Reconhecida como uma das 20 mulheres inovadoras do Brasil, Saville Alves fala sobre posturas mais sustentáveis no século XXI


Foto: Divulgação / Tayse Argolo Fotografia

Reconhecida pela Forbes Brasil como uma das vinte mulheres inovadoras nas Agtechs, a convidada dessa semana da coluna Conexões e Negócios é Saville Alves, sócia-fundadora da SOLOS. A startup baiana foi fundada em 2018 pelas sócias Saville Alves e Gabriela Tiemy e tem como objetivo gerar impacto por meio da economia circular, através do engajamento e facilitação do descarte das embalagens pós-consumo.

Comunicadora social, empreendedora e integrante da Câmara de Inovação para a Sustentabilidade de Salvador, Saville tem 30 anos e já acumula em seu currículo, trabalhos com grandes marcas, a exemplo da Braskem, Ambev, Heineken, Nubank, Basf e Sebrae, com atuação em diversos estados do país, a exemplo de São Paulo, Rio de Janeiro, Bahia e Rio Grande do Sul.

Com a missão de desenvolver ações que possam despertar a consciência nas empresas e indústrias sobre sustentabilidade, tendo como foco principal o descarte correto de resíduos orgânicos e a reciclagem, a sócia da SOLOS falou conosco sobre “Como pequenas empresas e organizações podem assumir posturas e atitudes mais sustentáveis em seus negócios”. Confere aí!

Rodrigo Almeida – Como surgiu a SOLOS?

Saville Alves – “As sociedades são conduzidas por agitadores de sentimentos, não por agitadores de ideias”. As palavras de Fernando Pessoa soaram como encanto para nós. Eu e Gabi nos conhecemos na organização internacional TETO, quando trabalhávamos em comunidades de alta vulnerabilidade de Salvador, com ações de proteção ao direito à cidade. Essa frase de Pessoa foi uma das primeiras sínteses de nossas percepções sobre o que nos levou a permanecer por tantos anos na TETO e o que seria capaz de, em outros espaços, também gerar as transformações que acreditávamos ser urgentes.

Nas favelas, a ausência do Estado é abissal. E o lixo é uma dessas manifestações latentes. Você vê e sente o cheiro do descaso. Naquele mesmo período, cada uma de nós estava adotando novos hábitos e escolhas de estilo de vida, como vegetarianismo, preferência por produtos de produção local e a redução do nosso lixo – que passou a nos ser percebido e incômodo.

Deste estalo até o que de fato se tornou a SOLOS, foi uma trajetória compartilhada. Empreender já era um desejo meu. Fui liderança desde os 18 anos do Movimento Empresa Júnior, onde ocupei, dentre alguns, o cargo de Diretora da Federação Baiana de Empresas Juniores. Gabi vinha mais dos movimentos sociais e das ONGs e com um histórico de liderança forte e autonomia. Nascida em São Paulo, morou em Nova York, Londres, mas foi em Nova Deli, na Índia, onde teve sua epifania. Ao voltar para o Brasil, decidiu sair de São Paulo e Salvador passou a ser sua nova morada.

Esse encontro de momentos, experiências e personalidades (bem diferentes, mas complementares) fez com que sentíssemos confiança e carinho para criar a SOLOS. No final de 2016, participamos do Lab da Yunus Social Business, onde criamos o primeiro escopo (canvas) do que viria a ser a SOLOS. Meses depois, em fevereiro de 2017, fomos selecionadas para participar do Triggers, programa de aceleração de ideias de negócios. No programa, ocorrido em São Paulo, por 7 meses, fomos as únicas selecionadas fora do Sudeste. Durante o programa, tivemos como objetivo validar o problema e modelo de negócios e criar redes. Tivemos como mentores altos executivos de empresas como Google, Visa, Johnson&Johnson, Spotify e Whirlpool.  Ou seja, iniciamos com um incômodo e conseguimos lapidá-lo junto aos melhores para que ele se tornasse um negócio, permanente a emoção, mas com bastante conhecimento e estruturação para que fosse uma organização real, com impactos verdadeiros.

RA – Ao longo dos anos vocês têm trabalhado em parceria com grandes empresas, como se estabeleceu esse relacionamento?

Saville Alves – Eu fui educada profissionalmente a entender os negócios b2b. Desde a faculdade, quando fui diretora da empresa júnior, que prestava serviços para outras pequenas empresas, até grandes companhias que trabalhei em seguida. Então fui criando redes, participando de espaços que promoviam esses encontros, como eventos, e quando decidi empreender junto com Gabi, meu pensamento foi “será uma solução para resolver a dor de outras empresas, porque consigo as ferramentas para entendê-las”. Logo no início as prospecções eram feitas 100% a partir da minha rede, alguém que eu conhecia me indicava ou eu resgatava algum contato antigo. Hoje, eu continuo a frente da área de Conexões, onde está o comercial, mas temos já estratégias de vendas que extrapolam os meus, mas uma vez que o cliente entra no nosso pipeline, passamos a manter uma relação carinhosa, com respeito e muita sinceridade. Isto promove a fidelização. Relações verdadeiras de trocas.

Foto: Divulgação / Tayse Argolo Fotografia

RA – Imagino que os desafios são diversos, pode dividir conosco um pouco sobre essas vivências?

Saville Alves – Ser um negócio de impacto, liderado por mulheres, no Nordeste não é brincadeira… Quando lidamos com o setor privado, temos encontrado times mais femininos, mas ainda com centralização de tomada de decisão em São Paulo. E quando vamos para o setor governamental, aí de fato são raríssimas as mulheres. Esses códigos trazem veladas percepções e olhares. Quando falamos que atuamos em três regiões do Brasil, passamos sufoco para conseguir provar que não estamos regionalizadas, apesar de nossa matriz ser em Salvador. Mas quando um negócio de impacto sediado em São Paulo, por exemplo, se propõe a atuar em outras praças, não é questionado sobre seu regionalismo. Então acredito que estes sejam os elementos mais desafiadores. Lógico, que atrelado a própria natureza de nosso negócio que é transgressor. Nos propomos a fazer grandes mudanças junto com nossos clientes. E é preciso ter um pensamento criativo para imaginar uma realidade que ainda não existe. Mas temos conseguido trabalhar junto com parceiros bem especiais, sou super orgulhosa do trabalho consistente e das mudanças tangíveis (com números expressivos) e subjetivas que estamos fazendo juntos.

RA – Há um campo crescente em torno da atenção necessárias às ações de sustentabilidade, como você tem visto esse movimento?

Saville Alves – Nas teorias da administração, existe uma ferramenta que se usa para priorizar problemas a serem resolvidos, chama GUT (Gravidade, Urgência e Tendência). As questões socioambientais estão no centro das discussões porque elas estão em seus níveis mais acentuados nessas três frentes. E isso tem se intensificado, especialmente, após a Revolução Industrial, no século XVIII. Então precisamos remodelar nossas formas de existência e isso é supercomplexo e precisa envolver todas as camadas da sociedade, mas especialmente aquelas que detêm a capacidade de decidir por muitos (o poder).

Sim, podem ter várias empresas ou governos que levantam esta bandeira de maneira imagética e fugaz, mas os negócios mais inteligentes e robustos já sacaram que precisam pensar em novos modelos de negócios, operações, rede de fornecedores, design de produto e por aí vai para conseguirem ter negócios mais competitivos e robustos.

RA – Como as empresas podem assumir posturas mais sustentáveis hoje?

Saville Alves – Os caminhos são diversos e temos um monte a ser feito. Aqui na SOLOS, a gente atua para trazer soluções para o descarte do pós-consumo. São 80 milhões de toneladas de lixo produzido ao ano no Brasil. Parte desse peso todo são embalagens, ou seja, produtos feitos para duram poucos segundos ou minutos na nossa mão e de uso único, como por exemplo, uma garrafa de bebida. Para um primeiro passo para os negócios é olhar para os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), entender qual deles mais sensibiliza o gestor para que se inicie por aí. Quando você começa por algo que verdadeiramente mexe contigo, as transformações são mais rápidas, profundas e puxam outras mudanças.

RA – Para terminar, qual a sua expectativa para o futuro?

Saville Alves – Acreditamos muito que os movimentos do mercado e as diretrizes internacionais vão acelerar o amadurecimento das mudanças das grandes companhias e isso vai cascateando também para os negócios de médio e pequenos portes. E com certeza reflete em novas políticas públicas. Em concomitância, o perfil das novas gerações, influenciado pelo desenvolvimento de tecnologias, também promete novas formas de consumo e de relações entre marcas e pessoas.

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