‘De Resenha’: Romeu e Julieta à moda baiana


Foto: Divulgação

“A Desafortunada História do Romance de Julieta e Romeu” é a 14ª montagem da companhia Ateliê Voador Teatro, grupo criado em 2002 pelo diretor, pesquisador e professor da UFBA, Djalma Thürler. Não se trata apenas do universo do dramaturgo inglês William Shakespeare, como muitos podem ser induzidos a pensar, até por ele ter se consagrado como o autor mais famoso desse conto popular europeu. Nessa versão, a Ateliê Voador se inspira e se baseia em diversas referências, poéticas, análises e narrativas. Entre as fontes utilizadas na peça, cito aqui o cordel “Romance de Romeu e Julieta” (João Martins de Athayde, 1975) e o poema “A Trágica História de Romeu e Julieta” (Arthur Brooke, 1562).

Refrescando a nossa memória, o conto narra a hitória do casal Romeu Montecchio e Julieta Capuleto, formado por membros de familias rivais (Montecchios X Capuletos), na histórica cidade-estado italiana: Verona.  Entretanto, eles se conhecem numa festa oferecida pelos Capuletos e acabam se apaixonando, à primeira vista, contrariando assim os próprios pais, por conta de um propósito de vingança que atravessava gerações. Em meio aos muitos entraves e desencontros, o casal culmina num destino trágico.

A versão criada por Djalma Thürler e a companhia é um diálogo plural com as diversas versões dessa história, que, claro, inclui Shakespeare, num entrelace de diversas linguagens, como literatura de cordel, prosa, poesia, teatro musical e música popular e contemporânea. Ora, estamos diante de expressões culturais muito próprias da Bahia, como o “arrocha”; ora, nos deparamos com uma esquete musical ao estilo Broadway; e até mesmo com estrofes das  canções “Borbulhas de Amor” (Fagner) e “Rapunzel” (Carlinhos Brown/Alain Tavares) – sendo esta última previsível. 

A direção musical de Cassius Cardoso mistura, por exemplo, funk e música instrumental, entre outros ritmos e texturas sonoras, para compor uma ambiência que transita entre diversos gêneros. Essa proposta entra em simbiose com as coreografias do dançarino e coreógrafo Leandro Oliveira, inclusive, pela inserção de uma coreografia de quadrilha junina, que é uma das especialidades do artista. Destaco também o afinado casamento de vozes do elenco, que contou com a prepração vocal do cantor Neto Costa.

As persongens são artistas de rua na fronteira entre as diversas camadas e planos de interpretação. Há duplos de Romeu e Julieta, em que os personagens se duplicam, se espelham, criam ecos… A partir da prória experiência dos atores é possível ainda perceber resultados de jogos de improvisação no processo de construção do trabalho. A encenação se beneficia muito desse aspecto no jogo cênico, passeando com destreza pela metalinguagem. Interessante também foi ver o ator Jarbas Oliver – muito conhecido pela sua veia artística potente e talentosa para a comédia (“A Bofetata”/”Siricotco”/”Sonho de Uma Noite de Verão”) em uma faceta mais dramática. Ficou em mim a vontade de ver mais cenas musicais etremeando o espetáculo.

Entre o drama e a comédia, entre o clássico e o contemporâneo, o espetáculo “A Desafortunada História do Romance de Julieta e Romeu” questiona o desfecho trágico dessa história, as imposições morais e conservadoras da ordem social. É uma obra que não perde o tom, consegue dosar nuances de lirismo, humor, reflexão, romantismo e ainda se permite ao deboche, algumas vezes. Uma experiência para o prazer e o para o saber.

A Desafortunada História do Romance de Julieta e Romeu
Quando: De 19 de Maio a 12 de Junho de 2022 (Quinta a Domingo), 20h
Onde: Sala do Coro do Teatro Castro Alves
Quanto: R$40,00(inteira) e R$20,00(meia)
Classificação indicativa: 16 anos

Vendas: Os ingressos para o espetáculo podem ser adquiridos na bilheteria do Teatro Castro Alves (informações de funcionamento em www.tca.ba.gov.br/oteatro/servicos/bilheteria ou no site e aplicativo da Sympla (www.sympla.com.br).

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