Somente 30% dos cientistas no mundo são mulheres


CEO da Planty Beauty Mariana Silva (Foto: Acervo Rodrigo Almeida)

Biomédica, mestranda pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), pesquisadora cientifica e CEO da Planty Beauty, Mariana Silva experimenta os desafios de ser mulher e cientista. “Pela minha vivência, não enxergo um número competitivo de mulheres fazendo parte de cargos elevados dentro das principais instituições de pesquisa e a consequência disso é o cinturão corporativo dos homens, de reforço dos privilégios e de revezamento de poder entre eles próprios”, pontua Mariana.

Embora existam mais mulheres com bolsas de pesquisa, mestrado e doutorado, dados da Elsevier Gender Report Nov. 2020 apontam que o número médio de pedidos de patentes entre os homens é de 3.57, contra 3.06 entre as mulheres (2012 – 2016)., e o mesmo acontece em relação às publicações em revistas científicas.

“Mesmo tendo aumentado a participação das mulheres na pesquisa em geral, a desigualdade permanece em termos de resultados de publicações, citações, bolsas concedidas e colaborações. Em todos os países, a porcentagem de mulheres que publicam internacionalmente é menor do que a de homens, esse foi um dado publicado no relatório da Elsevier intitulado ‘A jornada do pesquisador através de lentes de gênero’”, destaca Mariana Silva.

CEO da Planty Beauty, uma cosme tech – startup de cosméticos com foco em biotecnologia, Mariana Silva explica ainda que a sua atuação na ciência é “diferente do que o consciente coletivo deve pensar sobre o que faz uma cientista à frente de sua startup”. Na faixa dos 30 anos, a CEO e o seu sócio vivem hoje o desafio de fazer ciência sem um laboratório próprio e sem o estereótipo de pesquisadores mais seniores.

“Acho também que a imagem de uma cientista, mulher preta não seja a imagem que vem automaticamente na cabeça. Mas acredito que isso tem mudado e eu tenho que agradecer a Dra. Jaqueline Goes de Jesus, minha conterrânea que fez história na pandemia, responsável pelo sequenciamento do genoma do vírus SARS-CoV-2 apenas 48 horas após a confirmação do primeiro caso de COVID-19 no Brasil. Obrigada Dra. Jaqueline!”, assinala.

Determinada e planejada em nível de atuação acadêmica e profissional, Mariana Silva tem se dedicado à Planty Beauty por meio do lançamento de novos produtos e crescimento em território nacional. Entre as inovações, destaque para a parceria com um laboratório no desenvolvimento de produtos com matérias-primas inovadoras, como o ácido hialurônico vegano, que ao invés de ser extraído de animal, utiliza leveduras de pão modificadas geneticamente para produção deste ativo.

“Eu tenho me preparado para levar a Planty para o mundo à fora. Nossos planos de crescimento envolvem América Latina e América do Norte. Vamos mostrar ao mundo que somos o país do samba, mas também da ciência e biotecnologia”, finaliza.

Para auxiliar mulheres que anseiam ou já se dedicam à ciência, a CEO da Planty listou 5 dicas para quem sonha em empreender na área:

  • Se envolva com o universo acadêmico. Entenda como a ciência é produzida, converse com quem está fazendo iniciação científica, mestrado ou doutorado e eu até diria, faça uma especialização dessas. Essa ideia de que nem formação acadêmica você precisa ter para empreender, não cola nessa área.
  • Não conheço ninguém que passou pela vida acadêmica e não saiu com algum trauma, então segure firme, vai ser um processo difícil, mas lá você provavelmente vai encontrar uma boa ideia para empreender e pessoas que vão te ajudar a criar seu negócio e quem sabe ter um(a) sócio(a).
  • Falando de sócio(a), tive uma startup anterior a Planty e meus sócios eram muito acadêmicos, doutores fazendo o pós-doutorado, nunca tinham trabalhado na iniciativa privada. Pelo status de ser doutores você pode achar isso um máximo, mas saiba que outras expertise gerenciais podem faltar e uma visão limitada de negócio e de construção de uma cultura, pode minar o próprio negócio antes mesmo de sair do papel.
  • Seguindo na linha sócios(as), essa dica é pra empreendedores(as) de qualquer área: não dividam a empresa de forma arbitrária. A metodologia que eu recomendo é usar a divisão dinâmica de cotas descrita no livro “Slicing Pie” do Mike Moyer que infelizmente não tem uma versão em português, mas eu vou resumir aqui: participação da empresa deve ser dada em troca de dinheiro ou trabalho e isso tem pesos diferentes, geralmente dinheiro tem mais. Então você pode criar um acordo de cotista entre sócios(as) que visa dividir as cotas da empresa conforme o valor em dinheiro que cada sócio(a) põe e nas horas trabalhadas. É uma forma justa de dividir e é feita periodicamente. Pouquíssimos advogados (até os empresariais) sabem sobre essa metodologia e por isso recomendo seguir a indicação que o próprio autor do livro dá para encontrar em cada país advogados que conhecem a metodologia para criar o melhor acordo de cotistas possível.
  • Crie uma linguagem acessível para sua ideia. Termos científico são usados constantemente para descrever qualquer coisa quando você está na universidade, mas quando você precisa fazer um pitch para um investidor ou para sua mãe, sua ideia tem que soar clara e deve ser entendida por qualquer pessoa, acadêmica ou não.

Rodrigo Almeida* – @rodrigoalmeidarp
Relações Públicas, Mestre em Gestão e Tecnologia Industrial (SENAI – Cimatec), pós-graduando no programa de MBA em Tendências e Inovações, Palestrante, Professor Universitário de pós-graduação, Consultor e Diretor da agência CRIATIVOS.

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