'De Resenha'

Espetáculo “Deboche” escancara as polaridades da classe média

Montagem é uma livre adaptação do texto “Computa, Computador, Computa”, escrito pelo dramaturgo e escritor Millôr Fernandes para a atriz Fernanda Montenegro

Arlon Souza
17/06/2022 às 18h00

3 min de leitura
Foto: Divulgação

Resultado do curso de graduação em Direção Teatral da Escola de Teatro da UFBA, o espetáculo “Deboche” reúne no palco quatro jovens atores muito talentosos. A direção do recém-formado Paulinho Machado optou pela exploração do espaço em disposição de arena, permitindo ao público escolher o ângulo em que quer assistir à peça. Tudo acontece aos olhos da plateia, com os atores em cena o tempo inteiro. Quatro gaiolas triangulares nos cantos do palco compõem um cenário móvel e multiuso.  E é nesse desenho que toda a trama se desenrola.  

Provocando uma série de questões sobre os anseios, desejos, consumos e visões de mundo da sociedade, “Deboche” discute a guerra de narrativas que vive o Brasil. Desde o início, destila crítica, ironia e acidez; e o nascimento de mais um ser humano é o mote para uma série de situações sobre os porquês da existência e dos rumos da humanidade. Observando o figurino e a maquiagem, nos perguntamos em que época estamos nessa encenação. Mesmo que essa história tenha sido escrita por Millôr Fernandes durante a Ditadura Militar no Brasil, ela encontra ainda hoje muitas semelhanças com o panorama político atual. Nela, também estamos diante de um grande embate filosófico.

Falando nisso, podemos compreender o palco como esse grande ringue que se tornou o país e  ver nele um campo minado de uma guerra civil de narrativas, em que suas personagens se polarizam entre visões e atitudes antagonistas, que duelam entre posições progressistas e conservadoras. O perfil do indivíduo de classe média é traçado sob o viés de necessidades e perspectivas ao mesmo tempo fúteis e cruéis. Acuada nesse grande MMA da vida, a personagem principal se pergunta: “O que é que eu vim fazer aqui?”.  E desse modo acaba projetando uma pergunta feita por muitos de nós em situações-limite.

Uma outra característica que se expressa no espetáculo é o diálogo com as demandas sociais por diversidade e identidades. Pontuo aqui também o primoroso trabalho de maquiagem de Agamenon de Abreu, que soube imprimir com maestria a proposta retrô e futurista do espetáculo. O elenco, composto por Walerie Gondim, Heder Novaes, Victor Sampaio e Rodrigo Villa, estabelece um jogo cênico muito dinâmico e atento às nuances geradas pela interação com o público. Paulinho Machado que, além da direção geral, assina também a direção musical e adaptação do texto, soube construir um trabalho digno de sua formatura. Ponto para ele e para a Escola de Teatro da UFBA.

Espetáculo “Deboche”

  • Quando: 16 a 19 de Junho, às 19h
  • Onde: Teatro Gregório de Mattos – Praça Castro Alves, s/n, Centro – Salvador/BA
  • Quanto: R$ 20,00 (inteira) R$ 10,00 (meia)
  • Classificação: 16 anos
  • Tempo: 1h15

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