‘Das coisa dessa vida’ reivindica o direito de viver fora da caixa


Foto: Divulgação

Logo à primeira vista, pelo sotaque marcante e carismático, identificamos o universo interiorano do espetáculo solo “Das coisa dessa vida”. Por conta da linguagem e de um vocabulário embrenhado de humor, sagacidade e regionalismos, também é possível nos remeter a referências de escrita e temáticas de autores como Guimarães Rosa, Graciliano Ramos, Ariano Suassuna, entre outros que fizeram dessa atmosfera poesia, literatura e teatro… Nesse aspecto,  já é bom saber que a peça em questão, assinada pelo dramaturgo Gildon Oliveira, foi indicada ao Prêmio Braskem de Teatro pelo texto, assim como a sua montagem recebeu indicações nas categorias Direção (João Miguel) e Ator, conquistando o prêmio pela atuação de Ricardo Fagundes, em 2019.

Embora o humor e a ironia sejam o fio condutor desse enredo, a história faz um caminho sinuoso por situações diversas, num fluxo tragicômico, que faz rir, emociona, denuncia e desperta reflexões. Nascido no Interior, criado com uma avó, num ambiente simples, machista, carregado de preconceitos e padrões de comportamento, a personagem Naldo se torna comerciante; dono de  um bar de beira de estrada, onde também se apresenta dançando. E é justamente nesse cenário (criado por Zuarte Jr.), de um “armazém-boteco”, com cara de “inferninho”, que ele vai relatando suas memórias, sonhos, anseios, decepções e conquistas. Lembrando de tudo que sofreu até construir as bases de sua identidade.

Naldo – que em sua jornada de consciência e autoconhecimento se autoafirma Nalde – refuta rótulos de identidade de gênero. Busca na vida a plenitude da liberdade. Destemido(a), enfrenta o patrulhamento de sua sexualidade, com a cabeça erguida. Mas, nem por isso escapa da violência e da repressão. Uma personagem realmente fascinante pela profundidade de sua natureza, porém ao mesmo tempo simples, provocadora, intrigante… Um perfil psicológico que poderia protagonizar perfeitamente um filme de Almodóvar. Com passagens que poderiam ser retratos da vida de qualquer pessoa, especialmente, quando se refere às suas desilusões amorosas.

Nalde nos encanta quando nos projeta sua infância. Nos diverte com suas tiradas inteligentes. Nos comove com as suas lutas. E, verdadeiramente, nos emociona ao falar de amor e da relação com a sua avó. Suas virtudes ecumênicas são pura sapiência. Tudo isso dito através de um manancial de metáforas, ditados, poesia e expressões da sabedoria popular. Pérolas como “Amor, quando é pouco, nunca é rio. É só lago.” ou “Pra mim, o que move o mundo é o que a gente trás por dentro, gente!” são puro deleite.

Se fosse apenas para escutar o texto de Gildon Oliveira numa leitura dramática, já valeria a pena a ida ao teatro. Mas, o reconhecimento do ator Ricardo Fagundes com o Prêmio Braskem de Teatro faz muito jus a sua atuação. Lapidado pela direção do também ator João Miguel, Fagundes enche de vida, corpo e alma uma personagem que muita gente gostaria de ter como amiga.

SERVIÇO:

Espetáculo “Das coisa dessa vida”

Quando: sábado e domingo, 27 e 28/08

Horário: 20h

Onde: Teatro SESI Rio Vermelho –  Rua Borges dos Reis, 9 – Rio Vermelho, Salvador – BA

Quanto: R$ 30 (inteira) e R$ 15 (meia)

Os ingressos para o espetáculo podem ser adquiridos na bilheteria do teatro ou no site SYMPLA

Classificação indicativa:

Mais informações: 3616-7064 / 3616-7066

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