CONTINUA APÓS A PUBLICIDADE
CINEMA

Confira a crítica do filme 'O Regresso' com Leonardo DiCaprio

Longa é dirigido por Alejandro González Iñárritu

foto autor

09/02/2016 às 11:14 • Atualizada em 29/08/2022 às 8:09 - há XX semanas
Google News iBahia no Google News Google Adicionar como fonte preferida no Google
Cinemáticos Redação Cinemáticos
Informações sobre o filmeDuração: 156 minDirigido por: Alejandro González IñárrituCom: Leonardo DiCaprio, Tom Hardy, Domhnall Gleeson, Will Poulter, Lukas HaasGênero: Aventura , Drama , Faroeste
Sinopse: Em 1820, um batedor chamado Hugh Glass entra em uma onda de vingança contra as pessoas que o deixaram à própria sorte após um ataque de um urso.
Assim como em seu filme anterior, o incensado Birdman, a obra mais recente do talentoso Alejandro Gonzalez Iñárritu poderia beneficiar-se de um subtítulo lúdico: aqui, a inesperada virtude da ignorância é perfeitamente substituída pelo inexorável vício da arrogância, numa obra impecavelmente filmada e acertada nas suas atuações, mas absolutamente oca e perdida nas suas intenções. Antes de tudo, um dos atrativos óbvios do longa: viemos do futuro e gostaríamos de parabenizar Leonardo DiCaprio pelo seu Oscar de melhor ator. Se O Regresso serve para alguma coisa é representar o quanto o intérprete teve de ralar para conquistar algo que tanta gente menos talentosa conseguiu com uma facilidade muito maior. O Hugh Glass vivido por ele é um dos personagens mais física e mentalmente torturados do cinema recente, e todas as caras de sofrimento, grunhidos, rastejos, interações brutais com animais e palavras proferidas com dor pelo ator servem para evidenciar sua entrega e talento, mas não para superar o que já tinha apresentado antes, quando aliado ao mestre Martin Scorsese. De qualquer forma, o peso do filme recai sobre suas costas quase inteiramente e é sustentado até o final de forma competente. Destaque óbvio também para Tom Hardy, como canalha e antagonista irresistivelmente odiável.
Ainda focando nos pontos positivos, temos outra qualidade inegável: Emmanuel Lubezki, o “Chivo”, apresenta aqui a melhor direção de fotografia de sua carreira, ajudada por terrenos abertos e paisagens embasbacantes na sua beleza, num filme composto inteiramente por luzes naturais. A cinematografia digital aqui prova o quão longe chegamos e o quão falacioso passou a ser o argumento da superioridade analógica. Beneficiado pelos planos longos com os quais Iñárritu prefere sustentar a maior parte de suas sequências, temos um espetáculo visual único, nos quais as lentes grande-angulares servem simultaneamente para causar estranheza e aumentar o impacto das ações, tanto em momentos de violência (tem de sobra) quanto em momentos mais reflexivos. Visualmente, os paralelos são óbvios: remete a Aguirre, a Cólera dos Deuses em vários dos seus momentos iniciais, e se levarmos em consideração as dificuldades técnicas e logísticas envolvidas na realização de ambos chega a ser uma relação curiosa. Mais Forte que a Vingança (AKA “Jeremiah Johnson”) com seu vulnerável isolamento do personagem principal em terrenos gélidos pode surgir como outra comparação válida. A única e inegável influência, entretanto, é de Terrence Malick, em especial um dos seus filmes menos queridos. O Novo Mundo (fotografado também por Lubezki) é uma obra sobre a formação dos EUA e forma predatória como esta ocorreu, além do conflito existencial de um protagonista branco entranhado sentimental e espiritualmente com povos nativos. Como é possível notar, as semelhanças vão muito além das lentes e enquadramentos empregados pelos dois cineastas.Daí deriva o maior problema d’O Regresso: assim como Malick, Iñárritu é um cineasta numa busca eterna pelo transcedental. A fase inicial de sua carreira intrinsecamente ligada a Guillermo Arriaga unia pessoas via coincidências, fossem elas reais, simbólicas ou quasi-metafísicas. A partir de sua emancipação do roteirista e trabalhando com novos parceiros temos filmes centrados em protagonistas torturados internamente: de início, o mórbido Biutiful, possivelmente a obra mais difícil do realizador, no qual a tentativa de fazer sentir o peso da vida e da morte e a transição entre as duas exaurem o espectador, para o bem e para o mal. Birdman é uma provocação através de seu ator decadente e sua respectiva irrelevância num mundo em que faz pouco sentido buscar qualquer mérito artístico quando explosões ou polêmicas causam muito mais fascínio. Chegamos a O Regresso, então, um filme que não sabe se é uma das ou a soma de todas as seguintes opções: denúncia contra a exploração de povos indígenas; homem vs. natureza; a busca por vingança; a sobrevivência na brutalidade de um oeste selvagem; o conflito interno de alguém que perdeu tudo que tinha duas vezes seguidas. A julgar pelos momentos finais do longa, a soma de tudo é a opção mais correta, mas também a que mais evidencia seus diversos problemas.
Durante boa parte da projeção o espectador é sujeitado a imagens (belíssimas, obviamente) do massacre pelo qual Hugh Glass e as pessoas do vilarejo no qual vivia passaram, tanto como flashbacks quanto alucinações de fantasmas de esposas mortas que nunca criam liga com a história principal. Para piorar, o que está separado de Glass no filme, como a tribo em busca de uma garota sequestrada e vendendo peles para franceses, causam pura irritação em cenas que servem quase como interlúdios para o que realmente interessa. Outro exemplo de sequências desnecessárias são as do grupo ao qual Glass fazia parte perdido em meio à neve, algo que Iñarritu acha estar subvertendo a inutilidade simplesmente por evidenciar a inferioridade dos humanos contra monumentais picos gélidos ou escolhendo finalizar uma cena dançando com a câmera no topo de uma cachoeira. Martelando continuamente o óbvio, fica evidente que o filme se beneficiaria muito mais de um approach mais direto e centrado no seu fragilizado protagonista, do qual nem precisávamos saber a história prévia para nos importar com seu destino. Obviamente, a maior frustração está no fato da tal (tentativa de) transcendência que o filme carrega quase como medalha de honra e distinção não conseguir realizar nada minimamente memorável ou que acrescente algo à trama de forma válida. Por outro lado, as conquistas técnicas do filme são diversas e merecem ser louvadas. É quase impossível desde o início da projeção não sentir-se imerso na realidade retratada pelo filme, tanto no aspecto visual quanto no desenho de som acertadíssimo que oprime o espectador a cada correnteza de rio fora de controle ou ossos quebrando. Os efeitos visuais são utilizados de forma efetiva e sem exageros, em especial numa cena envolvendo um penhasco e o já exaustivamente comentado ataque de urso. Excetuando-se os aspectos técnicos e focando no roteiro, infelizmente, não há destaques positivos.Se em Birdman tínhamos uma desesperada e pretensiosa (ainda que válida) crítica ao zeitgeist de uma era de entretenimento supostamente vazio em que a recompensa imediata vale mais do que qualquer intelectualismo ou reflexão, O Regresso funciona como contraponto para o que seu predecessor discutia, mas, quase inteiramente, sob aspectos negativos. As tentativas de transcender e provocar, dessa vez, resumem-se a um filme convicto no que está fazendo, mas simultaneamente inane e próximo ao nível das obras que Iñárritu tanto fez questão de criticar, diferenciando-se apenas pela exagerada aura de brutalidade aliada a uma integridade artística que beira a soberba e facilmente capaz de enganar os incautos. O esforço é válido, mas o resultado final revela mais sobre o que é incapaz de alcançar do que os seus méritos.

Leia também:

Participe do canal
no Whatsapp e receba notícias em primeira mão!

Acesse a comunidade
Acesse nossa comunidade do whatsapp, clique abaixo!

Tags:

Mais em Cinema