 

Tem letra feita para ex-namorada, situações inusitadas e encomendas

Cláudia Callado
03/08/2022 às 6h30

8 min de leitura
Foto: Divulgação / Fernando Young

Quando um artista tem mais de 45 álbuns e mais de 4 mil composições, é difícil definir quais são as principais músicas. É o caso de Caetano Veloso. Entre as milhares de canções compostas, há excelentes histórias por trás delas.  

Caetano não é um artista de top 5. As músicas mais marcantes do cantor vão além de listas de mais ouvidas, além de que essa escolha pode variar de pessoa para pessoa. Para Rodrigo Faour, crítico musical, é impossível escolher uma ou algumas.  

Ele ressalta que, além das músicas que Caetano interpreta, ainda tem todas as que ele compôs para outros artistas, como Maria Bethânia e Gal Costa. “É muito difícil, cada fase tem um lema. Ele tem esse caráter multifacetado”, reforça. 

No Spotify, principal streaming de música, o top 5 do cantor inclui Sozinho, Você é Linda, O Leãozinho e Reconvexo, além de Samba de Verão, que não é de composição de Caetano. 

E se, de um modo geral, as composições do baiano falam sobre as vivências e o contexto brasileiro, as histórias por trás delas rendem boas curiosidades. Tem letra feita para ex-namorada, situações inusitadas e encomendas. Confira algumas histórias!

  • Menino do Rio 

A música foi composta na década de 70. Depois de passar três anos em exílio no exterior, Caetano acabava de retornar definitivamente para o Brasil. A canção foi escrita por “encomenda” para Baby do Brasil, que na época ainda era Baby Consuelo.  

E o menino do Rio é real. O nome dele é Joé Arthur Machado, conhecido como Petit. Ele era um surfista que frequentava o Píer de Ipanema, no Rio de Janeiro. Baby era uma das que admiravam o surfista e toda essa história inspirou Caetano. 

Em conversa com o poeta Eucanaã Ferraz, em 2003, comentou: “Eu fiz por encomenda na Baby Consuelo. Ela me pediu para fazer uma música para ela cantar para um cara que achava bonito. O cara era meu amigo, o Petit (José Artur Machado), um surfista aqui do Rio, garoto bacana e a Baby achava ele maravilhoso. A gente era amigo, andava junto, ia ao cinema. Fiz a música só de uma conversa que eu tive com ele na sala, na presença dele.” 

  • Reconvexo 

Caetano escreveu Reconvexo para a irmã Maria Bethânia em 1989, durante uma viagem à Roma. A letra da música é repleta de referências e aborda diversas faces da Bahia. Durante a canção, o artista faz um contraponto entre o eu, quem canta, e o você, uma terceira pessoa que parece não respeitar a cultura brasileira. 

No livro Sobre as Letras, o próprio Caetano admitiu que Reconvexo é uma resposta à Paulo Francis, que seria o “careta”, citado na canção. Para o baiano, o jornalista era incapaz de compreender as múltiplas facetas culturais do Brasil.  

Mas, ainda segundo Caetano, a letra também fala sobre todas as pessoas que insistem em não respeitar o povo baiano e sua cultura. Reconvexo faz parte do álbum Memória da Pele, de Maria Bethânia, lançado em 1989.   

  • Você é linda 

A música foi escrita em 1983 em homenagem a uma amiga de Caetano, da época em que morava em Salvador.  

“Fiz para uma menina chamada Cristina, de quem eu gostei muito intensamente na Bahia, nos anos 80, e que morava defronte à minha casa, do outro lado da rua, em Ondina. É uma canção bem romântica”, contou.  

A musa inspiradora é Cristina Mandarino, uma professora de pilates da capital baiana. 

  • Vaca Profana 

A música é sucesso na voz de Gal Costa e foi escrita por Caetano a pedido da cantora. O próprio Caetano explicou na edição dupla de seus livros Letra Só e Sobre as Letras que estava na Europa quando Gal lhe fez o pedido para compor. 

Na época, ele morava em Barcelona e utilizou o cenário catalão, assim como as demais referências à cultura espanhola, na canção. 

“Estava na Europa e, atendendo a um pedido de Gal, fiz essa canção de refrões mutantes que são difíceis de memorizar. Na verdade, é também uma canção sobre Gal. Ou melhor: procura dialogar com a persona pública de Gal. Tem muitas sacações bacanas”, disse ele.  

  • Leãozinho 

“Gosto muito de te ver, Leãozinho”. O “Leãozinho” que Caetano gostava de admirar era Dadi Carvalho, que fez parte dos grupos Novos Baianos e A Cor do Som, nos anos 1970, além de ter participado da gravação de discos como “África Brasil” (1976), de Jorge Ben, e “Tribalistas” (2002), da banda que reuniu Arnaldo Antunes, Carlinhos Brown e Marisa Monte. 

Ele e Caetano se conheceram na época em que o último ainda fazia parte dos Novos Baianos. O cantor dedicou “O Leãozinho”, de 1977, ao colega de profissão. No livro “Meu Caminhão é Chão e Céu”, Dadi é sucinto ao falar da homenagem. “O pessoal da editora até queria que eu escrevesse mais sobre isso, mas eu não tinha muito o que falar”, afirmou. 

Quando ouviu a canção pela primeira vez, ele conta que não acreditou que fosse para ele. “Achava que era para o filho do Caetano porque parece um pouco música para criança”, disse. 

E por que Leãozinho? Caetano explica: “Ele é lindo, e nessa época ele era novinho, era lindíssimo. Ele é de Leão, assim como eu”. 

  • Beleza Pura 

A música é de 1979 e, segundo o próprio Caetano, é uma saudação ao início da “tomada” de Salvador pelos pretos.  

“Ela sempre foi uma cidade com muitos pretos mas, até os anos 70, eles ficavam mais ou menos ‘nos seus lugares’: puxadores de rede, de xaréu, tocadores de candomblé, pescadores, vendedores de acarajé, todos muito nobres, bonitos, mas cada um no seu lugar tradicional. E, nos anos 70, em grande parte por influência do movimento negro norte-americano e sul-africano, mas também por desenvolvimento do mundo e do Brasil, os pretos tomaram conta da cidade da Bahia de outra maneira, e ‘Beleza Pura’ é uma saudação ao início desse acontecimento”, contou. 

“Eu sempre estive ligado às origens dessas coisas, por isso jamais poderia sentir a antipatia que os pretensiosos do centro tinham com relação à axé music. Sem falar em ‘Atrás do Trio e Elétrico’, de anos antes”, concluiu. 

Percursor 

Entre tantas composições, há vários ritmos e estilos. Nos quase 60 anos de carreira, Caetano transformou a música brasileira com o Tropicalismo, na década de 60, além de se renovar ao longo dos anos. O crítico musical Rodrigo Faour define o baiano como uma “centrífuga” musical.  

“Ele mistura as próprias vivências, do que ele observa do cotidiano, da cultura pop e mistura tudo no liquidificador, sem esquecer as raízes da música. É o artista que eu conheço que mais conhece a história da música do Brasil. Ele sabe sobre qualquer artista, qualquer tempo”, resumiu.  

Essa mistura esteve sempre acompanhada de uma visão “além do seu tempo”. Quando ritmos que hoje fazem parte da história do Brasil não eram tocados por aqui, Caetano já trazia os primeiros acordes. 

“Ele conseguiu absorver os elementos tanto da cultura brasileira, como cultura pop internacional. Ele criou alguns dos primeiros reggaes e raps nacionais, muito antes de existir uma organização musical desses ritmos. Quando ele lança Nine out of ten, em 1972. Bob Marley não era popular no Brasil, por exemplo”, comenta Fauor.  

Nine out of ten é uma das faixas do disco ‘Transa’, escrita quando ele estava exilado em Londres. Para o jornalista e pesquisador musical Marcelo Argôlo, com esta canção, Caetano consegue captar um movimento de transformação musical que se aprofundou nos anos seguintes.

“E tem a curiosidade de ser a primeira música [de reggae] de um artista brasileiro, apesar de ter uma letra em inglês, que faz referência ao reggae”, pontuou.

Outro destaque para Argôlo é “Tropicália”, que é a canção manifesto do Tropicalismo. “Ela resume as características do movimento de misturar elementos colados em oposição, como tradição e modernidade, rural e urbano, nacional e internacional”, destacou.

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